Solteira, inclusive em livros
- Júlia Ennes

- 30 de nov. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 4 de jun.
Poeta cataguasense que evitou a vida pública por décadas agora é celebrada pela crítica

Em 2025, uma poeta nunca antes publicada em livro venceu o Prêmio da Academia Mineira de Letras, aos 86 anos. Depois de décadas fugindo da vida pública e negando o mercado literário — para além de eventuais publicações em revistas e suplementos —, Maria do Carmo Ferreira lançou, em 2024, pela editora Martelo, a coletânea Poesia reunida [1966-2009], composta por três volumes: Cave Carmen, Coram populo e Quantum satis.
Organizada por Fabrício Marques e Silvana Guimarães, a trilogia venceu por unanimidade o Prêmio da AML e também foi finalista do Jabuti, na categoria Poesia. Agora, Coram populo concorre ao Prêmio Oceanos (o resultado sai no dia 10 de dezembro).
Só por isso a história de Maria do Carmo já seria incrível: uma poeta que passou a vida se esquivando do mercado editorial e, quando finalmente aceita publicar, é aclamada pela crítica. Mas minha surpresa cresceu ainda mais quando descobri que ela é cataguasense — assim como eu. E, se depois de mais de um ano de Wanda vocês me conhecem pelo menos um pouco, sabem que sou um tanto bairrista.
No poema Im-pro-vi-so, ela escreve: “quem quer saber de mim, leia o que eu faço”. E foi exatamente isso que fiz: comprei o box de livros e mergulhei na poesia de Maria do Carmo Ferreira. Mas, se Deus existe (como Carminha acredita) e se ele teve alguma influência na profissão que escolhi, fez de mim jornalista — não poeta. Senti que precisava de mais. Foi então que entrei em contato com Rogério Ferreira, sobrinho e afilhado de Carminha, que hoje, devido à saúde debilitada da tia e preferência pela reclusão, virou porta-voz dela.
Um carma, um carme, um carmim
Carminha, como é chamada desde menina, nasceu em Cataguases, na Zona da Mata mineira, em 1938. É uma entre os nove filhos do Juca “Dentista”, como era conhecido na cidade, e de Maria Ferreira, dona de casa que criava bichos-da-seda no porão. Ambos também se aventuraram na escrita, cada um à sua maneira: o pai publicava poemas em um jornal local (o que Carminha só descobriu após a morte dele), e a mãe chegou a escrever um manuscrito sobre a história da família.
Influenciada pela irmã mais velha, Celina Ferreira — esta sim poeta amplamente publicada e premiada —, Carminha começou a escrever aos 14 anos, “por excesso de amor”, como diz sua biografia.
“Minha mãe também era uma poeta de mão cheia, com vários prêmios. Teve projeção, mas depois caiu no esquecimento — coisa típica do Brasil”, conta o sobrinho Rogério. “Ela era dez anos mais velha que minha tia e sempre teve muito carinho por ela. Sempre que escrevia um poema, a primeira pessoa para quem declamava era Carminha”.

Foi também por meio da irmã que Ferreira conheceu o Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG), onde publicou 78 poemas ao longo de mais de 30 anos. Em 2000, a revista dedicou um dossiê de 17 páginas à poesia de Carminha.
Apesar da influência, ela teve mais oportunidades formais de estudo do que Celina. Formou-se em Literatura na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde publicou seu primeiro poema, De uma flor de pedra (posteriormente revisado como Enigma para a coletânea). Viajou pela França, Inglaterra e, nos anos 1970, foi fazer mestrado em Literatura Comparada na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.
Rogério lembra que uma vez a tia o convidou para passar uma temporada de um ano e meio com ela, para aprender inglês. A mãe fez o que pode e mandou ele e a irmã para lá, mas as coisas não saíram como planejado.
“O tal de um ano e meio não deu muito certo, porque a minha tia estava passando por problemas de ordem afetiva”, relata. “Naquela época, ela vivia com uma companheira, que rompeu a relação. Ficou muito abalada. Acabou que a gente ficou só quatro meses e meio. Uma pena”. Carminha é abertamente bissexual. Ao longo da vida teve namorados e namoradas – as relações longas e intensas, porém, foram com mulheres.
Após a desilusão amorosa, concluiu o mestrado e decidiu voltar ao Brasil, apesar da possibilidade de um doutorado e um cargo efetivo na Universidade. “Ela não teve tranquilidade emocional para continuar nos Estados Unidos”, avalia Rogério.
Durante a estadia lá, no entanto, Carminha aprofundou seus conhecimentos da língua inglesa e outros idiomas, passando a fazer traduções (hoje ela fala seis línguas: português, inglês, francês, italiano, espanhol e latim).
Nas versões de Carminha, seu estilo próprio é muito perceptível. Traduziu Yeats, Mallarmé, García Lorca, Pablo Neruda e, principalmente, Emily Dickinson – poeta que nunca publicou um livro em vida e escreveu: “Publicar – é o leilão/Da nossa Mente”.
Pergunto a Rogério se a relutância da tia em publicar vem de uma visão crítica do mercado. Semelhante à Dickinson, Ferreira, em Aos vendilhões do temp(l)o, escreve: “de que me serve a poesia / lançar âncoras ao vento / se os próprios poetas revendem / seu talento por talentos / como a Cristo já o fizeram?” – aqui, ela brinca com as palavras “talento”, no sentido de dom, e “talentos” no plural, como moeda antiga de ouro ou prata. No entanto, Rogério discorda. Para ele, a não-publicação seria uma inércia causada por “uma timidez muito grande” da tia.
No posfácio de Quantum Satis, escrito por Fabrício Marques a partir de entrevistas com a autora, a própria Carminha parece dividida: “Nunca corri atrás pra publicar ou divulgar o que faço. Questão de insegurança ou de temperamento? Acho que os dois”.
Apesar da reclusão poética e o “gênio difícil”, como ele diz, o sobrinho-afilhado tem memórias doces com a tia. “Isso daí é um pouco das Ferreira, sabe? As Ferreira sempre foram esquentadas. E o interessante: todos os Ferreira eram muito inteligentes. E a minha tia Carminha, para mim, é a mais”.
Além de poeta, Maria do Carmo foi professora, tradutora, redatora publicitária e trabalhou por 30 anos na Rádio MEC, no Rio. Lá, conheceu Cecília Meireles, Ana Cristina Cesar e Clarice Lispector. Morou em Belo Horizonte, São Paulo, Itália e Estados Unidos; radicou-se no Rio de Janeiro por mais de duas décadas e, por fim, mudou-se para Niterói, onde vive até hoje.

