Porque temos dificuldade de representar o esporte mais popular do planeta?

Uma reflexão sobre a epítome do futebol dentro do cinema e da ficção

O cinema é o espaço em que a realidade e o lúdico se cruzam para… criar. Essa é uma frase que também poderia muito bem resumir o esporte mais popular do planeta: o futebol. E assim como o cinema existe dentro das 4 linhas de uma tela, o futebol se cria dentro das 4 linhas de um campo. Levando essas palavras em consideração, os convido para uma reflexão: há espaço para o futebol dentro da ficção ou ele só existe no absurdo da realidade?
Comecemos pelos últimos acontecimentos. Há duas semanas atrás o apito final foi dado: a Copa do Mundo Fifa de 2026 chegou ao fim. Após a taça ser levantada pela Seleção da Espanha, o que se provou dentro desse período do torneio é que o futebol ainda é o esporte mais popular do Brasil e do resto do mundo. Mas, se esse fato se apresenta como uma verdade inegável, é porque se provou sendo assim dentro de um país que insiste em chamar de “soccer” ao invés de “football” o esporte mais popular do planeta e que nunca lhe deu a devida atenção que o resto do mundo esperava.
Ainda que com as intervenções políticas do presidente americano Donald Trump e do presidente da FIFA Gianni Infantino fora do jogo (e inclusive dentro dele), o esporte manteve-se em alta na mídia, reforçando seu apelo na cultura popular de centenas de nações, inclusive aquelas que não possuem grandes representantes dentro do futebol, como Bangladesh, que deu um show na torcida pelo Brasil durante o torneio.
Mas existe uma pulga na cabeça que me acompanha desde criança… porque temos tão poucos filmes que tratem o futebol como ficção?
Uma infância dentro das 4 linhas
Santista de coração desde pequeno, cresci com as influências de meu pai e de uma tia fanática por futebol. Acompanhei esse esporte assiduamente por boa parte da minha vida - consumi muitos materiais relacionados ao esporte, como jornais, revistas, documentários, vídeo-games e principalmente as transmissões dos jogos ao vivo.
Mas também, como uma criança que sempre gostou de cinema, assistia filmes recorrentemente. Minha infância foi marcada por sagas como Star Wars, Indiana Jones e Jurassic Park que marcavam a trajetória heróica de um protagonista comum e assim eu poderia sonhar em um dia fazer coisas extraordinárias. Mas quanto ao meu interesse por futebol, ele dificilmente ultrapassava a realidade ao vivo de um jogo do Santos domingo à tarde.
Por mais que eu amasse dividir esse momento com minha família e alguns amigos em frente às telas, o futebol nunca entrou no mundo lúdico dos sonhos e permaneceu sempre essa realidade concreta e dicotômica: o meu time do coração ganhar ou perder um jogo. Assim, a minha imaginação de criança estava limitada aos 90 minutos de jogo, alimentando inclusive um sonho que quase todo menino brasileiro possuiu em algum momento da infância: o de se tornar jogador de futebol.
Mas com o passar do tempo, o interesse pelo cinema me brilhou aos olhos mais do que carreiras relacionadas ao esporte (por mais que minha paixão pelo Santos permanecesse viva). Resolvi cursar Cinema e Audiovisual e a pergunta de porque haviam pouquíssimos filmes no cinema que retratassem o futebol foi ganhando aprofundamento e mais contornos: é falta de interesse dos cineastas? É falta de interesse do público? É difícil de gravar? Ou existem muitos filmes por aí… que só não são divulgados?
Quando as 4 linhas se juntam em uma só
Sabendo do meu interesse por futebol, uma tia minha gravou o filme “Gol: O Sonho Impossível” (2005) em DVD e me deu de presente. Aquela obra contava a história de um aspirante à jogador profissional de futebol dando seus primeiros passos em outro país, longe de casa e da família, numa cultura completamente oposta à sua em que fora criado. Ou seja, o roteiro protocolar da trajetória de quase todo jogador de futebol.
Lembro que esse filme me agradava, mas pesquisando posteriormente, descobri que “Gol” recebeu críticas mistas da imprensa especializada e também não fez muito sucesso na bilheteria. Isso não impediu os produtores de posteriormente lançarem dois filmes sequenciais, criando uma trilogia de “Gol”. Novamente, não foram tão bem recebidos. Lembro até da dificuldade da minha tia em achar nas locadoras o terceiro filme da trilogia. Nunca cheguei a ver desde então.
Mas o fato é, que se formos pesquisar, antes da explosão dos streamings e da revolução que nos permitiu assistir filmes em absolutamente qualquer lugar, ainda havia pouquíssimos filmes com o futebol sendo personagem principal, secundário ou até mesmo plano de fundo de alguma história.
