Brasileiro não gosta de cinema, gosta de ganhar?

Em entrevista ao The New Yorker, o produtor de Ainda Estou Aqui, Rodrigo Teixeira, disse que agora o cinema passou a ocupar um novo espaço no imaginário brasileiro “substituindo o futebol”.

Entendo o que ele quis dizer e é realmente lindo ver o povo brasileiro correndo para assistir um filme nacional, torcendo esperançoso por vitórias na temporada de premiações. Mas e os filmes que não são cotados? Que não saem de festivais como Cannes já como promessas para a Academia?
A comparação com o futebol me fez lembrar de um outro lado dessa relação que o brasileiro tem com o esporte, uma máxima que ouvi um tempo atrás: brasileiro não gosta de futebol, gosta de ganhar.
Em 2014, o jornalista e cronista esportivo Elder Dias publicou no Jornal Opção, às vésperas da fatídica Copa de 2014, um texto que explica bem essa relação. Recorrendo a um histórico não tão distante, ele nos lembra de fenômenos que surgiram, venceram e causaram comoção nacional — como Ayrton Senna, na fórmula 1, e Guga, no tênis. Se pudesse atualizar a matéria do Élder, acrescentaria a ginástica artística com Rebeca Andrade — que vinha adormecida desde Daiane dos Santos — e o skate com Rayssa Leal. Elas fizeram aparecer fãs de carteirinha e especialistas natos pelas redes sociais. Mas só em época de Olimpíada. Depois voltamos à programação normal. Circulando! Circulando!
Na sétima arte, não parece ser tão diferente. Um levantamento feito pelo portal Filme B mostra que os números obtidos pelos lançamentos brasileiros nos cinemas em 2025 ficaram bem abaixo das expectativas geradas pela exposição alcançada por Ainda Estou Aqui. Apenas sete produções concentraram 73% do público nacional, enquanto a maioria passou praticamente despercebida nas salas.
E aí entra uma outra questão: o acesso. Com o sucesso Senna, por exemplo, a fórmula 1 começou a ser transmitida em canal aberto em rede nacional. Quem tem acesso ao cinema brasileiro?

Sendo justa, a própria matéria do New Yorker aborda como a cultura de fãs no Brasil é forte e como somos meio malucos mesmo. De fato, como diz Teixeira, o Oscar se tornou uma Copa do Mundo para nós. Mas e se *bate na madeira* O Agente Secreto não levar nenhum Oscar esta noite? E se ano que vem nenhum filme brasileiro for indicado? Vamos fazer o que? Demitir o Kleber Mendonça Filho igual o Flamengo faz com todo técnico que perde 01 jogo?
É incrível ter por dois anos consecutivos dois filmes brasileiros alcançando patamares de sucesso mundial, que até outro dia pareciam quase impossíveis. E mais: não só se tornando sucessos mundiais, mas também fenômenos nacionais, que ocuparam a boca do povo. E é também muito simbólico que sejam dois filmes que se passam no período da ditadura militar — justamente uma época em que o direito à memória nos foi roubado.

Mas ainda há muito a ser feito. Uma relação brasil-futebol-samba não se forma da noite pro dia – nem de graça. E, não há muito tempo, como bem lembra a matéria do The New Yorker, tivemos um governo que transformou o setor cultural brasileiro em terra arrasada.
Então, independente de a estatueta vir para o Brasil ou não, chega de vira-latismo. Há muito a ser celebrado: o reencontro do Brasil com sua memória, ainda que dolorosa, a reconstrução do setor audiovisual e a produção de grandes e belíssimos filmes. E vai ter muita pirraça, sim!



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