CineBaru: festival de cinema baiangoneiro
- Bruna Batista

- 31 de ago. de 2025
- 5 min de leitura
Uma mostra de cinema que transforma a vila de Sagarana em território de encantamento sobre o sertão.

“Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”, diz Riobaldo em uma de suas inúmeras formas de explicar o sertão que, no “Grande Sertão: Veredas” é muito mais que cenário, mas personagem vivo. Quase setenta anos após a publicação do romance, o sertão segue sendo palco e protagonista por meio do CineBaru, uma mostra de cinema realizada no distrito de Sagarana, na região Noroeste de Minas Gerais que acontece entre os dias 17 a 20 de setembro. .
O CineBaru se afirma como um festival enraizado em um território singular: o baiangoneiro. A palavra, emprestada do poeta e educador Xiko Mendes, “nos caiu como luva para aquilo que queríamos promover a partir de Sagarana”, explicam os organizadores. Ao longo de quatro dias são apresentados os 24 filmes da programação oficial, vindos de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Distrito Federal, território representado pelo termo que traduz uma identidade afetiva, marcada pelas semelhanças do território. Em um cenário onde “Minas Gerais, que tem uma extensão semelhante à da Espanha, conta com apenas 272 salas de cinema” e centenas de municípios não possuem sequer uma, o CineBaru abre espaço para narrativas que se firmam na pluralidade dos modos de narrar e viver que, ao mesmo tempo, estão unidas pelo território.
Durante os quatro dias de evento, o festival se organiza em três mostras principais e alguns filmes convidados. A Competitiva Baiangoneira reúne curtas premiados por júri e voto popular; o Sertãozin abre espaço para crianças e adolescentes das escolas locais. A novidade desta edição é a Mostra Sertão, uma sessão especial que coloca em evidência filmes profundamente conectados com a vila de Sagarana e seu entorno, em diálogo com questões ambientais, políticas, culturais e de trabalho.
A programação percorre diferentes paisagens e experiências: começa com Nessa Rua Passa um Rio, que acompanha as águas de Januária, no São Francisco, e segue com Envelhecer com as Árvores, filmado em Moeda, refletindo sobre o tempo e a vida entre raízes. De Salvador, chegam Ymburana, sobre o dilema de um jovem indígena entre aldeia e cidade, e Maré Grande, dedicado ao cotidiano das marisqueiras, ao lado de Sertão, de Serra Preta, que retrata a solidão de um agricultor aposentado em meio à violência no campo. Também integram a mostra Agrobiodiversidade: do Amor à Sustentabilidade, obra geraizeira de Riacho dos Machados, e Encontro das Águas, de Alto Paraíso de Goiás, que contrapõe tradição e desenvolvimento.
A sessão se abre com Urucuia, filme-performance de JoCa Milucanô e Lucas Passarin, realizadores do próprio coletivo CineBaru, e reafirma a proposta de reunir produções do território baiangoneiro como um mosaico de olhares e resistências. Esse é um dos três filmes convidados para edição da mostra, os outros são “Pacto da Viola”, dirigido por Guilherme Bacalhao e escolhido para a abertura e “Antônia – Espelho da Alma Ancestral”, de Roger Martins.
Rhaul Oliveira, um dos criadores do evento, explica que viver o festival transformou sua própria prática profissional como pesquisador acadêmico: “Isso tem sido muito rico na minha atuação, porque a gente faz uma leitura até contracolonial, de perspectivas tanto científicas quanto comunitárias. Poder reler o mundo, reler os estudos, os métodos de avaliação de poluição química, a partir da perspectiva dessas comunidades tradicionais, de um território negligenciado durante décadas, isso é uma oportunidade muito rica”.
Essa releitura atravessa o próprio modo de exibir filmes que cria um espaço de diálogo entre as narrativas audiovisuais e a vida local. Cada sessão é também uma conversa sobre água, agropecuária, espiritualidade, ancestralidade, infância, música e memória, mas de uma perspectiva que foge da ideia de escassez, constantemente associada ao sertão.
“Quando se traduz esse encantamento da beleza de um território, um território rosiano. Território narrado, mas ao mesmo tempo inenarrável, o cinema oportuniza esse diálogo, esse trânsito entre mundos. Ele deixa para trás, ele supera, ele consegue, de certa forma, transver as outras narrativas que atravessam da dificuldade, da escassez, da fome”, explica Rhaul. Em lugar de uma visão que reduz o sertão à carência, o festival projeta imagens de beleza, afeto e resistência: “enxergar a beleza nas rugas dos nossos mais velhos, enxergar a beleza no cerrado, nas mulheres, nas crianças dessa região”.
A fotógrafa Amanda Canhestro, de Belo Horizonte, esteve no festival pela primeira vez em 2022. “É um festival que eu considero pequeno, no sentido de que a gente conhece todo mundo que vai. Mesmo se você vai sem conhecer ninguém, você acaba conhecendo as pessoas lá, e vira meio núcleo. As pessoas fazem muitas coisas juntas, uma cachoeira juntos, senta no bar da Maria juntos”.
O CineBaru se sustenta em uma lógica de base comunitária que atravessa toda a sua organização. Desde 2011, Sagarana cultiva um modo próprio de receber, alinhado ao turismo de base comunitária: famílias da vila abrem as portas de suas casas e oferecem pouso preparado com cuidado e afeto para quem chega. Longe de multidões anônimas, no CineBaru há sempre a possibilidade de cruzar com os mesmos rostos ao longo dos quatro dias de programação.
Amanda lembra que ela e outros 12 amigos foram acolhidos na casa de Dona Lena, figura conhecida de quem passa por Sagarana.. “Foi maravilhoso. Aquela comida maravilhosa, pessoas maravilhosas, a gente foi muito bem recebido lá”. Dois anos depois, em 2024, ela voltou como fotógrafa oficial do festival, convidada pela própria organização. “Foi uma experiência muito legal também, em outra perspectiva, já entendendo um pouco mais da produção”.
Em 2025, Amanda, assim como eu, foi uma das caminhantes da 10ª edição do Caminho do Sertão, uma travessia socioecoliterária criada em 2014, em que um grupo de 90 pessoas percorrem a pé, ao longo de sete dias, cerca de 192 km. O trajeto parte justamente de Sagarana, e vai até o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, em Chapada Gaúcha (MG).

