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Cantar a dor em alta voz: uma crítica do fenômeno Pecadores (2025)

  • Foto do escritor: Maria Fernanda Marques
    Maria Fernanda Marques
  • 20 de jul. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Considerado um dos melhores lançamentos desse ano, musical vampírico de Ryan Coogler pode quebrar o desprezo das grandes premiações por “filmes de gênero”; mas repete fórmulas batidas do cinema mainstream


Ilustração Digital por Laís Fidélis
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Ainda é um pouco cedo para determinar os principais concorrentes da temporada de premiações de 2026, mas sem dúvida o longa Pecadores (2025), de Ryan Coogler, está entre eles.


Diretor de Pantera Negra (2018), Coogler raramente se contenta com zonas de conforto criativas, mas em Pecadores ele assume o risco de fazer um filme que segura as bandejas dos gêneros de drama histórico-racial, horror, faroeste e musical sem desequilibrar nenhuma delas e, com maestria, expõe lampejos afro futuristas que escapam do realismo entediante. Protagonizado por Michael B. Jordan no papel dos gêmeos Elijah e Elias Moore (Fumaça e Fuligem, respectivamente), o longa passeia por um invejável repertório visual, musical, histórico e espiritual que dá a ver o pecado, o desejo e a catarse coletiva que compõem o blues no delta do Mississipi, seu lugar de origem.


Dois homens abraçados, com expressão de medo, desespero e pavor ao amanhecer, diante de céu azul-rosado.
Michael B. Jordan e Miles Caton em Pecadores (2025)

A proposta é intrigante: dois irmãos gêmeos, gângsters, retornam à sua terra natal no Sul dos Estados Unidos nos anos 1930 depois de uma temporada em Chicago. Eles planejam abrir um bar de blues voltado para o público negro e, para isso, compram uma antiga serraria de um ex-membro da Ku Klux Klan e chamam o primo Sammie (Miles Caton) para se apresentar junto de Delta Slim (Delroy Lindo), lenda do blues na região. Dono de uma voz magnífica e poderosa e de uma habilidade espantosa com o Dobro de 1932 (um tipo de guitarra ressonadora), Sammie possui um talento raro para a música e compõe com sensibilidade o doloroso blues.


É particularmente interessante a forma como o roteiro do filme apreende a figura do vampiro – e toda a mitologia que a envolve – como uma metáfora para a apropriação cultural das criações negras nos EUA. No filme, o bando de vampiros, que só cresce a cada morte violenta, é liderado por Remmick (Jack O’ Connell, um dos grandes destaques do longa), que possui o poder de se apropriar do conhecimento e da memória de suas vítimas – é por isso que ele encontra o bar dos gêmeos: atraído pela música de Sammie. Música essa que, como o longa explica logo nas primeiras cenas, possui o poder de “rasgar o véu entre a vida e a morte”.


O interesse de Remmick, no entanto, se limita ao intelecto e à arte de Sammie, e não se estende ao seu corpo, o corpo negro. É assim que o interesse supremacista pela arte negra funciona: deseja-se as referências, a riqueza e as inspirações da vida negra nas Américas, mas jamais o corpo que as criou e que as mantém vivas. Coogler certamente entende isso e desenha essa hipocrisia de forma majestosa no roteiro.


A crítica à apropriação cultural das criações negras pela cultura dominante tem como pano de fundo a incrível trilha sonora de Ludwig Göransson, um dos grandes concorrentes aos prêmios que concernem trilha sonora e canção original. A base de seu trabalho no filme é exatamente o Dobro de 1932, mesmo instrumento que Sammie toca. Com ele, a trilha controla e acompanha a pulsação dramática do longa por meio de recursos como ecos vazios para os momentos de escassez e fome, graves sintéticos em cenas de tensão sexual, e explosões orquestrais em sequências de terror. Isso atravessado sempre pelo rico repertório musical de Göransson e pela voz única de Sammie.

Show noturno com músico (Sammie) ao violão no centro, multidão dançando ao redor e luzes alaranjadas de fogo ao fundo.
Cena de Pecadores, em que Sammie canta I Lied To You

Em uma das cenas mais emblemáticas do filme — para mim, particularmente, o ponto alto dele —, Sammie canta a canção I Lied to You, composta especialmente para o longa. À medida que a canção avança, figuras do passado e do futuro surgem e dançam com os outros personagens no salão: desde os griots, passando por guitarristas da onda hippie dos anos 1960, até figuras contemporâneas, como o DJ e o rapper. Apesar de se tratar de um filme de terror, em nenhum momento da cena essas figuras são retratadas como espíritos ou seres sobrenaturais. Muito pelo contrário, a sequência aparece exatamente para reforçar a visão afro-americana de existência e concepção artística, que não se restringe à linearidade temporal imposta pelo pensamento moderno e dominante no cinema mainstream americano. Com recursos como plano sequência, montagem surrealista e sobreposição sonora de gêneros musicais, a cena, bastante baseada na estética afrofuturista, se afasta do modelo realista americano e se aproxima com outras formas de expressão artísticas afro-americanas, como o jazz, a contação de histórias e o próprio blues.


