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A memória como protagonista do cinema brasileiro

Foto do escritor: Júlia Rhaine
Júlia Rhaine
9 de jul.
6 min de leitura

Em um momento de reconhecimento internacional do cinema brasileiro, a CineOP reúne pesquisadores e cineastas para discutir como a preservação audiovisual se tornou uma questão identidade e política


Cartaz da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, com silhueta de câmera, igreja colonial em amarelo e branco e fundo azul.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Nos últimos anos, o cinema nacional ganhou projeção internacional com os filmes “Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui”. Não à toa, ambos se passam na década de 1970, já que as duas obras se propõem a construir suas narrativas em torno da ditadura civil-militar e de suas consequências ainda pulsantes para a sociedade brasileira.


Os dois longas compartilham essa proposta de resgate do passado – ou melhor, de resgate da memória – trazendo de volta cenários e sentimentos por meio do cinema, para preservar essas histórias no imaginário popular. E é claro que a Mostra de Cinema de Ouro Preto, um festival que, desde sua primeira edição, se dedica a criar espaços para preservar a memória do país por meio do audiovisual, não enxergaria essa característica em comum entre os dois filmes como uma simples coincidência.


Agente Secreto e Ainda Estou Aqui escolheram não esquecer a ditadura civil-militar brasileira. Pelo contrário, fazem desse período o eixo de suas narrativas e demonstram como o cinema nacional tem conquistado projeção ao revisitar uma memória que permaneceu viva e pulsante na sociedade brasileira, mas que, por muito tempo, foi silenciada.


Faixa de filme com paisagem estilizada, sol amarelo, logo CINEOP no canto superior direito e 2026 embaixo.
Ilutração Digital por Laís Fidélis

Em 2026, a 21ª edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) se debruça sobre esta tendência com o tema “Um país existe nas imagens que preserva.” A frase admite uma interpretação ambivalente: ao mesmo tempo em que ressalta a importância de conservar a memória coletiva, sugere que aquilo que uma sociedade escolhe preservar, e aquilo que deixa desaparecer, é determinante para a construção de sua identidade.


Por isso, o festival reúne uma programação dedicada à preservação do audiovisual, com pesquisadores, debates e obras que refletem sobre a importância de conservar a memória coletiva. Afinal, preservar o audiovisual também é preservar a memória de um país.


Durante a 21ª CineOP, conversamos com pesquisadores, restauradores, curadores e outros especialistas em preservação audiovisual para compreender os desafios e as possibilidades desse campo no Brasil. Em um momento em que a memória se torna protagonista do cinema nacional, entender como ela é preservada, restaurada e transmitida às próximas gerações também significa compreender os caminhos que o audiovisual brasileiro pretende trilhar no futuro.


Coleções Preciosas


“A preservação do audiovisual é essencial para que se tenha uma compreensão profunda sobre nós mesmos e para que possamos fazer um apanhado da nossa vida coletiva no espaço e no tempo. Sem preservar a nossa memória para saber quem somos, o que consumimos, o que guardamos, o que gostamos e o que fizemos, a gente não é nada”, afirma a cineasta Rayssa Coelho, pesquisadora presente na 21ª CineOP.


Ícone de caixa de cinema marrom com rolo e claquete sobre fundo azul, estrelas brancas; texto CINEOP e 2026.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Rayssa é codiretora do documentário de curta-metragem Coleção Preciosa (2021), realizado ao lado de Filipe Gama. O filme acompanha a trajetória de Ferdinand Willi Flick, técnico em refrigeração de Vitória da Conquista (BA), que dedicou mais de cinco décadas à preservação de um vasto acervo de objetos, cartazes, fotografias e outras relíquias ligadas à história do cinema brasileiro e mundial. A obra evidencia como iniciativas individuais também desempenham um papel fundamental na preservação da memória audiovisual.


A experiência retratada em Coleção Preciosa mostra que a preservação da memória não depende apenas de cinematecas, museus ou políticas públicas. Muitas vezes, ela começa com o empenho de pessoas que dedicam a vida a reunir, catalogar e proteger fragmentos da história, impedindo que eles desapareçam com o tempo.


Por uma Cinemateca da Quebrada


Um exemplo semelhante é o trabalho do cineasta Lincoln Péricles com a Cinemateca da Quebrada. Conhecido também como LK ou LKT, ele é cineasta, roteirista, montador e educador popular. Nascido e criado no Capão Redondo, na periferia da zona sul de São Paulo, tornou-se uma das principais vozes do cinema independente e periférico brasileiro.


A criação da Cinemateca da Quebrada surgiu a partir de uma experiência frustrante na Cinemateca Brasileira. Ao tentar depositar seus filmes no acervo da instituição – acreditando que o funcionamento seria semelhante ao de uma biblioteca, onde bastaria entregar as obras para preservação e consulta –, Lincoln se deparou com um processo burocrático que, segundo ele, lhe foi explicado de forma pouco acessível. Saiu do local sem compreender como poderia integrar seus filmes ao acervo.


O episódio o levou, em um primeiro momento, a distribuir suas produções em bancas de DVDs piratas da periferia, buscando garantir que elas circulassem entre o público de seu território. Depois, percebeu a necessidade de criar um espaço próprio para preservar e compartilhar essas obras.


