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O Agente Secreto: música, silêncio e a memória que não se encerra

  • Foto do escritor: Bruna Batista
    Bruna Batista
  • 28 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Trilha sonora e o tempo em "O Agente Secreto", novo filme de Kleber Mendonça Filho e representante do Brasil no Oscar 2026


Jornalzinho de O Agente Secreto distribuído durante exibição do longa na 19º CineBH em primeiro plano, diante de tela onde se lê "19º CineBH"
Jornalzinho de O Agente Secreto distribuído durante exibição do longa na 19º CineBH

O filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho é ambientado no Recife de 1977. Entrei na sessão sem saber quase nada. Sabia que era mais um filme dele, que tinha Wagner Moura no elenco e que se passava no Recife da ditadura militar — e só. Pareceu-me o melhor cenário possível para assistir a um filme e, por isso, não quero que você perca a chance de viver algo parecido.


O que posso adiantar, sem risco de revelar demais, e é justamente o que argumento ao longo deste texto, é que duas escolhas me chamaram mais atenção que todo o resto: a forma como a trilha sonora funciona como complemento à narrativa e como ela tem participação direta na construção da velocidade e do ritmo das cenas.


Com músicas de Lula Côrtes & Zé Ramalho, Angela Maria, Waldick Soriano, a Orquestra Nelson Ferreira e a Banda de Pífanos de Caruaru, o filme insere canções e ruídos urbanos, vozes da rua, ônibus e vendedores ambulantes para criar a ambientação do Recife dos anos 70. O resultado é a criação de uma camada de com função narrativa, que sustenta tensões silenciosas e intensifica também a atmosfera de paranoia.


A trilha acompanha, e às vezes molda, o ritmo da narrativa: acelera, desacelera, impõe cortes rápidos ou estende passagens, construindo atmosferas que nos prendem em transe. Em vários momentos, a sensação é de estar completamente imerso entre a música e a cena, sem possibilidade de se distrair ou de lembrar que existe um mundo fora da tela. É como perder a noção de si mesmo e se tornar apenas atenção, apenas olhar.


Entre as escolhas musicais, destaco o uso de canções do Paêbirú – Caminho da Montanha do Sol, disco psicodélico de 1975 gravado por Lula Côrtes e Zé Ramalho. Concebido a partir de uma viagem dos artistas à Pedra do Ingá, na Paraíba, o trabalho é construído a partir de um experimentalismo musical e referências que evocam os quatro elementos, terra, água, fogo e ar, criando uma narrativa sonora que se propõe como jornada mística – algo semelhante ao que se vê no filme.


A mítica desse álbum é alimentada pela sua história. De aproximadamente mil exemplares do LP que foram originalmente produzidos, apenas 300 cópias foram salvas após uma enchente que destruiu a sede da gravadora. O desastre transformou o disco em um dos mais raros da música brasileira – e um dos mais caros também.


Como não podia deixar de ser, Kleber retoma uma marca recorrente em sua obra: a reflexão sobre o tempo e as transformações da cidade. Ainda que trate de outra época, ele não abandona a discussão sobre as ruas, os cinemas e a passagem do tempo, usando o Recife como máquina de memória. Aqui, o tempo é manipulado de outra maneira, criando muito claramente percepções distintas dentro da própria duração do filme. A cadência das cenas, as escolhas de cortes, a alternância entre planos longos e rápidos, tudo isso transforma o tempo em matéria narrativa.


A ditadura surge de forma sutil e indireta, presente nas entrelinhas e a narrativa se constrói na ambiguidade. Como em outras obras que abordam esse período, existe sempre a expectativa de que o desfecho possa ser diferente. O filme recusa as soluções fáceis e prefere deixar rastros, silêncios e perguntas, deslocando para o espectador a tarefa de elaborar suas próprias respostas. O enredo, permeado por histórias paralelas, é marcado por mistérios que tanto levantam dúvidas quanto oferecem pistas para decifrar a trama central. Cabe a quem assiste recompor essas peças e lidar com as zonas de sombra que continuam existindo.


A maneira como a trilha sonora é trabalhada em O Agente Secreto ajuda a compreender a própria lógica do filme: nada é entregue de forma linear ou explicada em excesso. As músicas e os sons urbanos funcionam como pistas, camadas adicionais de sentido que ampliam essa sensação de mistério.


A música abre novos espaços de leitura, criando um efeito parecido com o da narrativa que insiste em deixar lacunas: provocar mais perguntas do que respostas. Assim como a narrativa recusa explicações fáceis, a trilha também não quer ilustrar o que já está na tela, quer adicionar uma nova camada.


O Agente Secreto faz da trilha sonora um instrumento da construção dessa ambiguidade narrativa, transformando o ato de assistir ao filme em um processo ativo, no qual o espectador é chamado a se perder, se deixar conduzir e, ao final, lidar com o desconforto do que não pode ser totalmente explicado.


O filme não entrega conclusões e convida o público a encarar o que foi esquecido, distorcido ou enterrado, transformando o silêncio e a memória em forças que pesam sobre o presente e impedem que o passado seja esquecido. O resultado é uma história que, longe de estar fechada, permanece reverberando, como um eco que insiste em voltar.

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