Atravessar a ponte: Ana Cristina César entre o biografismo e a memória viva
- Laura Portugal

- 26 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de jun.

Uma busca pelo nome de Ana Cristina César resulta em uma matéria jornalística escrita por um homem. Antes de se deter na obra da autora, que a consagrou como um dos principais nomes da chamada geração mimeógrafo, o texto traz o relato detalhado de sua morte: “deprimida”, Ana cometeu suicídio aos 31 anos, em outubro de 1983, ao se atirar da janela do apartamento dos pais, no sétimo andar de um prédio em Copacabana. O tom do texto pouco se distancia de outra matéria, publicada há mais de três décadas, em que outro jornalista, ao falar sobre Ana Cristina César – e, invariavelmente, sobre sua morte – afirma que a beleza da autora foi sua maldição. Sendo tão bonita, pouco espaço sobrava para a palavra, e assim Ana Cristina César foi mais uma grande personagem do que uma grande poeta. Como se, para uma mulher que morreu jovem, nada restasse além de ser condenada à memória da beleza que perdeu.
Completados mais de 70 anos de seu nascimento e 40 de sua morte, a poeta carioca Ana Cristina César é um dos nomes da poesia brasileira cujo debate sobre a obra mais se agarra ao biografismo. Pesquisas sobre quem foi Ana C em vida tendem a se ancorar nos mesmos relatos, que reconstroem e alimentam a fantasia de uma mulher sozinha: a única entre os poetas marginais da década de 70, mas rigorosa demais para o movimento. À margem das margens, à frente do seu tempo – embora com tão pouco tempo. Morta-viva, promessa não concretizada. Alguns apontam que a imagem mitificada da poeta é resultado inevitável de sua ausência abrupta e do tom confessional de seus poemas. Mas, fugindo do que a própria autora chamaria de obscurantismo biográfico, não encontraríamos mais do que o seu rosto ou sua morte?
Paralelo ao que foi estabelecido pelo cânone excessivamente masculino, outro movimento carrega o nome de Ana Cristina César por caminhos mais promissores: aquele que Heloísa Teixeira, uma das principais responsáveis por incentivar a poeta a se dedicar à escrita literária, nomeou décadas depois de efeito Ana C. O batismo desse fenômeno está no prefácio da coletânea 29 poetas hoje, publicado em 2016 pela Companhia das Letras. Entre os tantos ecos possíveis, a professora evoca Ana Cristina com foco à tese que a poeta, ao longo de toda sua carreira na literatura e na academia, defendeu: por trás do conceito de poesia de mulher, que se sustenta sob a concepção do sensível e do pudor, está um sintomático calar dos temas de mulher. As 29 poetas escolhidas por Heloísa para compor a publicação reivindicam, mais de duas décadas depois, temas agora intransferivelmente nossos: a violência, a morte, o desejo, o sexo, a masturbação, o egoísmo, a religião, a raiva, a recusa. Uma poesia, como profetizado por Ana C, à deriva.
O que Heloísa busca apontar é que não é raro encontrar autoras que, ao falar sobre as próprias produções, acabam falando de Ana Cristina. São numerosos os exemplos, extraídos das vozes de algumas das principais poetas do nosso tempo: Ana Martins Marques diz que aprendeu com Ana C algo sobre a poesia, algo que tem a ver com destinação, desejo e trama, com cenas, segredos e sereias, ou com texto, tesão e teatro. Angélica Freitas diz que, aos 16 anos, se tornou uma das mais jovens viúvas de Ana C. Alice Sant'Anna diz que Ana Cristina foi a primeira poeta que leu por vontade própria e que o que ela deixou foi mesmo um efeito, como quem acabou de sair da sala e deixou a bolsa. Laura Liuzzi diz que Ana Cristina César abriu as portas, mas suas herdeiras seguiram outros caminhos. Stephanie Borges disse que Ana Cristina a fez alguém que lê poesia não só para ter uma experiência, mas para interrogar o poema. Regina Azevedo diz que os poemas de Ana C. são um corpo todo em transe, as palavras fazendo festa. Diz que um dia, em uma praia do Rio Grande do Norte, andando por uma rua principal, viu uma garota de biquíni e chapéu de bruxa. Naquela noite, sonhou com Ana C.
O biografismo é, muitas vezes, uma porta atrativa. Mas garantir que artistas mulheres não tenham suas produções colocadas à prova diante da maneira com que viveram ou deram fim às suas vidas é uma tarefa duradoura. No caso de Ana C., uma tarefa firmemente assumida por suas leitoras – em uma forte contramão.
Essa é a história da poeta carioca, mas é também a de tantas outras cujas mortes prematuras as confinam a uma fila de leituras que cristalizam suas vidas na imagem do fim – como foi com Virginia Woolf, Sylvia Plath ou Alejandra Pizarnik. É também a história daquelas cujos trabalhos, mesmo que rigorosos, mesmo que pioneiros, foram repetidamente reduzidos à imagem de uma mulher bela. Os exemplos são incontáveis.
No caso de Ana Cristina César, as forças do biografismo, guiadas pela fixação em imagens de melancolia, isolamento e morte, não resistiram ao que sua poesia tornou vivo. Graças ao que se move, Ana C. hoje encontra lugar onde mais lhe cabe: em teia, ao lado das que escreveram depois – também por ela.



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