“Ser mulher, ser território próprio”: coletiva de mulheres transforma comunidade de BH pela arte e afeto
- Júlia Ennes

- 20 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
Coletiva Mulheres da Quebrada promove acesso à cultura, saúde física e emocional, para mulheres do Aglomerado da Serra

No Aglomerado da Serra, na Zona Sul de Belo Horizonte, um grupo de mulheres tem transformado a vida da comunidade a partir da ideia do cuidado para além da sobrevivência. Desde 2018, a Coletiva Mulheres da Quebrada – Ponto de Cultura e Território de Cuidado promove acesso à cultura, saúde, diálogo e afeto para mulheres da maior favela de Minas Gerais.
Criada por Sandra Sawilza, Sheyla Bacelar e Simone Sigale, três mulheres nascidas no aglomerado, a Coletiva tem seguido o lema: “ser mulher, ser território próprio”. Com foco no enfrentamento à violência contra a mulher e na experiência da mulheridade na periferia, a iniciativa realiza atendimentos psicossociais, oficinas de formação e geração de renda, rodas de conversa, campanhas educativas e oficinas e workshops de dança, teatro e poesia. Segundo a organização, entre 2018 e 2025, as ações do grupo já impactaram mais de 15 mil pessoas.
A co-fundadora da Mulheres da Quebrada e diretora de produção cultural com mais de 15 anos de experiência, Simone Sigale, explica que desde a fundação o grupo se perguntava: “o que fazer com os relatos de violências, adoecimento mental, insegurança alimentar e tantas outras urgências que atravessam o corpo e o cotidiano das mulheres da favela?”. A resposta foi a construção de um espaço de apoio e cuidado, mas também de cultura e bem-estar.
“Percebemos que não bastava oferecer suporte material ou psicológico: era necessário criar espaços onde essas mulheres pudessem se ver, se reconhecer e se fortalecer. E foi aí que a arte e a cultura se mostraram fundamentais”, explica.
“Nós entendemos a cultura como um direito fundamental, mas também como ferramenta concreta de cuidado, transformação e resistência no território. Para nós, cultura não é algo distante, reservado a espaços formais — ela nasce e pulsa nas vielas, nos becos, nas cozinhas, nos corpos que dançam, nas histórias contadas e nas memórias preservadas pelas mulheres da favela”, afirma a Simone.
Por causa do trabalho cultural realizado, a Mulheres da Quebrada foi certificada como Ponto de Cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura, por meio da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural, a partir dos critérios estabelecidos na Lei Cultura Viva (13.018/2014). “A Coletiva se consolidou como um Ponto de Cultura justamente por acreditar que transformar territórios é, antes de tudo, cuidar das pessoas que os habitam”, diz Simone.
Arte como ponto de partida
Através da arte, da dança, do audiovisual como espaços de escuta e elaboração, a Coletiva Mulheres da Quebrada une acesso à cultura com autocuidado, como as sessões de arteterapia e oficinas de dança. Mais do que espectadores, a Coletiva tem auxiliado mulheres periféricas a se tornarem produtoras de arte, de conhecimento e de soluções para toda a comunidade.
“Ao longo dos anos, já observamos muitas transformações reais a partir do acesso às nossas ações culturais. Mulheres que passaram a se ver como artistas e que encontraram na dança, no teatro ou na arteterapia formas de cura emocional. Jovens que, ao participarem de oficinas audiovisuais, começaram a produzir seus próprios conteúdos e a contar suas histórias. Crianças que descobriram novas possibilidades de futuro ao verem a própria realidade representada nas telas do Cine na Quebrada”, conta Simone.

Uma das potências da Coletiva é justamente o Cine na Quebrada, projeto que promove sessões de cinema gratuitas na comunidade. Os filmes exibidos são cuidadosamente escolhidos para dialogar com as vivências das mulheres do território, abordando temas como racismo, gênero, maternidade, ancestralidade, direitos humanos, saúde mental, afetividades, lutas sociais e histórias de resistência nas periferias.
“A curadoria é feita de forma coletiva, a partir de escutas sensíveis realizadas nos grupos e atividades da Coletiva. Levamos em conta as demandas que surgem nas rodas de conversa, nos atendimentos psicossociais e nas falas espontâneas das mulheres com quem caminhamos”, explica a co-fundadora.
Além de exibir filmes, o Cine na Quebrada constrói um espaço de encontro e debate. As exibições são seguidas por rodas de conversa que, segundo Simone, frequentemente se tornam momentos de acolhimento e transformação.
“Um exemplo muito forte aconteceu após a exibição de um documentário sobre violência doméstica. Uma mulher compartilhou, pela primeira vez, que vivia há mais de 10 anos em um relacionamento abusivo. Ela disse que nunca tinha se sentido segura para falar sobre isso, mas que o filme a tocou profundamente, e a escuta acolhedora da roda fez com que ela sentisse confiança para romper o silêncio. A partir dali, ela foi encaminhada para acompanhamento psicológico com a equipe da Coletiva e, meses depois, nos contou com orgulho que havia conseguido sair dessa relação e reconstruir sua vida com mais autonomia”, conta.
O público que frequenta o Cine na Quebrada é, majoritariamente, composto por mulheres moradoras do Aglomerado da Serra, desde adolescentes até idosas. Mas, de acordo com Simone, as sessões têm reunido crianças e famílias inteiras e se tornado um ambiente intergeracional e comunitário.
“O que mais nos emociona é ver o quanto essas sessões têm se tornado espaços seguros de fala e escuta, onde o cinema é só o ponto de partida para conversas profundas, trocas de vivências e construção de vínculos”, diz.

Simone Segale defende que não é preciso uma estrutura grandiosa para começar um projeto grandioso como a Coletiva Mulheres da Quebrada — a própria instituição é exemplo disso e muitas ações começaram de forma improvisada. Para ela, a peça-chave é escutar para construir ações que de fato respondam às necessidades e aos sonhos da comunidade.
“A cultura no nosso território tem o papel de fortalecer identidades, criar pertencimento, promover autoestima e abrir caminhos de emancipação. É por meio das atividades culturais que conseguimos transformar o que era dor em potência, silêncio em fala, invisibilidade em protagonismo. A cultura, para nós, é semente e colheita. É o que nos move e o que nos cura. É a linguagem com a qual a quebrada se reinventa e sonha outros futuros possíveis.”, diz.




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