top of page

"Ainda Estou Aqui" é mesmo tudo isso

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 22 de nov. de 2024
  • 5 min de leitura

Filmes como o de Walter Salles mantém nossa história viva — e isso é maior que qualquer premiação


Ilustração por Thalia Vargas
Ilustração por Thalia Vargas

Não tinha como não falar de "Ainda Estou Aqui". Há semanas, o público brasileiro aguardava ansiosamente o filme de Walter Salles, estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello. O longa-metragem vinha criando grandes expectativas desde sua estreia mundial no Festival de Veneza, onde recebeu dez minutos de aplausos, além do prêmio de melhor roteiro. Finalmente, no dia 7 de novembro, Ainda Estou Aqui chegou aos cinemas brasileiros, e comprovamos: é tudo o que esperávamos (e até mais).


Além de Fernanda e Selton, o filme conta com grandes nomes como Marjorie Estiano, Valentina Herszage, Humberto Carrão, Dan Stulbach, Olivia Torres e, claro, a grandiosíssima Fernanda Montenegro, que interpreta Eunice já na velhice.


Se um enredo forte e de grande importância para o nosso país, somado a um elenco de peso, não fosse suficiente para fazer de Ainda Estou Aqui um fenômeno, o filme ainda foi escolhido para representar o Brasil no Oscar. Logo, os brasileiros ficaram empolvorosos com a possibilidade de um filme nacional levar uma estatueta e vingar aquele "roubado" de Fernanda Montenegro, em 1999, quando ela concorreu à categoria de "Melhor Atriz" por seu papel em Central do Brasil, também de Walter Salles, e perdeu para Gwyneth Paltrow (por Shakespeare Apaixonado). Entendo a comoção e me somo a ela, mas será que "Ainda Estou Aqui" precisa do Oscar?


Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, publicado em 2015, "Ainda Estou Aqui" conta a história da família Paiva. De início, a opressão militar parece ser apenas uma sombra que paira sobre a vida cotidiana da família até que o pai, Rubens Paiva (Selton Mello), ex-deputado cassado após o golpe de 1964, é levado por militares para prestar um depoimento e nunca mais retorna para casa.


No centro da narrativa está Eunice (Fernanda Torres), que, após o desaparecimento de Rubens, é obrigada a se reinventar e seguir com a vida da família, ao mesmo tempo em que cobra o reconhecimento do sequestro do marido. O filme é muito forte e marcado pela memória — esse é o fio condutor da história, e as imagens captadas com uma Super 8 ajudam a criar essa sensação. E o grande destaque está em Fernanda Torres, que nunca esteve tão bem em cena, e ela mesmo reconhece isso.


Em uma entrevista para a FRED Film Radio, a atriz contou que uma vez ouviu da mãe, Fernanda Montenegro, um conselho sobre a interpretação de histórias de tragédia: "se você for fazer Hécuba ou Antígona, você não pode chorar. Se Hécuba começar a chorar na primeira má notícia que ela recebe, no final ela vai estar parecendo uma barata. Hécuba encara a tragédia". Ela afirmou que se lembrou dessa reflexão ao interpretar Eunice, pois percebeu que a matriarca dos Paiva não podia apenas chorar ou sentir autopiedade, ela não tinha tempo para isso.


Torres falou ainda sobre como essa postura dá força tanto para a atriz quanto para a personagem. Essa foi uma das sutilezas que mais me chamou a atenção enquanto assistia ao filme: a forma como os personagens encaram a situação imposta pelo sequestro de Rubens. Eunice era o centro daquela família, o alicerce que os filhos precisavam para seguir em frente. Então, ela adota uma postura muito prática, com a venda do terreno, o controle sobre o paradeiro das filhas, a busca por justiça, até a venda da casa da família e mudança para São Paulo — ela precisa seguir adiante.


Ao mesmo tempo, é interessante como as crianças ainda são… crianças. O que pode parecer, num primeiro momento, besteira infantil, como a insistência em continuar no time ou a revolta com a venda da casa, é o que torna a história ainda mais impactante e real. Afinal, nenhuma criança — ou melhor, ninguém — está preparado para passar por aquilo. Esse é um trabalho muito delicado de roteiro, direção e, também, muito dos atores.


O filme tem uma passagem de tempo, e o desfecho é agridoce. Vi algumas pessoas criticando essa transição, como se a narrativa não tivesse se concluído de maneira adequada. Mas, honestamente, acho que é esse o sentimento que ficamos com as histórias da ditadura mesmo. Nada, de fato, foi resolvido como deveria. É o eterno grito preso, uma revolta sem solução. Só nos resta contar e recontar essas histórias para que ninguém esqueça o que aconteceu.


Refletindo sobre filmes que abordam o período da ditadura, lembrei de Argentina, 1985 (dirigido por Santiago Mitre e protagonizado por Ricardo Darín e Peter Lanzani), que assisti no ano retrasado. Por mais que já soubesse da diferença entre os processos de anistia na Argentina e no Brasil, ao final do filme fiquei com um sentimento amargo. Acredito que esse é tema ainda é uma dor, uma falta que nós, brasileiros (pelo menos os que reconhecem que a ditadura existiu com todas as suas atrocidades), sentimos. Assistir ao grandioso longa de Mitre foi como receber uma lição sobre como deveríamos tratar os criminosos da ditadura. Um sentimento que mistura a emoção de ver justiça sendo feita com a reflexão de "nossa, como seria se o Brasil tivesse feito isso?".


É interessante pensar também como "Ainda Estou Aqui" só é uma obra tão completa justamente por causa dos resgates históricos feitos pela Comissão Nacional da Verdade (grupo criado durante o governo Dilma Rousseff para apurar as violações contra os direitos humanos cometidas durante a ditadura militar, de 1964 a 1985). Rubens Paiva afirmou em uma entrevista que, graças à Comissão, ele obteve elementos para escrever o livro "Ainda Estou Aqui", que agora deu origem a este filme deslumbrante.


Então, não, "Ainda Estou Aqui" não precisa do Oscar. Claro que seria magnífico que um filme brasileiro, especialmente um que conta a história de um dos períodos mais terríveis da nossa história, fosse (ainda mais) reconhecido internacionalmente e ganhasse esse prêmio, que carrega todo um peso e importância para a indústria do cinema. Mas o filme de Walter Salles é muito mais do que isso. É uma obra belíssima sobre uma história que merecia ser contada exatamente como foi. "Ainda Estou Aqui" é maior do que o Oscar ou qualquer outra premiação.


A história de Eunice Paiva é a história de uma mulher que nunca desistiu de ter o assassinato de seu marido reconhecido pelo governo brasileiro. Obras como "Ainda Estou Aqui" (primeiro como livro e agora como filme, com maior alcance) parecem nos dar um pouco do reconhecimento e da justiça que a Anistia, da forma como foi feita no Brasil, nos tirou.


São uma forma de buscar ainda mais esse reconhecimento e dar nome aos bois — mesmo que, na vida real, eles não sejam penalizados, como os algozes de Rubens não foram até hoje. Uma forma de dar importância ao sofrimento de todas as vítimas e famílias que passaram por algo semelhante. De relembrar para que jamais se repita.


Comentários


bottom of page