O que esperamos dos ídolos desta geração?

No futebol de hoje, demonstrar afeto e empatia parece exigir mais coragem do que levantar a taça da Copa do Mundo

A Copa do Mundo chega ao fim. O último jogo, entre Argentina e Espanha, mais do que definir um campeão, é o ponto de partida para a reflexão incômoda que ecoa no mundo do futebol - e que nesta copa se mostrou mais relevante do que nunca: o que esperamos dos ídolos quando o assunto deixa de ser apenas futebol?
Mais do que um campeonato de futebol, o torneio evidencia quais pautas estão vivas no grito de cada torcida e no posicionamento de cada jogador, para muito além da parte tática. Entretanto, o silêncio tornou-se mais valioso do que o posicionamento. Atletas transformaram-se em marcas.
Ao acompanhar os jogos, a sensação foi de que a empatia demonstrada pelos jogadores raramente ultrapassa o discurso das campanhas de marketing. Mais do que discutir os limites impostos aos atletas por patrocinadores, assessorias e interesses comerciais, a reflexão recai sobre o espaço que o afeto e a empatia ocupam dentro do futebol.
Cabo Verde X Argentina
Na segunda rodada do mata-mata, um jogo marcante entre Argentina e Cabo Verde terminou com o placar de 3 a 2. A vitória do time latino-americano, campeão da Copa do Mundo de 2022, já era esperada entre os especialistas do futebol.
Mesmo assim, a Seleção Cabo-Verdiana de Futebol entrou sem se intimidar diante de um adversário tecnicamente superior. Com vontade de jogar e uma atitude de irreverência diante de uma derrota já profetizada, o time transformou um confronto previsível em uma partida emocionante.

O que realmente chamou atenção foi o que aconteceu nas arquibancadas. O influenciador norte-americano, Darren Jason Watkins Jr. (conhecido como IShowSpeed), realizava lives dos jogos e declarou veementemente estar torcendo contra a Argentina.
Ainda durante a disputa, uma parte da torcida fez gestos de macaco e insultos racistas em direção ao influenciador. Apesar de Darren estar em oposição à torcida argentina, é inaceitável recorrer ao racismo como forma de intimidar um adversário.
Mais preocupante do que o episódio em si foi a naturalidade com que ele passou. O racismo apareceu, novamente, como uma extensão aceitável da rivalidade esportiva. E, assim, permitimos que isso se repita.
Egito X Argentina
No jogo seguinte, durante as oitavas de finais, a seleção argentina enfrentou a egípcia. O time do Egito já se destaca por conseguir avançar na disputa pela taça, mas estava longe de ser um favorito e uma grande aposta para o campeão.
Ao apito final, enquanto os argentinos celebravam a classificação, uma parte da torcida comemorou a vitória sobre o Egito levantando a bandeira de Israel em direção ao setor ocupado pelos egípcios.
O gesto ultrapassou qualquer provocação esportiva. Ao transformar uma crise humanitária em celebração, parte da torcida mostrou como o futebol também pode reproduzir violências e opressões sociopolíticas. O técnico egípcio, Hossam Hassan, levantou sua voz sobre as injustiças dentro e fora de campo:
“Sofremos uma injustiça… Parece que a seleção argentina exerceu pressão sobre o árbitro. Esse foi o resultado. Tenho orgulho de ser árabe, de pertencer ao mundo árabe… mas não recebemos o tratamento que merecíamos”

Para além das controvérsias da arbitragem, o Egito deixou a Copa com um posicionamento claro e uma mensagem de resistência. Do outro lado, porém, a vitória acabou silenciando a necessidade de um posicionamento diante do ocorrido.
Mais do que uma possível mudança de atitude de parte da torcida, a atenção está voltada para a ausência de uma voz ativa do clube, do elenco e do ídolo argentino: Lionel Messi.
O silêncio de Messi
O vice-artilheiro da Copa, Lionel Messi, conta com 08 gols no torneio, atrás apenas do francês Mbappé com 10 gols. Longe de ser vice, o atacante conta com 21 em copas durante toda sua carreira. Ao sair de campo como ídolo consagrado, Messi provou mais uma vez seu valor enquanto futebolista profissional.
O que está em discussão, entretanto, não é sua capacidade como atleta, mas o papel que exerce como capitão e principal referência de uma geração. Um posicionamento antirracista por parte de Messi seria (talvez) capaz de promover mais mudanças do que qualquer campanha de marketing.

Os ídolos do futebol continuam sendo uma das principais referências de masculinidade para milhões de homens e meninos. Quando falam, ajudam a definir o que é aceitável dentro e fora de campo. Diante disso, a pergunta permanece: se um líder como Messi condenasse publicamente atitudes racistas de parte de sua própria torcida, quantos torcedores estariam dispostos a repensar seus comportamentos?
Se sim, por que não o fazem? E se, de forma isolada, um pronunciamento não fosse capaz de promover mudanças estruturais em uma cultura racista, não seria esse um pontapé (no mínimo) interessante?
O silêncio de uma liderança comunica tanto quanto sua voz. Quando um dos maiores ídolos do futebol opta por não se posicionar, abre mão de seu lado humano e da possibilidade de exercer a empatia dentro de campo.
Quando ídolos viram marcas
O futebol continua produzindo craques, mas produz cada vez menos referências humanas. Os atletas são acompanhados por um verdadeiro time de profissionais: assessorias de imprensa, empresários e patrocinadores são aqueles que tomam as decisões diante da imagem do jogador.
O silêncio deixa de ser apenas omissão e passa a integrar a estratégia de comunicação. Quando campanhas publicitárias entram em cena, o posicionamento é permitido, desde que seja calculado e aconteça em um ambiente controlado.

As marcas passaram a ocupar um espaço que antes pertencia à voz dos ídolos - e muito se perde com isso. Perdemos enquanto sociedade, porque injustiças passam a ser avaliadas menos por sua gravidade do que pelo risco financeiro que representam.
Os próprios atletas também perdem. Inseridos em uma lógica de gestão permanente da imagem, aprendem que qualquer posicionamento pode afetar contratos, patrocínios e oportunidades profissionais. Aos poucos, deixam de ser vistos como seres humanos, capazes de exercer liderança, para se tornarem marcas.
O risco do posicionamento é maior do que o do silêncio. Resta uma pergunta: os grandes ídolos do futebol ainda estão dispostos a enfrentar os custos de defender causas que ultrapassam o esporte?
O que esperamos dos ídolos dessa geração?
A Copa do Mundo de 2026, em uma breve retrospectiva, se destaca por momentos atravessados por uma crise de referências. Os ídolos dessa geração parecem incapazes de assumir um posicionamento empático diante de conflitos históricos - como intolerância e racismo.
Se deixamos de esperar qualquer posicionamento dos maiores jogadores quando o assunto ultrapassa as quatro linhas, o que ainda justifica chamá-los de ídolos? Um atleta pode, sem dúvida, ser um craque. Mas o talento, por si só, é suficiente para transformá-lo em uma referência fora de campo?

A resposta depende das características que cada torcedor escolhe valorizar na construção de um ídolo. No entanto, precisamos voltar os olhares para uma geração inteira que se forma acreditando que defender suas causas é um custo muito caro a se pagar.
Em uma final entre Argentina e Espanha, pouco importa quem ganha, porque quando o racismo e a intolerância entram em campo , todos perdemos.

Comentários