City Pop e música brasileira são primos não tão distantes
- Clara Campos

- 26 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de jun.
O Masayoshi Takanaka é o Marcos Valle do Japão?

Como uma pessoa viciada em música, enquanto navegava pelo famoso “recomendados do YouTube” há alguns anos, deparei-me com a descoberta do gênero japonês city pop e, desde então, nunca mais consegui me separar dele. Confesso que não me lembro exatamente quando e nem como ocorreu esse encontro, mas gostaria de ter a lembrança. E, para quem não está familiarizado com o termo, eu resumo: city pop é um estilo musical japonês que surgiu na década de 1970, e teve grande influência de gêneros como R&B, funk estadunidense, boogie e até bossa nova. Sim, a bossa nova!
Mas, antes de aprofundar, é preciso destacar que há um certo consenso entre músicos e pesquisadores de que o city pop não é um estilo musical muito delimitado em termos técnicos. Mesmo que alguns elementos, como o forte uso de sintetizadores e a presença do baixo groovado, sejam comuns nas canções, o city pop se configura mais como uma ideia de movimento musical. Em uma entrevista à Rolling Stone, em 2019,o supervisor da Japan Archival Series Yosuke Kitazawa, disse que "não havia restrições de estilo ou gênero específico que queríamos transmitir com essas canções", mas que "foi música feita por pessoas da cidade para pessoas da cidade".
Algumas décadas após a segunda guerra mundial, o Japão passou por um intenso processo de urbanização e enriquecimento, com investimentos dos Estados Unidos e, consequentemente, influências culturais dos estadunidenses. E é justamente devido ao “pop da cidade” ter o foco em transmitir sonoridades urbanas, agitadas e até mesmo cosmopolitas, que ele consegue fazer tantas referências a outras culturas e épocas.
City Pop e Bossa Nova?
Fenômeno mundial das décadas de 1950 e 1960, a bossa nova é conhecida por ter mesclado o samba com o jazz. A sofisticação e a beleza das composições do maestro Tom Jobim, em conjunto com letristas emblemáticos como o poeta Vinicius de Moraes, levaram o Brasil, sobretudo o Rio de Janeiro e a Bahia, para o mundo.
Assim como o Japão sofria importantes interferências dos Estados Unidos, o Brasil também se relacionava fortemente com os norte-americanos nessa época. O processo de divulgação da bossa nova para o exterior foi tão grande que até o Estado brasileiro estava envolvido. O sucesso foi tão gigantesco que Frank Sinatra, o cantor mais famoso da época, convidou o Tom Jobim para dividir um álbum com ele. E, claro, todo esse cenário contava com grande protagonismo de João Gilberto, que inventou a famosa levada de bossa no violão (que eu confesso que praticamente só toco violão assim, obrigada, João Gilberto).
Ok, mas, afinal, quais são as intersecções entre a bossa e o city pop? O que tem a ver o pop da cidade japonês de 1970 com o samba-jazz brasileiro de 1960?
Com a bossa nova se configurando como fenômeno mundial, não demorou para que chegasse ao ouvido dos japoneses e caísse na graça não só da população mas, especialmente, dos músicos orientais. Além da influência estadunidense que cercava tanto o Brasil quanto o Japão, os elos entre os dois países já existiam há tempos. O Brasil tem a maior população de origem japonesa fora do Japão. A imigração japonesa no Brasil teve ápice no período entre 1908 e 1960, com a maior concentração entre as duas grandes guerras mundiais, de 1926 a 1935. Ou seja, as trocas culturais entre o Brasil e o Japão aconteciam há décadas, facilitando incorporações inclusive musicais, como foi com a bossa nova e o city pop. Tiveram até brasileiros fazendo sucesso nas paradas musicais japonesas, como o Carlos Toshiki, que foi vocalista da banda 1986 Omega Tribe.
Mais especificamente, os músicos japoneses foram influenciados pelas características batidas de violão da bossa nova, pelo jeito de cantar “mais suave”, pela percussão tipicamente brasileira, pelo uso de acordes sempre com tensões (sétima, nona, décima primeira…) e, até, por temáticas que envolviam o verão, as praias e as festas brasileiras, como o carnaval.
Alguns artistas da época, incluindo grandes estrelas como Meiko Nakahara e Taeko Ōnuki, lançaram músicas que faziam referências diretas à bossa e, alguns até cantavam em português! Teve até álbum temático em homenagem ao Brasil, o Brasilian Skies (1978) de Masayoshi Takanaka, com banda misturada com músicos brasileiros e japoneses! E os artistas japoneses não eram só fãs de bossa, mas da MPB de uma forma geral. Naquela época (e até hoje, na verdade), músicos como Jorge Ben Jor, Marcos Valle e Hermeto Pascoal fizeram bastante sucesso em terras japonesas.
E do lado de cá?
Assim como o city pop foi diretamente influenciado pela MPB e pela bossa nova, os artistas brasileiros também se inspiraram no groove das canções japonesas, buscando referências principalmente de arranjo e produção. Para os mais chegados no tema: quem nunca ouviu o “álbum do suco” do Marcos Valle e pensou que tinha tudo a ver com city pop? Se você não pensou nisso, teve muita gente que sim, mais especificamente estrangeiros de todo canto do mundo: recentemente, o hit Estrelar viralizou nas redes sociais gringas e fez bastante sucesso. Sem entender a letra em português, muitos estrangeiros acharam se tratar de uma música japonesa de city pop.

Além de Estrelar, várias composições do mestre Marcos Valle, que também participou do movimento da bossa nova e marcou a época com sucessos como Samba de Verão, apresentam arranjos bem similares aos usados nas músicas de city pop. Várias linhas de baixo das músicas do artista, como as do álbum “Tempo da Gente” (1986), poderiam muito bem ter sido gravadas pelo lendário Toshiki Kadomatsu, músico e produtor japonês precursor do city pop.
Esse negócio dos arranjos é tão sério que os artistas brasileiros começaram a usar até os mesmos instrumentos que os japoneses. O teclado Yamaha DX7, que era muito popular no Japão, foi incorporado por vários músicos daqui, inclusive se destaca na belíssima Lindo Lago do Amor, do Gonzaguinha. Além das canções de Gonzaguinha e de Marcos Valle, existem outros hits brasileiros produzidos com inspiração nos japoneses, como Lilás de Djavan, Pela Cidade de Sandra de Sá (do álbum com “Vale Tudo”, com participação de Tim Maia), Fullgás, de Marina Lima e Antônio Cícero, e Colombina, de Ed Motta e Rita Lee. O Ed Motta, inclusive, já apareceu na Nippon TV, uma das emissoras de televisão mais famosas do Japão, em entrevista sobre suas influências do city pop. No final das contas, apesar do fuso horário de doze horas, o Brasil e o Japão são primos não tão distantes assim!



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