As criadoras do mundo

Um conto por Laís Fidélis

Gosto de pensar que as avós quando chegam ao céu usam as nuvens para tricotar, enquanto os anjos e santos param para ouvi-las. Com vozes de lã, contam uma vida inteira de criação divina. Avós, com suas mãos enrugadinhas, são as verdadeiras criadoras: as criadoras do mundo.
As mãos criadoras de todo universo são aquelas que tentam acabar com a fome de todos - uma sopa por vez. Tal Criação atravessa gerações com costumes, puxões de orelha e muitos avisos para não brincar com lama, menino!
Os anjos riem e traquinam, recebem cada avó com a felicidade de saber que suas broncas são o ecoar das infâncias felizes. Os santos, por sua vez, calmamente concordam com a cabeça, por que eis aqui uma avó: aquela que sabe o segredo do universo.
Curiosos, então, eles perguntam: “Dona Maria, como foi a criação do mundo?”
Um tanto impaciente, a avó respondeu: “Vou lhe explicar, mas preste atenção que vai ser só uma vez:

No início, era uma escuridão sem fim, até que as avós se uniram para um café da tarde. No primeiro dia, ainda não eram avós. Eram apenas meninas-mulheres que carregavam as sementes do mundo. Logo, uma a uma deu à luz. E houve luz.
No segundo dia, as meninas-mães carregavam em seus braços toda a esperança existente. Abriram os jardins do paraíso e lá padeceram. Ressuscitaram ao terceiro dia para criar suas crianças com o rigor que a da maternidade exige. À linha dura, foram as mães que amaram em línguas ainda indecifráveis.
No quarto dia, observaram suas filhas, agora também menina-mulheres, plantarem suas próprias sementes no paraíso. Era o desejo de todas que o ciclo da vida continuasse: sejam férteis e multipliquem-se, quero logo ser avó - diziam.
No quinto dia, carregaram em seus ombros já cansados o cotidiano de manter uma família unida. Um almoço de domingo por vez, perguntavam cuidadosamente por cada familiar. Aconselharam sobre vida matrimonial, saúde e, claro, sobre os quilinhos a mais que deve-se perder. Fizeram reza forte e acenderam velas que até hoje iluminam o caminho da humanidade.

No sexto, puderam enfim criar seus netos com muito mimo e carinho. Foram avós de todo tipo: bem-humoradas ou rabugentas, religiosas ou céticas, donas de casa ou não. Mas foram avós: seres místicos de amor inesgotável.
E no sétimo dia, descansaram.”
Homenagem à Maria do Carmo de Oliveira e Silva (27/08/1945 - 28/05/2026)




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