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"A paisagem mais bonita é a humana": há quase 20 anos, Lori Figueiró registra o cotidiano do Vale do Jequitinhonha

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 3 de mai.
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Com uma câmera e uma caderneta, o fotógrafo autodidata percorre comunidades do interior mineiro para retratar benzedeiras, artesãos e mestres da cultura popular.


Ilustração Digital por Laís Fidélis
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Em Berilo, no Vale do Jequitinhonha, uma mulher faleceu e foi enterrada com um livro sob as mãos. O objeto de tamanho apreço é uma das 20 coletâneas de registros do fotógrafo e poeta Lori Figueiró, que há quase 20 anos vem documentando um mundo que, segundo ele mesmo, está desaparecendo.


Homem idoso de chapéu de palha toca tambor em quarto decorado com quadros, chapéus pendurados e colcha florida no sofá. Seu olhar direto para a câmera é misterioso.
João Evangelista da Silva. Araçuaí, dezembro de 2018. Foto: Lori Figueiró.

Festas populares, ritos religiosos, Congado, Nossa Senhora. Um senhor faz uma peneira de palha, uma mulher faz farinha. A benzedeira reza pela criança. As fotografias de Lori seguem um enquadramento bem tradicional, ele reconhece. Em alguns momentos ele brinca com luz e sombra, mas no geral são imagens de pessoas em primeiro plano, frontal, em seus ambientes domésticos ou de trabalho. O foco é na gente retratada.


“A paisagem mais bonita é a paisagem humana”, afirma. “Eu procuro fazer do meu trabalho uma homenagem a esse povo do Vale."


O extenso trabalho tem gerado reconhecimento. Em abril de 2026, Figueiró recebeu a Medalha Frei Chico — honraria que leva o nome do franciscano que, assim com Lori, dedicou a vida a pesquisar e preservar a cultura popular, e chegou a escrever o Dicionário de Religiosidade Popular - Cultura e Religião no Brasil.


“Eu me senti feliz e honrado. Frei Chico era um amigo”, diz. “Ele desenvolveu um trabalho muito interessante no Vale. E eu acho que às vezes o que a gente tem que levar em consideração não é tanto o trabalho de pesquisa ou de fotografia, mas o que a gente faz de olhar, de ouvir as pessoas”, analisa.


Falar menos, ouvir mais


Figueiró não tem formação acadêmica. Cresceu numa família mineira tradicional do Vale, largou os estudos ainda novo para ajudar a mãe a criar os irmãos depois que o pai adoeceu, e passou décadas trabalhando no comércio. A fotografia veio mais tarde, já adulto. “Quando você chega numa certa idade, você precisa fazer alguma coisa que você se reconheça enquanto ser humano, enquanto pessoa”, diz.


O trabalho começou em 2007, no distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras, em Serro, onde ele tem uma casa. Lori se encontrava com moradores pelo menos uma vez por semana para ouvir e registrar histórias de vida, orações e cantos populares. O que parecia ser um exercício pessoal de memória foi crescendo. “E aí São Gonçalo começou a ficar pequeno”, conta.


Hoje, o acervo passa de 15 mil imagens. “Eu falei isso para uma pessoa e ela disse: ‘Provavelmente você é quem tem o maior acervo sobre o Vale do Jequitinhonha.’ E eu acho que sim. Eu acho que ninguém tem o que eu tenho.”


Esse trabalho tão íntimo não surge de uma hora para outra. O método é o da paciência. Ele conta que chega numa comunidade, sempre com a mediação de alguém, e começa a conversar com as pessoas. “Eu não sou aquele fotógrafo de passagem. Eu só consigo captar as imagens que eu capto, por causa de uma relação afetiva estabelecida com essas pessoas.”


Em 2014, publicou o primeiro livro, Reflexos ao Calor do Vale, e levou um exemplar para cada fotografado. Em seguida, publicou O Espelho das Memórias do Vale, uma coleção de fotografias das pessoas se vendo no primeiro livro.


