Você é parte do problema
- Bruna Batista

- 8 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de mai.
Toda mulher conhece alguém que foi estuprada. Nenhum homem conhece um estuprador.

A conta não fecha. Não fecha estatisticamente, não fecha socialmente. E, ainda assim, você provavelmente tem certeza de uma coisa: “eu não sou parte do problema.”
Você está tão acostumado a ver mulheres sofrerem que aprendeu a reconhecer a dor feminina como algo que desperta em você o papel confortável do “herói”: o homem que consola, protege, ajuda. Eu preciso que você receba também a raiva, o ódio por cada um de vocês.
Porque você provavelmente acredita que é diferente. A maioria dos homens acredita. Você olha para casos extremos e pensa que jamais faria algo assim. Não se imagina mandando uma mensagem em um grupo de amigos dizendo: “tive uma ideia para me vingar dela. Vou chamar aqui em casa e vocês entram para comer ela”.
Você não se vê participando de um plano desses. Não se imagina prendendo uma mulher em um espaço, ignorando um “não”, transformando o corpo dela em território de vingança ou de diversão coletiva. Seus amigos também não, eles são caras legais também, como você.
Você gosta de imaginar que quem faz isso é sempre outro tipo de homem. Se você é de esquerda, faz terapia e já leu bell hooks, pensa que é coisa de “hétero top”, de bolsonarista. Se você é de direita, vai dizer que é falta de moral, falta de valores, coisa de criminoso, de gente sem caráter. Cada grupo encontra um jeito confortável de empurrar o problema para fora de si mesmo, como se a violência fosse sempre produzida por um tipo específico de homem, nunca por homens comuns, nunca por homens como você ou seus amigos.
Mas eu volto a repetir para ver se você começa a entender: toda mulher conhece alguém que foi estuprada. Nenhum homem conhece um estuprador.
Eles estudaram nas mesmas escolas que você, trabalham nos mesmos lugares, frequentam as mesmas festas, sentam nas mesmas mesas de bar. Eles circulam nos mesmos espaços que você, são seus amigos, é você.
Talvez, eu digo talvez, você realmente não esteja violentando ninguém. Talvez você nunca tenha forçado um corpo ou ignorado um “não” explícito. Mas isso não significa que você não tenha deixado acontecer e que não tenha feito nada. Porque você sabe quem é o amigo que, quando bebe, começa a segurar com mais força o braço da menina com quem está ficando. Você sabe quem é o cara que insiste para ela ir embora com ele mesmo quando ela diz que quer ficar. O que transforma insistência em “jogo”. O que chama pressão de “sedução”. O que ri quando alguém diz que mulher fala “não” querendo dizer “sim”.
Você conhece esse cara.
Você também já esteve naquele grupo onde alguém contou uma história meio estranha sobre uma transa em que a mulher “não estava muito afim”. Ou naquele momento em que alguém fez uma piada sobre uma mulher bêbada demais para reagir. Ou quando um amigo comentou que “depois de um tempo ela acabou cedendo”.
E nesses momentos, você faz o quê? Você ri. Você fica calado. Você muda de assunto.
A velha lealdade masculina. E nem precisa ser seu amigo para despertar essa lealdade, às vezes é só a preguiça de entrar no debate. Você se conforta pensando: eu sei que isso é errado, mas eu jamais passaria desse limite, eles é que são ruins.
Você sabe que a violência sexual não começa no momento do crime. Você sabe reconhecer comportamentos violentos que foram normalizados. Você sabe identificar quando algo parece errado. Mas você não quer ter que fazer nada. Você não quer pensar sobre isso.
O que costuma acontecer é mais simples: você escolhe não se envolver. Escolhe o caminho que dá menos trabalho, menos desgaste, menos conflito. O egoísmo masculino também passa pela escolha constante do próprio conforto.
Pensa um pouco: o que você faz quando a situação não é completamente óbvia? Não estou falando de situações que uma mulher já explicou detalhadamente que sofreu violência, já teve o trabalho de nomear o problema, como sempre. O que acontece quando a situação levanta dúvidas? Quando ninguém está apontando claramente o que está acontecendo?
Você ri? Ignora? Sai de perto?
O seu silêncio é autorização.
Talvez você não seja o homem que planeja violências brutais. Mas você está lá quando elas começam. Você está nos grupos de homens que falam barbaridades sobre mulheres que você conhece. E muitas vezes o máximo que você faz é não participar e acha que isso já é suficiente.
Mas você está ali.
Você está ali quando uma mulher que está desconfortável é pressionada. Está ali quando um amigo passa do limite. Está ali quando alguém testa até onde pode ir.
E quase sempre ninguém diz nada.
Você faz parte do problema porque foi ensinado a proteger outros homens quando eles fazem isso. A ideia de que “eu jamais faria algo assim” é o seu conforto e serve para aliviar a sua consciência.
Porque lidar com a situação exigiria algo de você. Exigiria desconforto e você passou a vida inteira evitando conversas difíceis. Você prefere fingir que está tudo bem enquanto trata mal a sua parceira porque falar abertamente sobre o problema dá mais trabalho. Você trai e prefere lidar com a logística da mentira porque falar sobre isso dá mais trabalho.
Você prefere empurrar o problema com a barriga e deixar a situação se arrastar, esperar que ela exploda sozinha ou que alguém resolva por você. Você prefere qualquer coisa que te poupe do desconforto de assumir alguma responsabilidade.
Você escolhe não se envolver. Escolhe não estragar o clima. Escolhe não confrontar o amigo. Escolhe fingir que não viu direito. Escolhe acreditar que não é com você.
É assim que vocês todos vão estabelecendo até onde podem ir. Alguém sempre testa o limite e quando ninguém diz nada, o limite se move.
Então, enquanto você continuar acreditando que o problema está sempre em outro cara, em algum lugar distante, você é parte do problema.
Enquanto você continuar dizendo que nunca viu isso acontecer, você é parte do problema.
Enquanto você continuar protegendo o conforto entre homens mais do que a segurança das mulheres ao redor, você é parte do problema.
E é por isso que a conta nunca fecha.
Porque toda mulher continua conhecendo alguém que foi estuprada.
E você continua dizendo que não conhece nenhum estuprador.



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