O último dos gigantes
- Maria Fernanda Marques

- 24 de mai.
- 7 min de leitura
Atualizado: há 14 horas
Por que a cerimônia de convocação para os representantes da seleção brasileira na Copa do Mundo 2026 virou uma lista de um homem só?

Foto de banco de imagens gratuitas/pexels
Na última segunda-feira (18), a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgou a lista com os 26 nomes que irão representar o Brasil na Copa do Mundo 2026, que este ano será disputada nos Estados Unidos, México e Canadá entre os dias 11 de junho e 19 de julho. Entre os nomes indicados pelo italiano Carlo Ancelotti, estão jovens promessas do futebol brasileiro, como Endrick e Rayan; talentos que jogarão a Copa do Mundo pela primeira vez, como Igor Thiago e Danilo Santos; veteranos como Casemiro, Marquinhos e Alisson e… Neymar Júnior.
O atacante de 34 anos voltou à lista de convocados da seleção brasileira após quase 3 anos sem jogar com a amarelinha, e sua presença pela primeira vez na lista de Ancelotti foi, para algumas pessoas, uma surpresa — boa e/ou ruim, a depender do ponto de vista. Isso porque, nos últimos anos, Neymar tem rendido pouco nos clubes pelos quais passou, se comparado à sua fase “de ouro”. O jogador vem de um histórico longo de lesões graves que derrubaram seu rendimento em campo.
No Al-Hilal, onde atuou por dois anos, Neymar disputou apenas sete partidas, com um gol e duas assistências. Já na sua segunda passagem pelo Santos, que marca seu retorno ao futebol brasileiro desde o ano passado, seus números são mais expressivos: 43 jogos, 17 gols e oito assistências. Trata-se de números semelhantes aos do atacante João Pedro, por exemplo, que chegou a defender publicamente a convocação de Neymar e acabou ficando de fora da lista de Ancelotti. A diferença está no contexto: João Pedro atua na Premier League, uma liga mais exigente física e taticamente. Além disso, nos últimos doze meses, Neymar acumulou quatro lesões, o que impacta diretamente sua regularidade em campo.
Não precisa ser especialista em futebol para saber que, em condições normais, isso seria o suficiente para manter um jogador de fora de uma seleção que busca recuperar seu prestígio junto a um torcedor bastante fiel, mas também muito exigente — afinal, são cinco Copas, né?
Mas não são condições comuns, é o Neymar. E não são torcedores comuns, é o torcedor brasileiro.
Neymar e a era dos gigantes

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Emanuel Moura, profissional de futebol que atua como scout nas categorias de base de um grande clube mineiro, explica que a convocação de Neymar está na conta do talento individual. “No futebol, é preciso privilegiar o talento, porque é a coisa mais rara que existe. Mesmo não sendo o Neymar de anos atrás, ele ainda entrega algo que ninguém mais na seleção entrega. Em um jogo de poucos momentos decisivos, como o futebol, ter um jogador que pode resolver uma partida em um único lance faz diferença”, explica.
Emanuel explica ainda que a criatividade e o domínio técnico de Neymar, que conferem a ele um poder de tomada de decisão raro, são aspectos em extinção no futebol, especialmente no Brasil. Isso porque está em curso, já há alguns anos, uma mudança estrutural na formação de jogadores desde a base.
“Hoje, os jogadores profissionais estão mais preparados em relação a conteúdo. Eles estudam mais, têm mais acesso à informação técnica. No entanto, isso trouxe uma consequência: os atletas chegam em grandes clubes menos autônomos, com menos protagonismo. Antes, um jogador que construía seu repertório quase que exclusivamente em campo, jogando, resolvia mais situações por conta própria. Hoje, ele depende mais da estrutura, do que é passado para ele. Então são jogadores com menos capacidade de solucionar problemas sozinhos dentro de campo.”
Assim, Neymar pode ser o último exemplar brasileiro de uma Era que imperou por muito tempo: o protagonismo de um homem só, do maestro, aquele que pega a bola e resolve o jogo, a “máquina”, o “bruxo”. Temos muitos desses: Pelé, Zico, Adriano Imperador, Romário, os Ronaldos, etc. São jogadores históricos e venerados pelos fãs de futebol, não apenas por seus grandes feitos em campo, mas também pela imagem divinizada que se construía ao redor deles, com um papel importante empenhado pela grande mídia esportiva. Não por coincidência, são esses os nossos maiores ídolos, nossas divindades futebolísticas. Exatamente quem a torcida brasileira busca em Neymar.
No entanto, estamos em outro momento. Tanto o Neymar, quanto nós, a torcida, quanto o futebol brasileiro. Emanuel continua: “Não se forma mais um jogador pensando nas capacidades individuais dele. Hoje, o processo de formação olha pro mercado. Muitas vezes, se forma um jogador pensando mais em seu valor de venda do que no desenvolvimento técnico, privilegiando características físicas.”
Nesse caso, muitos jogadores já saem da base já sendo projetados no mercado internacional, deixando o futebol brasileiro cada vez mais cedo. A consequência é que ficamos desconectados desses ídolos. “Se você não acompanha um jogador no seu time, no time adversário, você não se identifica com ele na seleção. Dessa forma, a torcida brasileira tem menos paciência com os jogadores da seleção, menos compreensão do jogo e dos erros. Não é só uma questão de desempenho - é também uma falta de conexão”, esclarece Emanuel.

