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Elena Ferrante é um homem?

  • Foto do escritor: Maria Fernanda Marques
    Maria Fernanda Marques
  • 8 de mar.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 13 de mar.

Os recentes comentários de Édouard Louis nos fizeram pensar… todo mundo odeia Elena Ferrante?!


Recentemente, em entrevista à Folha de S. Paulo, o fenômeno literário francês Édouard Louis chamou a obra de Elena Ferrante de “realmente ruim” e disse que a escritora italiana faz “romance para adolescentes”. O comentário veio em resposta a uma declaração de Aurora Bernardini, em que ela alega que obras como as de Ferrante e de Annie Ernaux, conterrânea de Louis, não poderiam ser consideradas literatura, pois privilegiam o conteúdo à forma.


Existem diversas boas respostas para essa pergunta. Édouard poderia, por exemplo, dizer simplesmente que se trata de uma declaração ignorante, elitista e profundamente misógina, uma vez que o “conteúdo” a que Bernardini se refere como não-literário é um conjunto de reflexões bastante relevantes e profundas a respeito da vivência de mulheres nas diferentes sociedades europeias, no ontem e no hoje. Se ele realmente quisesse atacar alguém no dia, por qualquer que seja o motivo, ele poderia só dizer que alguém que faz uma declaração tão estúpida quanto essa não deveria se achar no direito de dizer o que é literatura e o que não é.


No entanto, Louis decidiu usar a pergunta da jornalista Isabel Seta, que em tese deveria dar a ele um espaço para se defender dos inúmeros ataques que seus livros e suas posições políticas vêm sofrendo, como um gancho para falar mal de Elena Ferrante.


Isso tudo me despertou uma série de dúvidas: não era mais fácil chutar cachorro morto e atacar a autora dessa frase? Será que ele não vê, ou não quer ver, que a autoficção que ele admira — e na qual se inspira — na obra de Ernaux pode também estar presente na obra de Elena Ferrante? Quando ele diz que Ferrante está fazendo romance para adolescentes”, ele quer dizer todos os adolescentes ou apenas as meninas?


Se Elena Ferrante for um homem, homens vão ter mais simpatia por ela?

No início deste ano, dediquei um tempo a pensar em (mais) uma polêmica discussão que estourou no Twitter (X) envolvendo o verdadeiro gênero da escritora italiana Elena Ferrante, que optou pelo anonimato total de sua aparência e vida privada.


Tudo começou quando um rapaz, provavelmente em seu recesso de fim de ano, postou uma foto lendo Um Amor Incômodo, romance de Ferrante lançado originalmente em 1992 e relançado em 2006 internacionalmente. Na legenda, recomendava inocentemente: “leiam mulheres.” O post seguiu o script clássico de um viral: amigos e mutuals comentaram, fizeram piada, chamaram o garoto de “performático” — palavra que virou moda nos últimos meses para acusar algumas pessoas, geralmente homens, de moldarem seus gostos para agradar seus pares nas redes.


De repente, o post chegou à timeline de algum espírito de porco (expressão que minha mãe usa para designar aquele que se diverte perturbando os outros, como um porco se diverte na imundície). E ele disparou: “Quando vocês descobrirem que Elena Ferrante é um homem, o mundo de vocês desaba.”


Pronto. A inocente recomendação do nosso amigo ferranter seguiu seu caminho na estrada da perturbação, mantida à duras penas pelos urubus que ainda habitam a rede-carniça. Chama acesa, a confusão se instaurou. O comentário virou ele próprio o novo viral, especialmente entre mulheres que frequentaram os infinitos clubes da Luluzinha criados após o sucesso da Série Napolitana. “Um homem jamais escreveria o que Ferrante escreve”, respondiam. Da minha timeline, eu observava e pensava: sim! Ponto válido. Talvez um homem realmente não pensasse com tamanha minúcia e autenticidade sobre a vida de mulheres. Like.


Não deu nem uma noite inteira de sono, veio o contra-ataque: “Ok, é difícil acreditar que um homem escreveria como Ferrante, mas não podemos cair em essencialismos de gênero.”


É… de fato. Determinismo biológico é meio mico, né? Like.


Logo depois, surge — atenção! — um homem careca com uma thread. Não li tudo, mas lembro do argumento: bons escritores exercitam a alteridade, e “essa geração” (você quer dizer a minha?) estaria engessando autores em “caixinhas” identitárias. Penso: bom… também não está totalmente errado. Like.


Horas mais tarde, surge o comentário definitivo: “Apenas um homem poderia achar que homens são capazes de tudo.” Super like.


