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A Festa da Luz de 2025 chegou com uma nova discussão e uma fonte CONFUSA

  • Foto do escritor: Bruna Batista
    Bruna Batista
  • 17 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Entre luz e tipografia, um chamado para enxergar o contexto


Cartaz da Festa da Luz 2025 com letras coloridas, cena noturna urbana com pessoas e desenhos neon; tipografia própria e original, fonte de difícil leitura.
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Cartaz de divulgação da Programação Associada da Festa da Luz. Divulgação.

Depois dos letreiros sobre a vida ressurgir copulando afetos, bater laje no céu da boca e nos lembrar de sonhar com a avó, a Festa da Luz desse ano trouxe uma nova forma de discutir arte e interpretação — e não foi só na frase do letreiro. As artes de divulgação da festa, veiculadas nas redes sociais e usadas para anunciar a programação, seguiram uma ideia que propôs levar a tipografia para além da função de leitura.


Realizada pela Hibrido.cc, Associação Cultural Casinha, Dalila Bastos e pela Pública, a Festa da Luz ocupa centro de Belo Horizonte com obras luminosas, vídeo mappig, performances musicais e festas. Em 2025, a programação aconteceu entre os dias 14 e 17 de agosto na região entre o Viaduto Santa Teresa, a Praça da Estação, Parque Municipal e o Edifício Sulacap, o famoso Sula.


A tipografia envolve o processo de criação do texto em sua dimensão visual, o que dá forma à comunicação escrita e a fonte, ou fonte tipográfica, é uma coleção de caracteres que vão formar uma composição visualmente coerente. Usando a fonte CONFUSA, criada pela artista visual Ceci Erlich, os materiais de divulgação receberam comentários sobre a dificuldade da leitura.


Bernardo Sek, designer responsável pela identidade visual, compartilhou uma das críticas sobre os materiais comentando que “que bom saber que estão descobrindo que a tipografia vai além da função da leitura”.

Story com tuíte sobre tipografia e meme da Festa das Luzes, mostrando uma discussão sobre a legibilidade da tipografia usada no cartaz de divulgação. O designer defende que nem toda tipografia precisa ser legível.
Discussão sobre tipografia e legibilidade. Arquivo pessoal.

Para Gabriel Nascimento, aprendiz de tipógrafo e um dos fundadores da 62 Pontos, a discussão é válida justamente porque vai além da questão estética. Ele explica que, no campo da tipografia, existem duas dimensões fundamentais: legibilidade e leiturabilidade. A primeira diz respeito à facilidade de identificar cada letra individualmente: contorno, largura, contraste e inclinação. Já a segunda está ligada ao conforto visual do texto como um todo. “A legibilidade é a clareza da letra isolada, enquanto a leiturabilidade envolve a fluidez da leitura no conjunto”.


Segundo Gabriel, essa função da tipografia que vai além da leitura é a ideia de que ela também existe para ser vista. Como explica, o próprio design gráfico contemporâneo questiona a noção de uma “fonte universal”, clara e neutra, como a Helvetica: “Hoje sabemos que a fonte pode, e deve, trazer intencionalidade”.


Em uma criação que vai além da intenção de informar ou passar uma mensagem, a fonte carrega outros objetivos. “A fonte de uma tipografia é também para ser vista, ela é um signo visual. Enquanto signo visual ela vai trazer ideias que que estão além da abstração do do fonema, essa ideia imediata que a gente tem do fonema. Ela vai carregar uma bagagem, uma carga cultural”.


Em uma entrevista sobre a criação da fonte, Ceci Erlich comenta que em seu trabalho ela busca explorar os limites do que é legível ou ilegível. “Estou interessada em questionar o quão longe podemos ir ao distorcer e modificar uma letra antes que ela se torne irreconhecível”.


No caso da Festa da Luz, a escolha foi proposital. Camila Cortielha, Diretora de Criação da Híbrido.cc, explica que a identidade visual nasceu de um processo coletivo e cheio de experimentações. Esse trabalho envolveu definir como eixo do evento trazer a cultura urbana para o centro da programação, e a equipe mergulhou em uma pesquisa sobre como comunicar a edição de 2025.


“Avaliamos o que deu certo e o que poderíamos melhorar no ano passado. Uma das nossas grandes preocupações era a acessibilidade, porque a Festa da Luz conversa com a cidade inteira e nós queremos incluir todo mundo”.

Rua noturna com painel iluminado contendo a programação da Festa da Luz de 2025, duas pessoas ao lado, carros ao fundo e luzes roxas ao longe.
Totem digital contendo a programação da Festa da Luz 2025. Arquivo pessoal.

Além da inclusão, outro desejo era envolver o público na própria identidade visual. “A presença das pessoas transforma as obras, então fazia sentido que a identidade também refletisse isso. Queríamos imprimir uma sensação de festival, de ocasião especial, de espetáculo”.


Foi nesse contexto que surgiu o nome do designer Bernardo Sek, convidado por produzir um tipo de arte alinhado à ideia urbana que a festa queria. “O Sek trouxe uma proposta ousada, baseada na sensação de olhar para as luzes. A fonte causa um estranhamento, uma sensação de fora de foco muito semelhante quando tomamos um clarão na cara.” explica Camila.


Apesar de reconhecer os riscos, a equipe optou pela escolha justamente por provocar impacto. “A gente sabia que a fonte CONFUSA não era acessível, mas ela não cumpre um papel informativo, ela traz a sensação, o sentimento, captura a atenção.”


E isso não significa uma desconsideração pela informação. Como explica Camila, em toda divulgação as informações estão apresentadas de forma legível, nas redes sociais os posts são todos acompanhados de descrições de imagens. “A gente acha que apresentou mais um desafio para as dificuldades de atenção do que para as dificuldades de leitura”.


Gabriel destaca também a proposta do designer Bernardo Sek. “Tem um jogo com o leitor, ele espera que o leitor complete aquela informação que ele tá colocando ali. A leitura tem objetivos diferentes, às vezes ela quer ser imediata, às vezes não quer e é muito importante a gente considerar o contexto”. Para ele, a escolha dialoga com a própria essência do evento, afinal, “a luz está ali para ser vista”.

Noite urbana com pessoas caminhando pelo viaduto Santa Tereza, túnel arco-íris iluminado e prédios ao fundo com luzes azuis.
Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte, durante a Festa da Luz de 2025. Arquivo pessoal.

Camila também destaca que a decisão dialoga com um conceito social: os Caminhos do Desejo, atalhos que as pessoas criam diante de obstáculos em seus percursos cotidianos. “A identidade visual propõe um pequeno percalço, mas também dá a possibilidade de cada um criar seu caminho de interpretação.”


Gabriel comenta sobre a pertinência da escolha da fonte: “Ela tem sim uma leiturabilidade. As letras têm uma baixa legibilidade que é proposital, mas existe uma leiturabilidade que se dá pelo contexto. Por mais que esse ‘s’ fique parecendo um oito, e dentro de um contexto eu sei que não vai ser um oito.”


Não por acaso, ao responder a pergunta “como você explicaria a sua fonte em três palavras?”, a artista visual Ceci Erlich diz: leia no contexto.


Ilustração Digital por Laís Fidélis
Ilustração Digital por Laís Fidélis

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