Homens escrevem literatura. Mulheres, sucesso
- Olivia Uviplais

- 31 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

Eu escrevo literatura feminina.
E o irônico é que eu não acredito em literatura feminina.
Sei que pensar em um segmento inteiro da literatura que exclui um certo gênero é estranho, ainda mais quando não se fala em literatura masculina. Ou se fala?
Porque, na prática, toda literatura é masculina. É o masculino que ocupa as estantes centrais das livrarias, que ganha os prêmios literários mais prestigiados, que é estudado nas universidades, canonizado nas escolas e chamado de universal. Isso não apaga o fato de que mulheres escrevem, mas existe sempre uma palavra que caracteriza sua obra. Quando um homem escreve, ele escreve “literatura”. Quando uma mulher escreve, ela escreve “literatura feminina”, quando quebra recordes — mesmo aqueles que os homens no conseguem alcançar — elas são as mulheres que mais vendem, como se fosse um subgênero, uma vertente menor, uma nota de rodapé.
Essa diferença não é inocente. É o reflexo de uma estrutura cultural que sempre tratou o olhar do homem como o olhar central, objetivo, universal — enquanto o olhar da mulher é tratado como específico, parcial, emocional. É por isso que quando uma escritora descreve relações, afetos ou a intimidade cotidiana, o rótulo que recebe é de “romance para mulheres”, “ficção leve”, “histórias sentimentais”. Nicholas Sparks — autor de Diário de Uma Paixão, Um Amor Para Recordar e outros grandes títulos que com certeza não querem remeter a romance — é um defensor ferrenho de sua obra ao dizer que não escreve romance. O motivo? É coisa de mulher. Logo, sua obra deve ser lida como uma investigação profunda sobre a condição humana, apesar de em temas não se diferenciar muito dos romances românticos e com certeza lucrar com a associação a outros livros que são identificados como tal.
Homens escrevem sobre casamentos, amantes, famílias e paixões, e isso é considerado genial. Mulheres escrevem sobre casamentos, amantes, famílias e paixões, e isso é considerado fútil. A diferença não está no tema, mas no gênero de quem escreve.
Por isso, ainda que eu não acredite em essência feminina ou em uma estética literária inata das mulheres, eu acredito na necessidade de uma literatura que se declare feminina. Não porque ela exista em si mesma, mas porque vivemos em um mundo em que, sem essa afirmação, a mulher é apagada. É preciso reivindicar o espaço com nome e sobrenome para que, um dia, possamos prescindir desse rótulo.
Chamar de literatura feminina é uma forma de demarcar território, de afirmar que sim, mulheres escrevem, e que o que escrevem têm valor, mesmo quando não se encaixa nos moldes masculinos de prestígio. Mais do que apenas isso, chamar de literatura feminina cria um lugar seguro para as leitoras, um espaço que elas sabem não haver julgamento sobre o teor de suas leituras.
E aqui entra outra questão: o romance. Um dos gênero mais lido do mundo, o que movimenta as maiores cifras no mercado editorial nacional e internacional — vide a lista dos livros mais lindos da década no Kindle Unlimited brasileiro — , o que mantém editoras vivas e livrarias abertas. Romance é, majoritariamente, escrito e lido por mulheres. E, ainda assim, é o gênero mais ridicularizado, deslegitimado, tratado como produto descartável. Não é coincidência: o desprezo que a sociedade tem pelo romance é o mesmo desprezo que a sociedade tem pelas mulheres.
Homens são misóginos com o romance porque o romance é território feminino em sua gênese. Porque o romance dá às mulheres um espaço de imaginação em que elas são protagonistas, em que seus desejos importam, em que suas narrativas ocupam o centro. Ao ler, elas podem estar a frente de um laboratório de pesquisa, voando em cima de um dragão, organizando o casamento da melhor amiga sem deixar de lado suas emoções, seus desejos e anseios. E isso incomoda. É mais fácil rir, diminuir, desqualificar. É mais fácil dizer que “é só escapismo”, “é só fantasia”, “é só para mulheres”. Como se o “só” já não fosse, em si, uma forma de violência simbólica.
No fundo, esse desprezo não é apenas pelo romance, mas pelo fato de ele não pedir permissão. Ele vende milhões de cópias sem precisar da chancela de críticos homens, ganha adaptações cinematográficas e cria fenômenos de massa sem precisar de legitimação acadêmica. Ele prova, todos os dias, que as mulheres não apenas escrevem, mas leem e sustentam o mercado literário. Isso desestabiliza a lógica de poder.
Então, quando digo que escrevo literatura feminina, estou assumindo uma contradição consciente. Não acredito que exista uma essência feminina que me diferencie na forma ou no conteúdo. Mas acredito que existe uma necessidade política de afirmar esse espaço. Porque, enquanto não houver um nome para o que as mulheres escrevem, o mundo seguirá fingindo que só existe uma literatura: a masculina.
Talvez um dia possamos abandonar rótulos. Talvez um dia a literatura escrita por mulheres seja apenas literatura. Mas, até lá, assumir a marca do feminino é uma forma de resistência. É recusar a invisibilidade. É lembrar, a cada página, que escrever sendo mulher é desafiar séculos de exclusão e dizer: nossa voz também constrói o mundo.
*Olivia Uviplais é o pseudônimo da jornalista comunicóloga e escritora mineira que divide seu tempo entre desentranhar a comunicação e escrever comédias românticas fofas — o melhor de dois mundos.


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