“Cara, eu preciso criar um lugar que seja uma biblioteca de cinema nossa”, resume o cineasta ao explicar a origem da Cinemateca da Quebrada.


Homem de boné amarelo fala ao microfone em mesa de coletiva; fundo rosa com CINEOP 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
LK. Marterclass “Por uma Cinemateca da Quebrada“ durante a Mostra de Cinema de Ouro Preto 2026

Para Lincoln Péricles, preservar o audiovisual vai muito além de guardar filmes. É uma forma de garantir que as histórias produzidas nas periferias continuem existindo e possam ser contadas pelas próprias comunidades. Segundo o cineasta, preservar imagens e sons significa enfrentar uma narrativa histórica que, por muito tempo, tentou apagar essas experiências. “A história colonial deste país quer que essas histórias não existam”, afirma.


Na visão de Lincoln, a forma como a preservação audiovisual foi conduzida no Brasil também contribuiu para esse apagamento. Para ele, os acervos tradicionais frequentemente deixaram de incorporar memórias, práticas e produções culturais das periferias. “O movimento de preservação tradicional no Brasil é, na verdade, um movimento de apagamento das nossas memórias, dos nossos cuidados, das nossas práticas, das nossas coisas feitas”, critica.


É justamente para romper com essa lógica que iniciativas como a Cinemateca da Quebrada buscam construir novos acervos e novas formas de preservar a memória. O objetivo é evitar que as futuras gerações encontrem lacunas semelhantes às que existem hoje na história das periferias brasileiras. “Daqui a cem anos, quem olhar para essas imagens precisa encontrar uma história completa, sem os buracos que a nossa história ainda carrega”, defende o cineasta.


A Carta de Ouro Preto


É pensando na preservação do audiovisual que, todos os anos, a Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP) elabora a Carta de Ouro Preto, principal manifesto político e cultural do evento. O documento, construído coletivamente ao longo do festival, reúne diretrizes, diagnósticos e reivindicações do setor audiovisual brasileiro, direcionadas tanto ao poder público quanto à sociedade civil.


Ilustração de prédio com torre e relógio ao lado de mão escrevendo em papel, com estrelas amarelas ao fundo.
Ilustração Digital por Lais Fidélis

Mais do que registrar os debates realizados durante a CineOP, a Carta busca orientar políticas de preservação audiovisual no país. Em 2026, o manifesto foi estruturado em dois eixos centrais: o cinema como patrimônio e o cinema como direito de aprendizagem, reforçando a necessidade de preservar o audiovisual não apenas como legado histórico, mas também como ferramenta de formação cultural.


Apesar dos avanços conquistados nos últimos anos, a preservação audiovisual ainda enfrenta uma série de desafios no Brasil. Para Vivian Malusá, um dos principais entraves é a ausência de uma cultura de preservação consolidada no país. Segundo a pesquisadora, o problema não se restringe ao cinema, mas atravessa diferentes áreas do patrimônio cultural.


“A gente vive em um país em que a preservação não é uma prática incorporada ao cotidiano. Basta olhar para a arquitetura: cidades inteiras são transformadas, prédios históricos são demolidos e parte da nossa memória desaparece junto com eles”, observa.


Outro desafio é o desconhecimento do público sobre o que significa, de fato, preservar o audiovisual. Com a popularização das tecnologias digitais, muitas pessoas acreditam que basta um filme ser armazenado em um disco rígido ou disponível em plataformas como o YouTube para que ele seja preservado. No entanto, a preservação audiovisual envolve processos técnicos específicos, infraestrutura adequada e políticas públicas capazes de garantir que essas obras continuem acessíveis e íntegras ao longo das décadas.


E dinheiro é sempre um dos maiores obstáculos para levar infraestrutura àqueles que carecem. Embora a produção audiovisual tenha ampliado suas fontes de incentivo, a preservação ainda disputa espaço por recursos e carece de editais específicos e de investimentos contínuos. O desafio, segundo especialistas, é assegurar financiamento de longo prazo sem comprometer os recursos destinados à criação de novas obras.


Além disso, a instabilidade política representa um risco constante para o setor. Mudanças de governo podem interromper programas e comprometer projetos em andamento, tornando a preservação dependente das prioridades de cada gestão. Para Vivian Malusá, é fundamental que as iniciativas voltadas ao patrimônio audiovisual deixem de ser políticas de governo e se consolidem como políticas de Estado, amparadas por legislação e financiamento permanentes.


Duas mulheres em entrevista; uma segura microfone, outra ouve atenta, em ambiente interno com fundo neutro.
Vivian Malusá a esquerda, durante entrevista concedida para a Wanda | Foto: Natália Pereira

E os próximos passos para preservar o passado?


Se “Agente Secreto” e “Ainda Estou Aqui” mostram que revisitar o passado pode mobilizar públicos e conquistar reconhecimento internacional, as discussões da CineOP revelam que essa memória só continuará existindo se houver quem a preserve. Afinal, um país não existe apenas pelas imagens que produz, mas também pelas que decide guardar. Em um momento de renovação do cinema brasileiro, preservar o audiovisual significa garantir que as próximas gerações possam compreender quem fomos, reconhecer as histórias que por tanto tempo permaneceram à margem e imaginar novos caminhos a partir delas.


Homem sério ao lado de um carro amarelo, olhando para mulher sentada no interior, em cena urbana estilizada.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

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