Brincando de esconde-esconde
As aparições públicas de Carminha sempre foram intermitentes, como ela própria reconhece. Entre os leitores que aguardavam cada novo poema estava o escritor e publicitário Décio Pignatari. Ao Suplemento Literário de Minas Gerais, ele afirmou:
“Sempre gostei de seus poemas e sempre fiquei esperando mais. Mas ela aparecia e desaparecia, brincando de esconde-esconde com a poesia e com o público. Cada palavra que escreve quer dizer alguma coisa. Ela tem um jeito moderno, forte e agressivo”.
Pignatari conheceu a obra de Carminha em 1967, quando publicou o poema Meretrilho, na Invenção, revista concretista que editava em São Paulo.
O destino de Ferreira, então, parecia repetir o de Dickinson, até que Silvana Guimarães e Fabrício Marques (este que a conheceu quando ele dirigia o SLMG) assumiram a missão de mudá-lo.
Também escritora, Silvana conta que convencer Carminha foi “osso duro de roer”. Passou mais de dez anos insistindo para que a poeta aceitasse publicar. “Muitas vezes ela desligou o telefone na minha cara, pedindo que eu não ligasse mais sobre esse assunto”, lembra.
Rogério, que acompanhou a batalha do outro lado da linha telefônica, comenta o desfecho: “A Silvana foi lá, pacientemente, e dessa vez, ela foi mais receptiva. Não sei se por conta da idade dela ou [pelo pensamento de] ‘se eu não concordar eu vou ser uma ilustre esquecida’...”
A partir daí, Maria do Carmo reuniu o material, e os organizadores cuidaram da edição. “Tenho certeza de que minha tia ficou muito feliz”, diz Rogério. “Brinquei com ela: ‘tia, a senhora está contente por ter ganhado o prêmio da Academia Mineira de Letras?’. E ela respondeu: ‘tô… mas o que eu posso fazer agora? Tô aqui nessa cama, não ando’. É um pouco de tristeza reconhecida.”
Questionado sobre um possível arrependimento, Rogério pondera: “Só ela pode dizer. Mas, se não tivesse sido tão teimosa, esse livro poderia ter saído uns vinte anos antes — e talvez isso tivesse dado ânimo para ela continuar escrevendo.”
Maria do Carmo parou de produzir em 2009. Católica, a partir daí passou a se dedicar ainda mais à religião. “Ela diz que a poesia não trouxe o que ela esperava. Eu achei que foi um pouco de ingratidão com a poesia, porque a poética dela é tão bonita e ela se dedicou tanto…”, comenta o sobrinho.
Escrevo desde quando.
Publico esparsamente
em jornais literários
uma ou outra revista
que já não vêm ao caso:
a coisa é intermitente.
Que dizer na entrevista
que hora se me apresenta
a não ser do embaraço
de me perder de vista
entre fatos recentes
e um passado passado
em tal velocidade
que ainda me tem em mira
de estágio permanente?
[Entrevista, Maria do Carmo Ferreira, em Quantum Satis (Martelo, 2024), p. 32]
A trajetória de Carminha foge à lógica mercadológica: uma poeta que escreve centenas de poemas e, apesar de ser apreciada por seus pares da literatura, se recusa a ser publicada.
O lançamento da coletânea, portanto, tornou-se uma conquista não apenas para a família e os organizadores, mas para o próprio campo literário brasileiro. “Esses três livros são a contribuição da minha tia para a poesia brasileira — e uma senhora contribuição!”, afirma Rogério. “Quem ganha é o público, que agora tem mais uma grande poeta para descobrir.”
Para Silvana Guimarães, a publicação representou um ponto de virada na recepção da obra de Maria do Carmo Ferreira. “Com esta edição, ela alcançou um público maior, que a reconhece como uma das vozes mais esplêndidas da poesia brasileira no século 20”, diz a organizadora.
Hard-heart: a fase internauta
No fim dos anos 1990 e início dos 2000, Carminha encontrou na internet uma possibilidade de interlocução. Publicou em blogs, sites, revistas eletrônicas e listas de e-mails. A coletânea de 2024 traz uma sequência de poemas em que vemos referências ao mundo da internet em seus primórdios.
“A fase internauta de minha tia foi de muitos e-mails”, conta Rogério. Segundo ele, a lista de contatos era extensa e incluía nomes como Ferreira Gullar, Nélida Piñon e Carlos Heitor Cony. Por volta de 2000, Carminha começou a escrever também para o endereço profissional do sobrinho. “Eram tantos e-mails por dia que precisei pedir para ela mandar só para o meu pessoal, porque me distraíam no trabalho. Ela ficou chateada e nunca mais mandou — nem para um, nem para outro!”, recorda.
O jornalista e escritor Ronaldo Werneck também guarda lembranças dessa fase. Apesar de conterrâneos, os dois poetas só se conheceram no Rio de Janeiro e se aproximaram depois de participarem juntos como jurados de um concurso de poesia.