Pouco tempo depois, Trump invadiu a Venezuela, e aí a discussão perdeu espaço para tragédias mais urgentes.


Além de ser desprezada por homens, o que faz de Ferrante uma mulher?

Quando não se tem um rosto ou um corpo que te sugere gênero, o que faz de alguém uma mulher?


Do que se faz a subjetividade de mulheres? A violência que sofremos em comum? As experiências que compartilhamos na infância, juventude, fase adulta e velhice? A destreza para se mover num mundo perigoso?


Admito: isso tudo só me comoveu e me diverti tanto porque sou uma grande fã de Ferrante. Passei os últimos anos praticamente mergulhada em suas obras depois de ficar órfã da amizade de Lila e Elena, em 2024. Em 2025, continuei intercalando leituras suas com as de outras mulheres e entrei em 2026 com Um Amor Incômodo — coincidentemente, o mesmo livro lido pelo nosso amigo acusado de performatismo.


O livro, um dos primeiros romances de Ferrante, acompanha Délia, uma mulher de 45 anos que acaba de perder a mãe em circunstâncias misteriosas. Inquieta e cheia de culpa e dúvidas, ela volta à Nápoles para reconstruir os últimos passos de Amalia e entender os estranhos acontecimentos que levaram sua mãe à morte. Enquanto lia, a discussão do Twitter insistia em voltar: afinal, o que nesse livro me indicaria que Ferrante é essencialmente mulher?


É difícil listar. Talvez a minuciosidade com que descreve o assédio velado de homens mais velhos a meninas. Ou a crueza com que trata rivalidades femininas e maternidade. Ou a centralidade e profundidade concedidas às personagens femininas. A maestria ao retratar a complexa atração homoerótica que sentimos por mulheres que gostaríamos de ser. A zona cinzenta que se forma na convivência contínua de duas ou mais mulheres, fruto das dificuldades em criar, interpretar e entender códigos que, por séculos, foram banalizados e ignorados.


Talvez seja, simplesmente, o interesse intenso, genuíno, quase visceral pelo feminino — um interesse que, sendo mulher e leitora, honestamente nunca vi um homem demonstrar. Mulher‑corpo. Mulher‑cidade. Mulher‑medo. Mulher‑fúria. Mulher-tempo. Tudo isso emaranhado de um jeito que parece, de fato, uma assinatura.


Mas talvez isso seja pouco. Isso, sozinho, não define uma mulher.


Então eu te pergunto: você, mulher, já viu um homem demonstrar genuinamente esse interesse por mulheres? Não sexualmente, não esteticamente. Um interesse pelas distorções e bizarrices que nascem da socialização feminina, especialmente em periferias do mundo afora. Um interesse pela forma como as mulheres percebem o ambiente ao seu redor, com os sons, os olhares, as paisagens, as violências e as catástrofes. Um interesse pelo subjetivo de mulheres frente à fragilidade de uma psique que, desde os primeiros momentos, se vê oprimida pelo olhar constante do Outro. Responda de verdade: você conhece esse autor?


Veja bem, não estou aqui dizendo que mulheres só são seres compreensíveis para mulheres e nem que homens não sejam seres complexos. Na verdade, o que eu quero é entender de onde vem o aparente consenso, dentre os leitores que levam Ferrante a sério, de que ela é uma mulher.


É mulher.

No fim das contas, toda essa discussão nem precisava existir. A própria Elena Ferrante já afirmou, lá em 2015, ser uma mulher — e foi além: disse que a insistência em afirmar que ela é um homem nasce de uma profunda misoginia enraizada no mercado editorial e entre os leitores. Em entrevista à Vanity Fair (parcialmente reproduzida aqui), ela afirma que, dificilmente, veremos por aí um grande escritor sendo acusado de farsante e de, na verdade, ser um grupo de mulheres.


Especialmente no caso dela, que optou pelo anonimato total de sua aparência e vida privada, a tentativa de fazer parecer que trata-se de um homem não é apenas idiotice — é um profundo desrespeito com a figura dela e com suas obras.


Por isso, faço coro ao rapaz da piscina: leiam mulheres. Leiam Elena Ferrante, Tove Ditlevsen, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Annie Ernaux, entre tantas outras. Procurem nelas o que faz de sua obra uma escrita por uma mulher. Conversem com outras leitoras de mulheres sobre os marcadores de gênero em uma das poucas artes que sobreviveram à era das telas e das imagens.


Caso esteja buscando indicações, a Laís Fidelis tem algumas: Dicas de leitura para lutar contra o Brain Rot


 
 
 

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