Quando foi que desaprendemos a descobrir?
- Bruna Batista

- 14 de set. de 2025
- 7 min de leitura

Há não muito tempo, existia um festival no CCBB que reunia artistas começando a ganhar projeção. Em uma noite, fui com amigos assistir ao show de Baco Exu do Blues, que havia lançado Esú recentemente e que ainda era lembrado por Sulícidio. Meus amigos queriam chegar apenas para o show principal, mas, com uma insistência leve — e me aproveitando do estado de alteração psíquica em que eles se encontravam — convenci todos a irmos mais cedo.
Não era sobre ver o show de abertura. Eu só não queria perder o começo do Baco. Chegamos cedo, sentamos, e pouco depois começou a cantora que abriria a noite. Era um nome desconhecido para todos nós e, pelo silêncio inicial no teatro do CCBB BH, imagino que para grande parte do público também.
Quando Luiza Lian subiu ao palco, na época uma desconhecida para nós, ninguém esperava nada específico. Não conhecíamos suas músicas. Mas, assim que começou a cantar, lembro bem do sentimento de completa surpresa e euforia. Algo ali nos atravessou sem pedir licença. As batidas eletrônicas, o canto etéreo, a presença delicada e, ao mesmo tempo, firme.
Ninguém conhecia. Ninguém esperava. E talvez tenha sido justamente por isso que marcou tanto. Para outras pessoas, poderia ter sido só mais um show — e para muitos provavelmente foi. Mas, para mim, aquela descoberta mudou a noite inteira.
Quando foi a última vez que você ouviu algo novo?
O livro A Era dos Festivais, escrito por Zuza Homem de Mello e publicado em 2003, conta a história dos festivais de música popular brasileira entre os anos 1960 e 1972, com foco nos festivais transmitidos pela televisão.
Zuza explica que os festivais surgiram em um contexto de transição do rádio para a televisão e que, ao longo dos anos 1960, se tornaram o principal espaço de visibilidade para novos compositores, intérpretes e estéticas musicais. Mais do que competições, foram lugares de afirmação cultural, palco de embates políticos e vitrines de transformação, ampliando o conhecimento sobre certas formas de produzir música.
Em 1967, o III Festival da TV Record apresentava músicas como Ponteio e Alegria, Alegria. Zuza narra como esses eventos eram palcos de descoberta para artistas iniciantes e para a própria música brasileira, que se inventava diante do público, muitas vezes em meio a vaias, aplausos e rupturas. Havia uma aura de revelação coletiva, conhecendo letra e melodia ali, ao vivo.
Há um abismo dessa experiência para o que vemos em festivais hoje. Mesmo diante de eventos pensados como vitrines para o novo, cresce o desejo por experiências previsíveis. Na maioria das vezes, o line-up ideal não é aquele que propõe algo novo, mas aquele que confirma gostos já consolidados.
A era do algoritmo e o consumo confortável
Um artigo de 2016 da The Economist já abordava como festivais globais compartilham line-ups repetidos, em um circuito de artistas que, ao mesmo tempo que ganham projeção, se tornam nomes seguros – e previsíveis – para a venda de ingressos. O festival deixa de ser um lugar de curadoria ousada para se tornar palco de confirmação de sucesso já testado em outros cantos do mundo. O público, por sua vez, encontra exatamente o que esperava encontrar.
Essa repetição não é acidental. O comportamento do público é moldado por algoritmos, playlists automatizadas e uma lógica de consumo que privilegia o familiar. Kyle Chayka, em um artigo de sua coluna da New Yorker, a Infinite Scroll, que analisa como a internet transforma e é transformada, alerta que plataformas como o Spotify desenham interfaces que induzem à escuta passiva, reforçando padrões e inibindo a exploração.
A reorganização da biblioteca, a dificuldade de encontrar álbuns completos e a ênfase em sugestões algorítmicas revelam uma plataforma que não quer mais que os usuários escolham o que ouvir, mas apenas consumam o que é oferecido. Chayka explica que Cory Doctorow descreve esse processo como enshittification: quando um serviço, após conquistar a fidelidade do usuário, passa a degradar sua funcionalidade para extrair o máximo de valor.
Com isso, o usuário se vê aprisionado em um sistema que oferece mais do mesmo e dificulta o processo de descobrir algo novo. A escuta ativa é desestimulada, substituída por faixas soltas e experiências fragmentadas.
Chayka mostra que outros usuários relatam a mesma frustração, descrevendo o Spotify como um ambiente desorganizado, repetitivo e avesso à autonomia musical. Até ex-funcionários, como Doug Ford, apontam que houve mudança estrutural na gestão do conteúdo, com a curadoria humana perdendo espaço para algoritmos.
O resultado é um público treinado para não estranhar, ouvindo o confortável e evitando o incômodo de descobrir o que não gosta. Como escreve Chayka, “os ouvintes se tornam alienados dos próprios gostos; quando você nunca encontra coisas de que não gosta, fica mais difícil saber do que realmente gosta.”
Festivais, interpretação e o medo do desconhecido
O ensaio Contra a Interpretação, publicado por Susan Sontag em 1964, é um dos textos mais influentes da crítica cultural do século XX. Nele, Sontag faz uma crítica à tendência moderna de reduzir a arte à interpretação. Para Sontag, a obsessão com o "conteúdo" da arte, com o seu "sentido profundo" ou com o que ela "quer dizer", substitui a sensibilidade e a presença concreta da forma. Assim, a interpretação se torna um mecanismo defensivo que distancia o espectador da potência da obra.