Anos mais tarde, Werneck já havia voltado a morar em Cataguases, quando Carminha o reencontrou pela internet. “A partir do ano 2000, passamos a ter intensa troca de e-mails, na verdade ‘poemails’ como eu os chamava. Várias vezes tentei convencê-la a editar seus poemas. Em vão”, conta.
Em 2013, Werneck organizou uma edição especial sobre a Cataguases modernista para o Suplemento Literário de Minas Gerais, na qual incluiu um texto sobre Carminha e outro sobre sua irmã, Celina Ferreira. A relação entre os dois está registrada também no livro Revisita Selvaggia (2005), que reúne relatos sobre a amizade e publica alguns dos “poemails” trocados ao longo daqueles anos.

Foi também por essa rede de “poemails” que Silvana Guimarães conheceu Carminha, em 1998. “Era o espaço onde poetas e escritores divulgavam seus trabalhos”, recorda. “Durante pouco mais de dez anos, dividimos alegrias, angústias, indignações, poemas, segredos, conversa fiada. Descobrimos muitas afinidades. Depois, como num passe de mágica, Carminha sumiu do meu mapa.”
Quase 30 anos mais tarde — muitos e-mails trocados, longos sumiços, reencontros e uma coletânea de mais de 200 poemas publicada — Silvana ainda não conhece Maria do Carmo pessoalmente. No posfácio de Cave Carmen, a organizadora escreve: “Poucas pessoas conhecem bem a Carminha. E quem a conhece mais, dela sabe pouco”.
E agora, Carminha?
Maria do Carmo Ferreira é uma artista complexa e completa, difícil de definir. Uma poeta que brincou de esconde-esconde com o público, virou as costas para o mercado e escolheu nunca publicar em livro — até agora. Uma mulher bissexual que, apesar dos relacionamentos intensos, decidiu nunca se casar, por preferir a solitude. Uma autora prolífica que um dia decidiu parar de escrever e se voltou à religião. Filha, irmã, amiga, companheira. Uma cataguasense, que saiu da minha – da nossa – cidade e ganhou o mundo.
Essa amplitude de vivências e convivências é transferida, inclusive, para sua escrita. A poesia de Carminha nasce da intimidade cotidiana. Nela vemos sua família, dores, ironia, rebeldia, a percepção de si e do ofício de poeta. O formato de coletânea revela suas fases – ela aproxima tradições e experimentações, se aventura no concretismo em Meretrilho (1967), brinca com forma, fonemas, faz referências, intertextualidades, causa estranheza, vai do rebuscado ao mais “cru”, e aos poucos vamos percebendo o tema religioso cada vez mais presente.
É interessante pensar que ela escolheu ser discreta, se esconder da vida pública por décadas, mas deixou transparecer tanto de si na poesia. “Estou sempre contando a minha história, é a minha obsessão”, disse uma vez em entrevista à Fabrício Marques. Então, no final das contas, Carminha tinha razão: quem quiser saber sobre ela, deve ler o que ela fez.
Se a primeira caixa de livros levou mais de dez anos até receber seu aval, o que esperar agora? Para Rogério e Silvana, a vida pública da obra de Maria do Carmo Ferreira não acabou por aqui.
“Ela será publicada novamente. Uma nova coletânea, talvez. Ainda há muitos poemas inéditos. Talvez um livro de contos. Com certeza, quatro livros de poesia infantojuvenil e um de tradução”, promete a organizadora.
A coletânea Poesia reunida [1966-2009], de Maria do Carmo Ferreira, pode ser encontrada no site da editora Martelo, assim como em outros sites de venda on-line. Vale a pena! E dessa vez não é bairrismo – é a Academia Mineira de Letras que está dizendo.



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