Hollywood, por exemplo, é lotada de alguns sucessos, que posteriormente ganharam prêmios, arrecadaram bilheteria e se tornaram clássicos, entrando de vez no panteão da história do cinema e, porque não, da cultura pop. Alguns exemplos citados podem ser “Rocky, O Lutador”, “Menina de Ouro” (Boxe), “Coach Carter: Treino para a VIda” (Basquete), “Karate Kid” (Karatê), “King Richard: Criando Campeãs”, “Rivais” (Tênis), “Rush - No Limite da Emoção”, “Ford vs Ferrari” (Automobilismo) e “Nyad” (Natação). Pode-se pensar também que todos esses filmes de sucesso têm como ponto em comum o investimento dos EUA, um país que notadamente não se interessa por futebol, possuindo inclusive sua própria “versão” do esporte.
Como o eixo comercial do cinema mundial ainda é essencialmente americano, esse pode ser o motivo de vermos poucos filmes de qualidade sobre futebol chegando às telonas. Por sinal, bons filmes de futebol americano tem de monte: “Um Sonho Possível”, “Um Domingo Qualquer”, “Duelo de Titãs” e “Um Homem Entre Gigantes” estão aí para provar. E os de “soccer”, como chamam os americanos o futebol que conhecemos… onde estão?
4 linhas que não se entendem?
Bom, começando por uma análise mais voltada para a narrativa cinematográfica, percebemos que a maioria desses filmes têm como base a “Jornada do Herói”, uma estrutura narrativa universal que foi identificada e teorizada pelo mitologista Joseph Campbell, autor do livro “O Herói de Mil Faces”, um clássico bastante estudado por escritores e roteiristas. Posteriormente, esse conceito também foi bastante aprofundado por Christopher Vogler em seu livro “A Jornada do Herói”, tendo como base os estudos de Campbell. Basicamente, esse conceito reflete o ciclo de vida de um personagem que é convidado a se retirar de seu mundo comum, enfrentar os desafios de sua jornada, obter a recompensa dessa jornada, voltando a seu mundo completamente transformado por essa experiência. A trajetória de um atleta, geralmente, se assemelha à essa estrutura e por isso esses filmes possuem um ponto bastante em comum, facilmente identificável pela gama mais variada de públicos, visto que eles não falam propriamente de esportes e sim da experiência humana como um todo, trabalhando conceitos como conquistas, derrotas, reviravoltas, nascimentos e mortes. O ínicio, o fim e o meio, já dizia Raul Seixas, estão completamente em voga neste tipo de narrativa.
Mas se este tipo de narrativa aliada à popularidade de um esporte deu certo para essas obras citadas, por que o mesmo não acontece com as obras alinhadas ao futebol, como o exemplo do filme “Gol”? Começando a falar agora de respostas, cito a fala do diretor mexicano Carlos Cuarón, em entrevista ao site Rotten Tomatoes: “Football never stops”. Para o diretor, o futebol possui uma característica cinematográfica não muito fácil de se captar: é um jogo em que a ação nunca para. Em outros esportes, existem pausas naturais que facilitam o processo da captação de imagens e ainda por cima beneficiam o ritmo da narrativa e posteriormente da montagem. No futebol, esse tempo é mais corrido e as pausas costumam ser desproporcionais. Algumas duram mais, outras menos. Por essa questão, o diretor decidiu eliminar boa parte das cenas de partidas de futebol de seu filme “Rudo e Cursi”, comédia dramática lançada em 2008 que conta a história de dois irmãos que recebem uma chance de se tornarem jogadores profissionais de futebol, focando mais no drama criado na relação entre os protagonistas. E deixa uma opinião ainda mais forte: para ele, nenhuma encenação é capaz de competir com uma transmissão real de televisão, repleta de diversos ângulos de câmeras, replays e closes nos jogadores e em suas ações.
Ora, mas até aí é difícil não concordar com isso, né? Afinal, a linguagem sofisticada das transmissões ao vivo são completamente diferentes do cinema, ainda que a sétima arte já tenha se provado em outros momentos de disrupção em sua história, encenando acontecimentos que antes se acreditavam impossíveis de serem captados. Em relação a Cuarón, fica implícito que ele não acredita que esse esporte possa ser captado de uma forma que agrade aos fãs do esporte, sem deixar de lado o drama essencial ao desenvolvimento de uma história. No caso de “Rudo e Cursi”, Cuarón escolheu a segunda opção. De toda forma, se o problema é a complexidade audiovisual das transmissões esportivas, porque não tentar replicar essa complexidade aderindo à tecnologia dessa linguagem?
Claro, supondo que todo filme tenha um orçamento capaz de assegurar dezenas de câmeras, drones e microfones espalhados por todo o estádio, assim como numa transmissão esportiva (o que é bem difícil), um outro exemplo a ser citado é o do diretor neozelandês Taika Waititi, que em entrevista ao The Footballco Business Podcast, afirmou que, para dirigir seu filme de 2023, “Quem Fizer Ganha”, sobre a trajetória baseada em fatos reais de um técnico decidido a transformar o futebol da seleção da Samoa Americana, recorreu à operadores de câmera especializados em transmissões esportivas ao vivo para filmar as partidas do longa, já pensando no habitual problema que a maioria dos filmes sobre futebol apresentam: cenas lentas e bastante artificiais. Ainda assim, não foi capaz de alavancar o potencial do longa, que foi recebido com críticas mistas pela imprensa especializada. Os investimentos para tornar as partidas mais verossímeis aos olhos do espectador, aparentemente não valeram a pena, visto que a bilheteria arrecadada não foi o suficiente para cobrir os gastos de produção e de marketing. Ou seja, pode-se dizer que um filme sobre futebol corre grande risco de ser um mau negócio? Não necessariamente.