Ela argumenta que a interpretação passou a assumir um papel quase obrigatório, no qual a obra deve sempre ser "decifrada", como se escondesse algo a ser revelado. Essa abordagem, embora se apresente como crítica ou esclarecedora, na verdade mutila a arte, pois trata suas formas como simples disfarces de um conteúdo que está em outro lugar, seja ele ideológico, psicológico ou social. Para Sontag, essa atitude não só reduz a complexidade da obra, mas desrespeita a sua autonomia.
Se pensarmos no consumo de música, sobretudo nos moldes atuais de festivais, encontramos experiências pré-formatadas, programações pensadas para o Instagram e setlists que reforçam o já conhecido, em vez de criar brechas para o novo. Há menos espaço para o choque estético, para o desconforto criativo ou para o silêncio contemplativo. Tudo precisa ser legível, compartilhável, convertível em stories e reels.
Ao replicar line-ups, cenografias e ativações de marca mundo afora, o que seria um espaço de descoberta, se torna um produto mercadológico homogêneo, uma experiência que pode ser consumida como qualquer outra. O que antes era presença, torna-se template. E, nesse modelo, não há espaço para o risco, para a falha ou para o desconhecido, há apenas a manutenção do que já foi validado.
Pensando na crítica de Sontag, nesse processo, há uma extensão do desejo de interpretar tudo segundo sentidos já validados. O algoritmo oferece aquilo que já cabe em nossos rótulos de gosto. A música passa a ser tratada como “conteúdo”, o artista como “marca” e o festival como a vitrine física desse consumo passivo.
Essa lógica nos transforma em ouvintes menos curiosos. O streaming, que poderia ser o maior acervo de descobertas já existente, é usado como playlist infinita de conforto - mais um scrolling sem fim para a lista.
O risco da descoberta
O show de Luiza Lian no CCBB me lembra algo que, filtrados por algoritmos e festivais de line-up repetido, esquecemos: o maravilhamento com a descoberta do desconhecido. Conhecer algo que gostamos pela primeira vez é quase magia. É aquela ideia de “queria esquecer isso para ver pela primeira vez de novo”.
A experiência do desconhecido carrega algo que nenhum algoritmo, nenhuma curadoria pré-formatada ou playlist de conforto pode nos dar. Há encantamento quando não há expectativa ou tradução prévia. É nesse terreno que se abrem pequenas revoluções interiores, reorganizando, mesmo que por minutos, tudo o que acreditávamos saber sobre música, arte e até sobre nós mesmos.
Mas, o desconhecido também carrega o risco de não gostar, de não entender, de não saber como reagir. É mais confortável consumir o que já conhecemos, o que se encaixa em nosso repertório seguro de gostos e validações sociais. Mas o que perdemos quando evitamos o novo?
Perdemos a possibilidade de sermos transformados. Ao escolher um festival apenas pelo headliner conhecido, ao ouvir playlists que repetem nossos hábitos, ao seguir recomendações sem resistência, abrimos mão do choque estético que vem do desconhecido. É por isso que o desconhecido pode ser a única coisa capaz de nos devolver para nós mesmos, com menos certezas e mais espaço para sentir.
Sem ele, tornamo-nos consumidores passivos, incapazes de descobrir outros mundos dentro de nós ou só seguindo a recomendação de outras pessoas – leia-se: o que já foi socialmente validado pelos nossos pares.
Nesse caminho, a música vira fundo sonoro para tarefas mecânicas. Festivais tornam-se grandes stories ao vivo de experiências já validadas. Perdemos a chance de sermos surpreendidos, de ampliar nossas referências e afetos.
Zuza lembra, em seu livro, que muitos dos grandes nomes da música popular surgiram nesses palcos antes de serem “alguém”. Eles eram, naquele momento, o desconhecido. Foi a abertura para ouvir o novo, sem a garantia de um nome conhecido, que possibilitou sua entrada na história cultural do país.
Se ninguém ouve o que não conhece, como alguém que ainda não é conhecido pode ser descoberto hoje? A recusa ao novo revela um desejo de manter tudo sob controle, evitar surpresas, garantir que nada nos desestabilize. Mas, ao fazer isso, o que deixamos de sentir?
Festivais, algoritmos e playlists nos oferecem uma ilusão de segurança – um repertório de gostos prontos, confirmados e aprovados. Mas toda experiência que foge do padrão carrega um risco: o risco de gostar do que não estava no script, de gostar de algo que não é gostado por quem prezamos a opinião, de ser atravessado por algo que não pedimos, de mudar de ideia.
É esse risco que Sontag evoca ao alertar contra os sentidos prontos. É esse risco que Zuza narra ao falar dos palcos onde nomes antes anônimos se tornaram música viva para uma geração inteira.
No fundo, o risco da descoberta é também o risco de sermos mais livres. Livres para não gostar, para gostar demais, para mudar de opinião, para ampliar nossos sentidos. Talvez seja nesse risco que habita o gesto mais simples – e mais subversivo – de todos: escolher ouvir sem saber o que esperar.



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