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Garotas legais fazem jornalismo: por que as protagonistas de comédias românticas dos anos 2000 eram todas da comunicação?

Foto do escritor: Júlia Ennes
Júlia Ennes
23 de fev. de 2025
4 min de leitura

Atualizado: 10 de jul.

Oh to be a jornalista protagonista de comédia romântica correndo pelas ruas de Nova Iorque com os cabelos voando e um copo de café na mão…

Pés descalços sobre fundo listrado vermelho, amarelo e verde, ao lado de um caderno espiral e uma caneta em ilustração estilizada.
Ilustração por Thalia Vargas

Eu tinha completado 3 anos há poucos meses quando Andie Anderson se fazia de maluca só para escrever um artigo em Como Perder um Homem em 10 dias, e estava pra completar 6, quando Andrea se humilhava para atender os caprichos de Miranda e manter o trabalho na Runaway Magazine, de O Diabo Veste Prada. A decisão de cursar jornalismo só brilharia no topo da minha cabeça como uma lâmpada em um desenho animado mais de 10 anos depois, mas tinha algo naquelas personagens que já falava comigo: eu queria ser como elas.


Confesso que até hoje é fácil me convencer a dar play em um filme. Basta a sinopse mencionar algo como “fulana trabalha em uma revista” ou “ciclana é jornalista”. Não importa o quão duvidoso seja o enredo; se a personagem principal trabalha com comunicação, eu tô dentro.


Recentemente, milhares de mulheres participaram da trend “Garotas legais fazem…”, compartilhando fotos de personagens de filmes e séries que têm o mesmo trabalho que elas. Na categoria “garotas legais fazem jornalismo/comunicação”, além de Andie e Andrea, temos vários outros nomes de produções icônicas, como a Jenna de De Repente 30, a Becky de Delírios de Consumo de Becky Bloom, a Margaret de A Proposta (ok, ela é editora de livros, mas é perto o suficiente para mim), além da mais controversa de todas: Carrie Bradshaw, de Sex and The City (me sinto um pouco como ela sempre que escrevo para a Wanda e faço todas pautas serem também sobre mim mesma). Existem, claro, algumas produções mais recentes como a série The Bold Type, que já entraram para a categoria “Coisas Que Eu Assisti Porque A História Se Passa Em Uma Redação”. Mas, especificamente nos anos 2000, algo parece ter acontecido e fez com que a maioria das protagonistas de rom-coms fossem jornalistas ou escritoras.


Ver todas essas personagens reunidas na trend me trouxe um grande orgulho de ser da área da comunicação, mas também reacendeu uma questão que até já havia me ocorrido antes, mas que ainda não tinha ido atrás da resposta: por que as protagonistas de comédia romântica dos anos 2000 eram quase todas jornalistas?


É verdade que filmes sobre jornalistas não são nenhuma novidade, existem desde o início do século passado. Na verdade, são tão comuns que até receberam um nome, Newspapers Movies. Isso acontece porque, além de ser muito cool o ambiente de uma redação, ter um personagem jornalista abre um leque de possibilidades para o enredo: desvendar um mistério, se envolver com política, fazer denúncias ou, no caso das comédias românticas, encontrar o amor ou enfrentar conflitos amorosos (só quem é jornalista ou namora um sabe como a rotina é maluca!).

Após ler em meu TikTok…


Ao mesmo tempo que a trend do “Garotas legais…” viralizava e eu me perguntava porquê existem tantas personagens jornalistas nas rom-coms, apareceu na minha aba for you do TikTok um vídeo de uma diva, Mica Ayer. Sendo, “cineasta por escolha, tiktoker por falta de opção”, como diz a descrição no perfil dela na plataforma chinesa, Mica cria conteúdos sobre cinema e produções audiovisuais, sempre conectando-os à questões sociais ou tópicos do momento.


Nesse vídeo em específico que apareceu para mim, ela explica (com base em pesquisa!) o fenômeno dos newspapers movies e o que teria motivado a popularização das protagonistas jornalistas nos anos 2000. E já adianto: a resposta é um pouco agridoce.


Segundo Mica e as pesquisas que ela fez para o Trabalho de Conclusão de Curso dela, nessa época começaram a ser produzidas as chamadas “Comédias Românticas Pós-Feministas”. Esses filmes reconhecem os avanços proporcionados pelo feminismo, como a presença da mulher no mercado de trabalho e até em posições de liderança, mas também colocam esses fatores como a razão pela qual elas são solteiras e, portanto, infelizes. Se uma mulher é bem sucedida, fica difícil ter um namorado, logo, ela é infeliz. Típico anos 2000!


Esse elemento está presente em todos os filmes que citei, em diferentes níveis. Em A Proposta, por exemplo, a personagem de Sandra Bullock é vista como uma megera infeliz e workaholic, que usa o assistente para não ser deportada e acaba se apaixonando por ele no meio do caminho e, aí sim, atingindo a felicidade. Ou, se você quiser um exemplo ainda mais óbvio, a Miranda de O Diabo Veste Prada – e o caminho que a própria Andrea tenta seguir.


Eu fiquei tão obcecada por esse assunto que comecei a pesquisar mais e ler artigos e até desejei voltar no tempo e fazer alguma pesquisa relacionada a isso na faculdade. Mas se você não é tão maluca quanto eu, assistir o vídeo da Mica já é um bom começo. O conteúdo da tiktoker me chamou tanta atenção porque trouxe fundamentos e deu palavras à estranheza que eu sentia ao assistir a esses filmes, mesmo amando todos eles. Não dá para ter tudo? Ser bem-sucedida na vida pessoal e profissional?


A trend “Garotas legais…” também me fez pensar em como essas personagens influenciaram – para o bem ou para o mal – milhares de meninas que cresceram sonhando em ser como elas, seja no sentido profissional ou em relação à atitude, estilo e ambição. Essas protagonistas jornalistas dos anos 2000 se conectam até hoje com tantas mulheres justamente porque trazem conflitos que a maioria de nós enfrenta: ok, agora que conquistamos alguns direitos, e eu posso trabalhar e realizar meus sonhos profissionais, o que vem? Qual o próximo passo? Só o amor me traz completude? Não sei, I’m just a girl…


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