Do que é feito um homem-bicho: Esmir Filho propõe releitura de Ney Matogrosso em novo longa

Em um dos melhores lançamentos nacionais do ano, cinebiografia de Ney Matogrosso destrincha a forma como os aspectos de sua carreira única foram construídos

Cantor, compositor, intérprete, dançarino, diretor e uma das personalidades artísticas mais autênticas do Brasil, Ney Matogrosso possui uma excepcional — e ainda ativa! — carreira de mais de 50 anos. Agora, ele tem seu estilo artístico único homenageado também no cinema com a cinebiografia Homem com H (2025), que estreou no mês passado e é considerado um dos projetos mais ambiciosos da carreira de Esmir Filho.
Adaptado da biografia de Julio Maria, lançada em 2021, o filme divide a trajetória do artista em infância, juventude e meia-idade. Os dois últimos momentos são interpretados por Jesuíta Barbosa, um dos — se não o maior — destaques da produção.
Ao longo de duas horas de duração, o filme constrói um Ney Matogrosso constante, que escorrega pouco ou nada nas armadilhas que uma cinebiografia de um artista como ele pode oferecer: por um lado, a de reduzi-lo a um personagem pobre, limitado às (in)capacidades do próprio filme e, por outro — ainda mais perigosa — a de criar uma caricatura que o banaliza. O longa escapa dessas ameaças com destreza e traduz bem as bases sólidas de quem refugiou-se em si mesmo para existir do seu jeito em um mundo que lhe oferece pouco e, como se não bastasse, busca minar tudo aquilo que ele tem de próprio.
Como disse o próprio Esmir Filho em entrevista ao canal Meio Amargo, Ney é uma força da natureza — a relação homem-bicho do artista, inclusive, é muito bem trabalhada aqui. E, para construir uma boa narrativa a seu respeito, é essencial entender e usar de sua linguagem.
Assim, em uma mescla de performances fidedignas — os figurinos, comandados por Gabriela Monnerat, são um luxo à parte —, cenas dramáticas intensas e uma sexualidade construída sem constrangimentos (como deve ser), o filme deixa clara a força que o desejo — de ter e de ser — possui de colocar uma narrativa, uma vida, em movimento.
Mais que bicho, Ney remete, como pessoa, à natureza em sua própria complexidade; e tem fome. Devora ao longo de todo o filme. Devora o palco, o público, a música, a performance, os corpos masculinos e femininos, e todos aqueles que ousam barrar seu apetite incontrolável por ser quem se é. Com isso, ele cresce e se torna imenso como foi e como ainda hoje é, aos seus 83 anos. Mimetizar isso não é possível e, assim como o rio Matogrosso, Ney escapa a qualquer tentativa de moldá-lo e defini-lo como uma coisa só, congelada, não fluida.
É por isso que Homem com H se torna ainda mais interessante quando visto como uma releitura, e não como uma imitação, de Ney Matogrosso. O filme constrói a sua própria teatralidade. Jesuíta Barbosa exibe uma corporalidade ímpar —inspirada, mas não igual — e o resultado disso é um filme que voa diante de nossos olhos, mas não sem deixar marcas.
Inova ou não inova?

No processo de escrita deste texto, li algumas críticas — com as quais concordo em partes — sobre modo como o filme não inova em formato. Trata-se de uma cinebiografia descritiva do início ao fim, fracionada por momentos marcantes da vida do próprio artista e dividida, como na literatura, pelos anos em que eles aconteceram. Isso implica em saltos temporais de um momento a outro que, à primeira vista, podem parecer precipitados, e forçam o filme a fazer escolhas muito claras do que abordar. Como consequência, alguns marcos ficam de fora, mal explorados ou simplesmente apagados, como o relacionamento de 13 anos entre Ney e Marco de Maria (Bruno Montaleone), que perde bastante espaço no filme para para a relação de Ney com Cazuza (Jullio Reis).
Claro, Cazuza foi muito importante para a trajetória de Ney, como o filme bem coloca. No entanto, é preciso reconhecer que, em alguns momentos, o artista carioca parece funcionar como um fanservice, ou seja, um elemento do roteiro que faz alusão a um objeto ou personalidade já reconhecido pelos fãs, mas que aparece no roteiro sem muita funcionalidade aparente. Exemplos disso são as diversas cenas que retratam o vício de Cazuza em cocaína — como a interminável cena da briga entre ele, Ney e um traficante —, ou o momento do diálogo sem pé nem cabeça que resulta de uma investida do cantor em Marco de Maria, diálogo esse que poderia muito bem ter dado espaço a aspectos mais relevantes da relação de Ney com o médico.
Dito isso, não acredito que seja um erro completo o investimento do roteiro em uma cinebiografia padrão. Devemos nos lembrar, em primeiro lugar, que trata-se do segundo longa da carreira de Esmir e, em segundo, que retratar uma personalidade como Ney Matogrosso é um desafio master não apenas para ele, mas para toda a equipe.
Por último, o filme toma bastante cuidado em representar aspectos menos explorados da vida de Ney até aqui, como a epidemia de HIV — a escolha de não conceder tempo para a exploração visual de nenhuma das mortes pelo vírus é, para mim, um dos maiores méritos do filme — e sua relação violenta com seu pai, algo que, imagino, seria ainda mais difícil se a equipe estivesse preocupada em “inovar” no formato. Além disso, é preciso dizer que a ideia de inovar, por si, é bastante vaga, e que é no mínimo problemático que esperemos “inovação” de toda e qualquer obra sem considerar os aspectos em que ela, de fato, inovou.
Podemos dizer, então, que o filme faz o básico, mas o faz muito bem feito. Apresenta ótimos desempenhos, inclusive, da direção de arte e da fotografia (é lindo o uso dos espelhos para que o olhar do público não perca nada, recriando visualmente a vontade de Ney de ser visto por inteiro) e, especialmente, do elenco. Rômulo Braga e Hermila Guedes, pai e mãe de Ney respectivamente, estão tão brilhantes quanto Jesuíta, apesar do pouco tempo de tela. Hermila, em particular, entrega o olhar expressivo e o silêncio aterrador característicos da mãe que sente que falhou em manter o filho protegido consigo, mas busca mostrar seu orgulho nas frestas que encontra.
Como disse Isabela Boscov em sua crítica, o trabalho de Ney Matogrosso reflete a sua busca por ser cada vez mais quem ele é, e o filme de Esmir Filho passa isso ao público de forma segura, com as ferramentas que tem.
Confira o trailer de Homem com H:



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