4 linhas é pouco: desenhando novas possibilidades
Recentemente, um dos maiores sucessos do streaming da Apple TV foi a série de comédia “Ted Lasso”, finalizada com três temporadas, focada na história de um técnico de futebol americano dos EUA contratado para treinar um time de futebol tradicional na Inglaterra à beira da falência moral e financeira. Ao contrário do movimento de Taika, os criadores de “Ted Lasso” não se esforçaram para representar o futebol no máximo de sua realidade. Procuraram focar nas contradições apresentadas pelos personagens muito bem construídos, tendo arcos bem equilibrados entre o surreal e a emoção, criando imediatamente uma identificação com seu público ávido por novas histórias. Por sinal, essa parte foi tão bem trabalhada que mesmo os fãs de futebol não trouxeram críticas tão veementes às cenas de partidas apresentadas na série. Afinal, a série deixou claro que esse não era seu foco. A coragem de “Ted Lasso” reside justamente no fato de que seus criadores Bill Lawrence, Jason Sudeikis, Joe Kelly e Brendan Hunt, decidiram abraçar a tal da “incapacidade” da ficção audiovisual de representar o futebol como na vida real, abarcando também a incapacidade dos personagens de resolverem seus próprios problemas dentro da série. Ou seja, pode-se dizer que o futebol pode sim ser um bom negócio no cinema e nas séries, só que atuando somente numa espécie de… plano de fundo das histórias?
Difícil pensar dessa forma também. Penso que o futebol, por natureza, produziu muitas “histórias de cinema” na vida real. Como pode ele ser secundário nessas histórias? Exemplos reais estão aí para ilustrar, como o de um menino negro brasileiro que conquistou o mundo aos 17 anos numa época em que sua cor de pele era enorme empecilho para se crescer socialmente e a de um jogador baixinho e explosivo que se impôs entre grandões e pôs o futebol no mapa da discussão política e social, mostrando que toda a questão vai muito além do esporte. Por isso que no campo documental, o futebol costuma ser muito bem representado. O que não falta nos catálogos de streaming são filmes e séries de documentário contando a trajetória de um jogador, técnico ou time de futebol.
De toda forma, penso que pouco ainda se sabe em termos de conclusão a esse assunto, mas muito se sabe em relação à possíveis soluções. Cineastas e showrunners, num movimento lento, porém contínuo de tentativa e erro, vão tentando solucionar esses problemas, tanto em termos técnicos quanto em termos narrativos. No final das contas, quem rege as movimentações do mercado cinematográfico são o próprio público. E ao meu ver, as produções que realmente conquistam o coração do público são aquelas que possuem verdade em suas intenções.
Esse foi o grande feito de obras como “Ted Lasso”, “Rudo e Cursi” e mais recentemente “Brasil 70: A Saga do Tri”, série brasileira baseada em fatos reais que narra a trajetória da seleção brasileira que conquistou a Copa do Mundo de 1970 no México, considerada até hoje por muitos aficcionados o maior time de futebol da história. Percebe-se que essa série tinha uma missão muito indigesta, afinal, quanto maior a importância histórica de um acontecimento, mais difícil é sua representação. Alinhado a um treinamento específico de movimentação dos atores (alguns deles eram de fato, jogadores de futebol), uma direção de arte bastante rigorosa (que recriou o cenário colorido e vibrante específico daquele tempo), efeitos especiais replicando perfeitamente as grandes arenas daquela copa (focando em ampliar o cenário e não as ações propriamente ditas) e fotografia pensada como um grande memorial da década de 70 (com cores quentes evocando imagens de fotografias e filmes da época) e um marketing muito bem feito às vésperas da Copa do Mundo deste ano, a série foi sucesso de audiência na Netflix e também foi bem recebida pela crítica especializada, abrindo espaço para novas obras se desenvolverem: a biografia de Marta Vieira da Silva, a maior jogadora da história do futebol feminino, finalmente terá sua história retratada dentro do cinema, com a talentosíssima Alice Carvalho assumindo o papel da rainha.
Seria esse o caminho que precisamos seguir? Pessoalmente, acredito que não só este, como outros caminhos também.
Mais além das quatro linhas
Penso que o público sempre foi ávido por conteúdos relacionados à futebol no cinema… só não tiveram suas demandas supridas. Enquanto os diretores, produtores e roteiristas procurarem deixar as histórias de lado para alcançar uma suposta representação perfeita do esporte, o filme sempre vai sair perdendo. E posteriormente, o público também sai perdendo. Nós já sabemos que o futebol, assim como outros esportes, é um grande catalisador das emoções e experiências humanas. A única diferença dele para esses outros esportes é justamente a sua popularidade que é proporcionalmente mais bem distribuída ao redor do mundo. Ou seja: temos a bola do jogo… e não estamos sabendo marcar o gol.

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