O gargalo patriarcal

A genialidade cinematográfica e musical do filme não anula, no entanto, a pouquíssima atenção dispensada às personagens femininas. Não é de hoje que mulheres aparecem nos trabalhos de cineastas negros apenas como suporte à narrativa dos personagens centrais, todos homens. Na própria filmografia de Ryan, a exemplo das duas colaborações feitas com a Marvel (Pantera Negra e a continuação Wakanda para Sempre), vemos mulheres atuando como suporte ao sucesso dos homens, reconhecidas aqui e ali principalmente pelos rostos lindos e os figurinos marcantes – vide as personagens de Lupita Nyong’o e Angela Bassett em Pantera Negra. Quando essas personagens recebem algum crédito por suas habilidades, aparecem como forças assistentes ou pessoas assombradas pelo sucesso de seus predecessores homens, como nos casos da General Okoye (Danai Gurira), do exército de Wakanda, e da irmã de T’Challa, Shuri (Letitia Wright) que busca se igualar ao Pantera Negra “original” no filme de 2022.

Mulher negra em sala escura acende vela, com colares azuis e expressão séria, diante de garrafas e potes.
Annie (Wunmi Mosaku) em Pecadores

Em Pecadores, vemos mais uma vez essa pouca disposição no desenvolvimento de personagens femininas. Aqui, as três principais mulheres do roteiro parecem servir apenas para adicionar mais camadas aos personagens masculinos. Annie (Wunmi Mosaku) e Mary (Hailee Steinfeld), respectivos pares românticos de Fumaça e Fuligem, aparecem como agentes humanizadores dos gêmeos gângsters. Mary, especificamente, parece ser construída para despertar a antipatia do público e, em alguns momentos, aparece mesmo como alívio cômico. Apaixonada por Fuligem, ela o repreende por tê-la abandonado, aparece na noite de inauguração sem ser convidada e se torna a primeira vítima do bando maligno. A raiva por ela é amplificada pelo fato de ela, como mulher branca, encarnar os conflitos raciais e culturais na sociedade sulista estadunidense de forma bastante rasa. Com isso, a personagem parece deslocada e ingênua o tempo todo.


Annie é melhor desenvolvida em comparação à Mary, especialmente por concentrar grande sabedoria em torno das ritualísticas espirituais afro-americanas. No entanto, a personagem não consegue se desvencilhar do papel de “mãezona”, mesmo quando acompanhada de Fumaça, seu par romântico. Em sua primeira aparição no filme, a única coisa que quebra a ideia de que ela não passa de uma conselheira espiritual de Fumaça, e não sua esposa, é uma cena rápida de sexo que parece encaixada tardiamente na sequência. Apesar de ter a mesma idade do restante do grupo, ela é retratada como uma pessoa mais velha, aproximando-se do arquétipo da velha feiticeira negra, muito explorada no cinema ocidental. Isso fica claro, por exemplo, na cena em que ela repreende Pearline (Jayme Lawson) por não gostar de comer alho. A jovem cantora, por sua vez, é par romântico de Sammie e até tem um número musical no filme, mas parece servir apenas para reforçar sua imagem como homem — e não como um menino – através de seu interesse sexual pelo músico.


Pecadores é, sem dúvida, uma obra cinematográfica potente, que tensiona os limites do realismo ao convocar linguagens e sensibilidades afro-americanas como forma de insubordinação estética e política. A força de suas imagens, sons e símbolos permite que Coogler encene com robustez os conflitos históricos e espirituais que atravessam a população negra nos EUA. Ainda assim, o filme esbarra em um gargalo importante: a reprodução de uma lógica patriarcal que marginaliza a experiência feminina e reduz suas personagens a estereótipos já exaustivamente utilizados pelo cinema ocidental.


Assim, o filme se posiciona entre o impulso de romper com os paradigmas dominantes e a permanência de estruturas narrativas que, mesmo em tramas anticoloniais, insistem em manter o protagonismo no campo masculino. O resultado é um filme deslumbrante, mas que evidencia, também, os desafios persistentes na construção de um imaginário próprio e emancipador.


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