Apesar da distância parecer excessiva, o Caminho não é sobre resistência física. Ao longo da caminhada a pressa se transforma em prazer pela caminhada. Inspirado pelo Grande Sertão: Veredas, o percurso, para além do encantamento por tudo que se vê, pauta a sensibilização para as tensões e contradições do território, atravessando fazendas devastadas pelo agronegócio e impactos da escassez hídrica, cruzando veredas, rios, áreas de agricultura familiar e frentes comunitárias de resistência que continuam articulando soluções.
O CineBaru foi criado pelos integrantes do coletivo Ecos do Caminho, que nasceu a partir das primeiras edições do Caminho do Sertão, em 2014 e 2015. Reunindo ex-caminhantes, pesquisadores, artistas e produtores culturais que se encontraram na travessia, o coletivo surgiu como um desdobramento natural da experiência: a vontade de permanecer no território e criar ações que fossem além da caminhada anual. “Ele começa do encontro de pessoas, do encontro com o território e do encontro de ideias que, ao observar a região, entenderam que não havia espaço de exibição de cinema, não havia espaço de fruição artística cultural do audiovisual.”
O sertão, “território narrado e inenarrável”, como define Rhaul Oliveira, tem diferentes formas de ser percebido, contado e vivido, mas o que se mantém é o encantamento. “É impossível passar por um CineBaru e não se encantar”, diz Rhaul. “Mesmo que você já foi em Tiradentes, em Gramado, na Berlinale. Sagarana tem uma imagem própria, autêntica, potente e bela”. Essa dimensão mágica que atravessa tanto a literatura rosiana e é sentida, na pele, por quem vive, de alguma forma, o sertão, afinal, ele, “é dentro da gente” e “está em toda parte”.
Ficou com vontade de ir para o CineBaru? Aqui você tem informações sobre como chegar, hospedagem, alimentação, e tudo que precisar. E aqui você confere a lista de filmes selecionados.



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