Isso pode ajudar a explicar, por exemplo, o preciosismo de uma parte dos fãs de futebol com o Neymar, a impressão de que ele é o único que mostra, ou mostrou, um futebol semelhante ao dos nossos deuses da era dos gigantes. A ideia de que, sem ele, nosso futebol não é bom, nossa seleção não é capaz de figurar entre as melhores, mesmo com jogadores de desempenho igual ou melhor que o de Neymar atualmente.
No entanto, nem só de preciosismo se faz um ídolo.
E nem só de futebol se faz um Neymar
Se você, como eu, dá uns pulos de rede social em rede social frequentemente, deve ter percebido que, nos últimos meses começou no Mundinho Futebol™ um movimento de deliberação — e, em muitos casos, de defesa — da convocação de Neymar para representar a seleção brasileira na Copa. O movimento vai desde usuários comuns e fãs de esportes até influencers famosos, como De Sola e Casimiro. Ele foi ganhando proporções com o passar das semanas até que, de repente, na frente dos nossos olhos, a convocação da seleção brasileira virou um grande: Neymar vai à Copa ou não?
Para Izabela Baetta, jornalista em um dos principais veículos de esportes do país, a questão vai muito além do futebol. “Não há dúvidas, para mim, que o Neymar é o jogador mais talentoso da geração dele e, talvez, o que mais se aproximou dos ídolos que a torcida brasileira tanto busca. No entanto, ele está em outro momento e, desde que decidiu se posicionar politicamente, mostrando apoio à família Bolsonaro e se envolvendo em diversas polêmicas, ele deixou de ser só um jogador de futebol talentoso e passou a ser uma figura controversa”, explica.
Figuras controversas são controversas por um motivo: desagradam muito a alguns e agradam muito a outros. No caso de Neymar, os motivos de quem gosta e quem odeia geralmente são os mesmos. Desde 2018, pelo menos, ele se envolve em polêmicas extracampo que desgastam sua imagem e sua relação com o torcedor. Dentre elas, estão o apoio público à família Bolsonaro, torcida pública e organização de mutirão a favor de participante de reality show, diversas traições à esposa e mãe de seus filhos, Bruna Biancardi e, mais recentemente, a agressão a um menor de 17 anos após ter sido driblado em um treino.
No entanto, isso não parece o suficiente para impactar sua relação com um certo grupo de fãs de futebol. “É possível relacionar essa idolatria ao Neymar com o crescimento do movimento redpill, por exemplo. São grupos que se identificam com discursos conservadores, machistas e misóginos, e o Neymar parece estar ok com o fato de ser querido por essas pessoas. Ele não se preocupou em tomar o lugar de ídolo em que colocamos ele com responsabilidade e, também por isso, não conseguiu ocupar no imaginário dos brasileiros o mesmo lugar que os ídolos incontestáveis ocuparam”, diz.
Ao que tudo indica, o grande auê feito em torno da possível escalação de Neymar está ligado a pelo menos três fenômenos: a carência do torcedor brasileiro com relação a um ídolo pra chamar de seu, o saudosismo com uma seleção que não existe mais e ao crescimento dos movimentos anti-mulheres dentre a nossa juventude nos últimos anos.
De Neymar à Patrick Bateman
Se eu não sou nenhuma especialista em futebol, existe um outro produto cultural sobre o qual eu posso falar com alguma propriedade: o cinema. Assim como os esportes, o cinema também tem o poder de projetar, questionar e reforçar ideias por meio de seus símbolos e figuras, tendo um potencial decisivo em momentos de tensão política como o nosso.
Não é de hoje, personagens controversos, para usar a mesma expressão que Izabela, que ajudaram a consolidar sucessos de bilheteria são usados por integrantes do movimento redpill como símbolos de masculinidade - ainda que muitas dessas obras sejam uma crítica exatamente à mentalidade masculinista. São muitos os exemplos: Patrick Bateman (Psicopata Americano); Tyler Durden (Clube da Luta); Jordan Belfort (O Lobo de Wall Street); Bruce Wayne (Batman) — personagem que, inclusive, estampa uma Bíblia na casa de Neymar — e muitos outros.
Guardadas as especificidades de cada obra, todos esses personagens apresentam, em algum grau, poder (geralmente econômico), dificuldade ou recusa de vínculos emocionais, visão apolítica e cínica do mundo e comportamento questionável (que é geralmente reinterpretado como força). Ou seja, os símbolos redpill são, basicamente, crianças com dinheiro. Te lembra alguém?
Além do indiscutível talento de Neymar em campo, a obsessão em torno de sua figura — especialmente fora de campo — parece estar ligada ao fato de que ele representa o sonho de alguns de seus fãs, principalmente homens, de jamais arcar com as consequências de seus próprios atos e não encarar de frente os problemas que a vida adulta te impõe. Se Neymar é o último ídolo de toda uma geração, é razoável que a gente comece a se preocupar com os valores que essa geração têm cultivado. Que tipo de senso de responsabilidade nossas crianças e adolescentes vão desenvolver tendo como exemplo alguém que aproveita um momento de pico de acesso a seu perfil no Instagram para fazer propaganda de casa de apostas? Que tipo de ambiente estamos criando para mulheres que gostam de futebol?
Ao ser perguntada se a admiração por Neymar impacta sua relação com o esporte, Izabela respondeu que “é desanimador ver jogadores com atitudes como as de Neymar seguindo suas vidas sem ter que lidar com as consequências de seus atos. Isso causa uma sensação de frustração, desilusão. Por outro lado, reforça a importância da minha presença e de outras mulheres nesse meio. Meu amor pelo futebol não diminui. Muito pelo contrário: seguirei aqui, buscando formas de resistência e buscando por mudanças.”



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