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As criadoras do mundo

Foto do escritor: Laís Fidélis
Laís Fidélis
26 de jul.
2 min de leitura

Um conto por Laís Fidélis


Ilustração com harpa amarela, cadeira de balanço azul e bengala verde entre nuvens, com notas musicais ao fundo.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Gosto de pensar que as avós quando chegam ao céu usam as nuvens para tricotar, enquanto os anjos e santos param para ouvi-las. Com vozes de lã, contam uma vida inteira de criação divina. Avós, com suas mãos enrugadinhas, são as verdadeiras criadoras: as criadoras do mundo.


As mãos criadoras de todo universo são aquelas que tentam acabar com a fome de todos - uma sopa por vez. Tal Criação atravessa gerações com costumes, puxões de orelha e muitos avisos para não brincar com lama, menino!


Os anjos riem e traquinam, recebem cada avó com a felicidade de saber que suas broncas são o ecoar das infâncias felizes. Os santos, por sua vez, calmamente concordam com a cabeça, por que eis aqui uma avó: aquela que sabe o segredo do universo.


Curiosos, então, eles perguntam: “Dona Maria, como foi a criação do mundo?”


Um tanto impaciente, a avó respondeu: “Vou lhe explicar, mas preste atenção que vai ser só uma vez:


Cafeteira italiana verde, xícara com colher e bolo amarelo sobre mesa branca, sob céu azul com nuvens.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

No início, era uma escuridão sem fim, até que as avós se uniram para um café da tarde. No primeiro dia, ainda não eram avós. Eram apenas meninas-mulheres que carregavam as sementes do mundo. Logo, uma a uma deu à luz. E houve luz.


No segundo dia, as meninas-mães carregavam em seus braços toda a esperança existente. Abriram os jardins do paraíso e lá padeceram. Ressuscitaram ao terceiro dia para criar suas crianças com o rigor que a da maternidade exige. À linha dura, foram as mães que amaram em línguas ainda indecifráveis.


No quarto dia, observaram suas filhas, agora também menina-mulheres, plantarem suas próprias sementes no paraíso. Era o desejo de todas que o ciclo da vida continuasse: sejam férteis e multipliquem-se, quero logo ser avó - diziam.


No quinto dia, carregaram em seus ombros já cansados o cotidiano de manter uma família unida. Um almoço de domingo por vez, perguntavam cuidadosamente por cada familiar. Aconselharam sobre vida matrimonial, saúde e, claro, sobre os quilinhos a mais que deve-se perder. Fizeram reza forte e acenderam velas que até hoje iluminam o caminho da humanidade.


Ilustração de duas avós, materna e  paterna, com criança sorrindo juntos sob céu azul com nuvens brancas.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

No sexto, puderam enfim criar seus netos com muito mimo e carinho. Foram avós de todo tipo: bem-humoradas ou rabugentas, religiosas ou céticas, donas de casa ou não. Mas foram avós: seres místicos de amor inesgotável.


E no sétimo dia, descansaram.”


Homenagem à Maria do Carmo de Oliveira e Silva (27/08/1945 - 28/05/2026)


Jovem de óculos abraça idosa sorridente em festa, foto preto e branco, camiseta com texto ilegível.
Ricardo de Andrade e sua avó Maria do Carmo.

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