“Não faz sentido eu chegar até elas, captar as imagens e não dar uma devolutiva. Eu tenho o compromisso de levar um exemplar para todas as pessoas que estão registradas”, conta. “A fotografia é uma homenagem. Ela só se completa quando a pessoa se reconhece nela.”


Casal idoso sorri ao ver uma coletânea de Lori juntos, sentados diante de uma parede verde.
Madalena Alves dos Santos e João Pereira dos Santos. Buriti Paraíso, Minas Novas, agosto de 2020.

Com os celulares, fotografar ficou mais fácil, mas para Lori, a experiência de ver a fotografia em um livro causa um encantamento diferente. “São pessoas, em sua maioria, analfabetas ou semianalfabetas. O livro para elas é um objeto ao mesmo tempo que é encantador, estranho. Tenho histórias, por exemplo, de principalmente mulheres, que dormem com um livro meu debaixo do travesseiro, porque estão no livro.”


Além da homenagem, ele defende que as coletâneas têm o objetivo de registrar e eternizar a vida de pessoas, a religiosidade, as festividades e a cultura popular do Vale do Jequitinhonha.


“Dona Aruína, Dona Gera, que é parteira em Jenipapo de Minas, o próprio Seu Zé de Herculano, eles me disseram que não têm nenhuma imagem dos pais. A memória que guardam do pai, da mãe ou de um avô é aquela coisa que vai se perdendo, como se fosse uma neblina, vai esfumaçando — essa é a expressão que eles usam.”


Idosa e menino vêem junto uma coletânea de Lori no sofá vermelho, em sala rústica com imagens religiosas na parede, clima íntimo e acolhedor.
Maria Ferreira Pereira de Oliveira e Luiz Henrique Ferreira. Curtume, Jenipapo de Minas, setembro de 2016. Fotografia: Lori Figueiró.

Mais recente, em 2025, a trilogia Territórios foi lançada oficialmente. Cada livro da série Territórios começa com um poema que recria diálogos entre o fotógrafo e o fotografado. “Uma coisa que eu descobri é que a gente tem que falar menos e ouvir mais. A maioria das pessoas tem histórias muito interessantes para contar.”


No Territórios 1, o diálogo é com Dona Aruína, parteira e benzedeira de Jenipapo de Minas. Ela recebe a fotografia de Lori, fica encantada com um mundo de cores que até então não havia percebido ser tão colorido, e questiona sobre o próprio nome: se eu tivesse outro nome, eu seria eu?


“Isso é muito lindo e é muito potente, é muito complexo”, diz Lori. “Eu fiquei muito impressionado com isso, voltei para conversar com ela. E eu ando sempre com uma caderneta, vou anotando umas frases, algumas histórias que eles contam, gravo algumas coisas. Eu vou dando uma polida e mesclando com as minhas reflexões e com as minhas falas.”

"eu me chamo Aruína Leite Caldeira


e eu pergunto


s’eu tivesse era o nome da minha mãe


Jordilina Ramos Tavares


eu seria ela


seria de ser como ela foi?"


FIGUEIRÓ, Lori. Mormaços. In: Territórios, v. 1.1


Mulher idosa de blusa vermelha e lenço amarelo posa em interior escuro, com expressão séria. Olha diretamente para a câmera.
Aruína Leite Caldeira. Ribeirão do Bosque, Jenipapo de Minas, abril de 2023. Foto: Lori Figueiró.

A sacralização do cotidiano e o fim de uma era


Um cenário recorrente nas fotografias de Figueiró são casas com paredes cobertas de imagens de santos católicos, retratos de família, fotos de jogadores de futebol e atores de novela — tudo convivendo numa mesma parede, sem hierarquia. “Eu chamo isso de sacralização do cotidiano. E eu acho isso maravilhoso”, diz o fotógrafo.


