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Do que é feito um homem-bicho: Esmir Filho propõe releitura de Ney Matogrosso em novo longa

Foto do escritor: Maria Fernanda Marques
Maria Fernanda Marques
8 de jun. de 2025
5 min de leitura

Em um dos melhores lançamentos nacionais do ano, cinebiografia de Ney Matogrosso destrincha a forma como os aspectos de sua carreira única foram construídos


Ilustração abstrata de um rosto fantasmagórico branco sobre fundo preto com listras vermelhas, clima sombrio.
Ilustração Digital por Thalia Vargas

Cantor, compositor, intérprete, dançarino, diretor e uma das personalidades artísticas mais autênticas do Brasil, Ney Matogrosso possui uma excepcional — e ainda ativa! — carreira de mais de 50 anos. Agora, ele tem seu estilo artístico único homenageado também no cinema com a cinebiografia Homem com H (2025), que estreou no mês passado e é considerado um dos projetos mais ambiciosos da carreira de Esmir Filho.


Adaptado da biografia de Julio Maria, lançada em 2021, o filme divide a trajetória do artista em infância, juventude e meia-idade. Os dois últimos momentos são interpretados por Jesuíta Barbosa, um dos — se não o maior — destaques da produção.


Ao longo de duas horas de duração, o filme constrói um Ney Matogrosso constante, que escorrega pouco ou nada nas armadilhas que uma cinebiografia de um artista como ele pode oferecer: por um lado, a de reduzi-lo a um personagem pobre, limitado às (in)capacidades do próprio filme e, por outro — ainda mais perigosa — a de criar uma caricatura que o banaliza. O longa escapa dessas ameaças com destreza e traduz bem as bases sólidas de quem refugiou-se em si mesmo para existir do seu jeito em um mundo que lhe oferece pouco e, como se não bastasse, busca minar tudo aquilo que ele tem de próprio.


Como disse o próprio Esmir Filho em entrevista ao canal Meio Amargo, Ney é uma força da natureza — a relação homem-bicho do artista, inclusive, é muito bem trabalhada aqui. E, para construir uma boa narrativa a seu respeito, é essencial entender e usar de sua linguagem.


Assim, em uma mescla de performances fidedignas — os figurinos, comandados por Gabriela Monnerat, são um luxo à parte —, cenas dramáticas intensas e uma sexualidade construída sem constrangimentos (como deve ser), o filme deixa clara a força que o desejo — de ter e de ser — possui de colocar uma narrativa, uma vida, em movimento.


Mais que bicho, Ney remete, como pessoa, à natureza em sua própria complexidade; e tem fome. Devora ao longo de todo o filme. Devora o palco, o público, a música, a performance, os corpos masculinos e femininos, e todos aqueles que ousam barrar seu apetite incontrolável por ser quem se é. Com isso, ele cresce e se torna imenso como foi e como ainda hoje é, aos seus 83 anos. Mimetizar isso não é possível e, assim como o rio Matogrosso, Ney escapa a qualquer tentativa de moldá-lo e defini-lo como uma coisa só, congelada, não fluida.


É por isso que Homem com H se torna ainda mais interessante quando visto como uma releitura, e não como uma imitação, de Ney Matogrosso. O filme constrói a sua própria teatralidade. Jesuíta Barbosa exibe uma corporalidade ímpar —inspirada, mas não igual — e o resultado disso é um filme que voa diante de nossos olhos, mas não sem deixar marcas.


Inova ou não inova?


Três homens sem camisa se abraçam e conversam ao sol, ao ar livre, com árvores ao fundo e clima descontraído.
Jullio Reis (Cazuza), Jesuíta Barbosa (Ney) e Bruno Montaleone (Marco de Maria) em cena de Homem com H. Foto: Marina Vancini

No processo de escrita deste texto, li algumas críticas — com as quais concordo em partes — sobre modo como o filme não inova em formato. Trata-se de uma cinebiografia descritiva do início ao fim, fracionada por momentos marcantes da vida do próprio artista e dividida, como na literatura, pelos anos em que eles aconteceram. Isso implica em saltos temporais de um momento a outro que, à primeira vista, podem parecer precipitados, e forçam o filme a fazer escolhas muito claras do que abordar. Como consequência, alguns marcos ficam de fora, mal explorados ou simplesmente apagados, como o relacionamento de 13 anos entre Ney e Marco de Maria (Bruno Montaleone), que perde bastante espaço no filme para para a relação de Ney com Cazuza (Jullio Reis).


Claro, Cazuza foi muito importante para a trajetória de Ney, como o filme bem coloca. No entanto, é preciso reconhecer que, em alguns momentos, o artista carioca parece funcionar como um fanservice, ou seja, um elemento do roteiro que faz alusão a um objeto ou personalidade já reconhecido pelos fãs, mas que aparece no roteiro sem muita funcionalidade aparente. Exemplos disso são as diversas cenas que retratam o vício de Cazuza em cocaína — como a interminável cena da briga entre ele, Ney e um traficante —, ou o momento do diálogo sem pé nem cabeça que resulta de uma investida do cantor em Marco de Maria, diálogo esse que poderia muito bem ter dado espaço a aspectos mais relevantes da relação de Ney com o médico.


Dito isso, não acredito que seja um erro completo o investimento do roteiro em uma cinebiografia padrão. Devemos nos lembrar, em primeiro lugar, que trata-se do segundo longa da carreira de Esmir e, em segundo, que retratar uma personalidade como Ney Matogrosso é um desafio master não apenas para ele, mas para toda a equipe.


Por último, o filme toma bastante cuidado em representar aspectos menos explorados da vida de Ney até aqui, como a epidemia de HIV — a escolha de não conceder tempo para a exploração visual de nenhuma das mortes pelo vírus é, para mim, um dos maiores méritos do filme — e sua relação violenta com seu pai, algo que, imagino, seria ainda mais difícil se a equipe estivesse preocupada em “inovar” no formato. Além disso, é preciso dizer que a ideia de inovar, por si, é bastante vaga, e que é no mínimo problemático que esperemos “inovação” de toda e qualquer obra sem considerar os aspectos em que ela, de fato, inovou.


Podemos dizer, então, que o filme faz o básico, mas o faz muito bem feito. Apresenta ótimos desempenhos, inclusive, da direção de arte e da fotografia (é lindo o uso dos espelhos para que o olhar do público não perca nada, recriando visualmente a vontade de Ney de ser visto por inteiro) e, especialmente, do elenco. Rômulo Braga e Hermila Guedes, pai e mãe de Ney respectivamente, estão tão brilhantes quanto Jesuíta, apesar do pouco tempo de tela. Hermila, em particular, entrega o olhar expressivo e o silêncio aterrador característicos da mãe que sente que falhou em manter o filho protegido consigo, mas busca mostrar seu orgulho nas frestas que encontra.


Como disse Isabela Boscov em sua crítica, o trabalho de Ney Matogrosso reflete a sua busca por ser cada vez mais quem ele é, e o filme de Esmir Filho passa isso ao público de forma segura, com as ferramentas que tem.


Confira o trailer de Homem com H:




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