1 - Anelita Vaz da Rocha. Paiol, Chapada do Norte, fevereiro de 2020. 2 - Josefa Alves dos Reis. Araçuaí, março de 2016. 3 - Maria Amélia Pereira dos Santos. Araçuaí, novembro de 2018. 4 - João Alves Pereira e Maria Soares Ferreira. Faceira, Chapada do Norte, junho de 2016.

Certa vez, alguém lhe chamou atenção para algo curioso: num museu, um artista monta uma instalação e justifica a produção. “[No Vale] eles não falam nada. Fazem a parede deles lá e pronto”. Tudo nessa coisa da intuição”, ri.


Mas, para Lori, esse universo está desaparecendo. “Eu costumo falar que eu estou registrando o final de uma era”, diz. “O senhor que faz uma rapadura, uma peneira, que faz um balaio, a senhora que faz um doce caseiro, que faz um biscoito de goma no forno à lenha… eles são os últimos. São saberes e fazeres que não estão sendo repassados para as novas gerações – ou, então, virando uma outra coisa, passando por um outro processo que não é mais aquele.”


Homem negro de chapéu despeja líquido amarelo em grande tacho fumegante num ambiente de tijolos ao fundo.
Terezo Esteves de Souza. Mocó dos Pretos, Berilo, agosto de 2022. Foto: Lori Figueiró.

Um dos agentes dessa transformação, na avaliação de Lori, é o crescimento das igrejas evangélicas. “Cada um tem direito de seguir a sua fé. A beleza da vida está nessa diversidade. De maneira nenhuma estou aqui para defender a Igreja Católica, mas ela convive de certa forma com os terreiros de Umbanda, de Candomblé, com outras manifestações religiosas. Já as igrejas pentecostais não”, afirma. “É muito curioso esse apagamento que as igrejas acabam impondo no cotidiano das pessoas.”


Lori conta que, nas suas andanças, tem visto cada vez mais casas com cada vez menos elementos nas paredes. “Para as igrejas evangélicas, não pode ter um quadro [de santo] na parede. É uma casa despida de tudo”, diz. “A benzedeira não pode benzer, a doninha que joga verso não pode jogar verso, o senhor que toca caixinha de folia ou toca o violão, não pode tocar a não ser que seja canto da igreja. É um apagamento da cultura popular mesmo.”


O sonho de um memorial


Com mais de 15 mil fotografias, algumas delas já publicadas em 20 livros, e cerca de 400 itens de artesanato, Lori sonha com a criação de um memorial da cultura popular do Vale do Jequitinhonha — ou pelo menos, sonhava.


Ao longo dos anos, Lori foi não só fotografando artesãos, mas também comprando e guardando os objetos produzidos por eles. “Eu fotografei seu Cardino fazendo uma peneira de taquara, aí comprei essa peneira e guardei. E assim eu fui fazendo com outras pessoas. Balaio, boneca, estandartes…”, conta. A ideia era expor a fotografia ao lado do objeto em si.

Mulher sorridente de vestido vermelho segura boneca na porta, com duas bonecas na janela de casa azul.
Valdete Gomes Fernandes Silva. Cachoeira do Fanado, Minas Novas, julho de 2016. Foto: Lori Figueiró.

No entanto, o fotógrafo tem repensado a viabilidade do projeto. “Vai dando angústia. Eu tenho mais de 400 peças guardadas, 20 títulos publicados sobre o Vale e praticamente todos eu banquei com recursos próprios. Eu não ganho dinheiro vendendo livros, pelo contrário, eu coloco dinheiro neles. Não tem incentivo, não tem apoio”, lamenta.


Apesar das dificuldades, Lori já tem mais uma edição da coletânea Territórios pronta, esperando recursos para publicar, e outra ainda em fase de planejamento. “É um trabalho que a gente faz por amor mesmo. É um trabalho para prestar uma homenagem a um povo. É um privilégio conviver com esse povo”, afirma.

Todas as fotos nesta publicaçãoforam disponibilizadas digitalmente por Lori Figueiró, que também fez a gentileza de me presentear com exemplares físicos da coletânea Territórios — com belíssimas dedicatórias. Obrigada, Lori! <3


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