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O novo mundo de Paige

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 7 de jun.
  • 7 min de leitura

Após um ano de bloqueio criativo e quase desistir da carreira, uma nova Paige volta com a versão deluxe de "Esse É O Meu Mundo"


Paige de vestido azul com tule rosa posa diante de pano amarelo sob céu azul e nuvens.
Paige para Esse É Meu Mundo Deluxe. Foto: Renato Ronnie

Em 2025, Paige lançou o álbum Esse É O Meu Mundo, que, segundo a própria, conta a história da vida dela. O que ela não sabia é que um novo capítulo já estava sendo escrito. Agora, um ano depois, a versão deluxe do projeto narra esse capítulo: a maternidade. Em entrevista à revista Wanda, a artista de Belo Horizonte conta que retorna aos palcos e plataformas após quase desistir da música, se reencontrar em faixas engavetadas e no amor das amigas e, claro, após a chegada de Kiara.


A última vez que conversei com Paige foi em 2023, quando lançava o EP Pretchuka. Naquela entrevista, na sede da Macaco Lab, agência que a representa, ela falava sobre o projeto com precisão estratégica — e em certo momento até acendeu um cigarro. Agora, em videochamada, a artista de 28 anos é outra: faz uma pausa no meio da conversa para trocar a fralda de Kiara, volta com a bebê no colo e sorri ao dizer que o cigarro também ficou para trás. “Por causa da minha gestação, por causa da minha filha, eu parei de fumar e nunca mais vou voltar”, afirma. “Alô, quem é essa?”, brinca.


A chegada de Kiara vai completar seis meses, e mudou mais do que hábitos e rotina. Para entender o quanto, é preciso voltar um pouco.


Novo Mundinho

Os meses que se seguiram ao lançamento do Esse é Meu Mundo foram difíceis. A artista que acabara de colocar sua história em disco se viu incapaz de escrever uma música nova. Parou de cantar. Desaprendeu as próprias letras, como ela mesma diz. Paige até tinha um outro álbum em processo de elaboração mas veio o bloqueio. “Fiquei um ano sem escrever música praticamente”, admite.


“A gente não precisa romantizar — nenhum trabalho é fácil —, mas, quando se trata de sonho, de arte, tudo fica muito pessoal, muito emocional. Aí vem a gravidez, aí vem essa expectativa de ser algo. Pensei muito em desistir, mas durante a gestação retomei a vontade de fazer música, de fazer arte, de querer mostrar isso”, conta.


Há um momento muito específico que Paige guarda com carinho: ela, grávida, no chuveiro, cantando para Kiara ainda na barriga. Não sabia bem o que dizer para a filha que esperava, então cantava. Uma música antiga, escrita na adolescência com um amigo, que estava engavetada por quase uma década. Foi ali, entre o vapor e a melodia, que nasceu a ideia do deluxe de Esse É O Meu Mundo — e, de certa forma, que Paige reencontrou a si mesma.


Paige grávida de vestido branco sentada entre plantas, em cenário azul e verde. Ela está sentada de lado, olhando sobre o ombro, com expressão serena.
Paige grávida de Kiara. Foto: Renato Ronnie

“O deluxe não foi pensado, ele surgiu me resgatando desse lugar de bloqueio”, afirma. O projeto é o resultado dessa análise e retomada da própria arte. As seis faixas inéditas da versão começaram a ser compostas há muito tempo — algumas estavam esquecidas, outras quase entraram na primeira versão e acabaram ficando de fora. Eu Te Amo, Eu Te Adoro, a música que ela cantarolava no chuveiro para Kiara ainda na barriga, era uma guia gravada no celular por Paige e o amigo Gustavo Vaz quando os dois tinham 17 anos.


A partir daí, a inspiração voltou. A primeira composição desde o lançamento de Esse É O Meu Mundo é a faixa Outra Vez. “Eu estava num momento muito depressivo”, conta. A letra revela o estado em que a artista se encontrava: nascendo o dia, o sonho outra vez. “Sou eu tentando resgatar esse sonho. Tô tentando engatar a marcha, sabe?”, diz.


Kiara nasceu praticamente no Natal, e sua apresentação ao grande público viria junto com o lançamento do deluxe. Mas logo Paige percebeu que fazer uma campanha de lançamento em pleno puerpério não seria moleza. “Não tinha como me dedicar e tive algumas complicações. Foi muito difícil a minha recuperação.”


O lançamento ficou então para o Dia das Mães — data não só simbólica porque Paige agora era uma das homenageadas, mas também porque foi nessa mesma data, no ano anterior, que ela descobriu que estava grávida.


“A primeira faixa do deluxe é Interlúdico. Eu escrevi essa melodia com o Davi [Knispel] no estúdio, no fim de semana do Dia das Mães em 2025. E eu já estava grávida, mas não sabia”, conta, e completa com uma surpresa coincidência: “Logo depois, Davi também foi pai.”


Meu Mundinho tem uma história ainda mais especial, que Paige diz fazer questão de que todo mundo saiba.


A filha da filha do Sol

Nas vésperas do dia das mães de 2026, Paige fez um anúncio duplo: o lançamento do deluxe e a existência de Kiara. “Eu queria ser mãe, mas não era meu maior sonho. Na verdade eu morria de medo e ainda tenho”, conta.


A notícia da maternidade pegou muita gente de surpresa. Isso porque quase ninguém sabia mesmo, só a família e a equipe que cuida da carreira de Paige. No meio da campanha de lançamento de Esse É O Meu Mundo e de uma gravidez com comorbidades, a cantora decidiu guardar o segredo. “Eu me dediquei muito a me cuidar, a cuidar da minha saúde. Ficava pensando: ‘Não vou falar nada porque não quero pessoas pensando na minha gestação e na minha bebê."‘ Aí, quando fizer quatro meses eu falo. Depois dos seis eu falo. Depois dos sete vou mostrar. Chegou no oitavo mês, para o nono… tive a neném.”


As amigas mais próximas, Karen e Jade — artistas que participam da versão original e agora do deluxe de Esse É O Meu Mundo — só ficaram sabendo quando Paige decidiu fazer um chá de bebê. “Elas nem sabiam que eu estava grávida. Falei: ‘Amigas, tô grávida, vou fazer um chá de bebê. Preciso que vocês estejam aqui.’ Aí elas vieram e me deram de presente essa música.”


Assim surgiu a faixa Meu Mundinho, que fecha a versão deluxe. A Karen Fialho fez o violão e o teclado e chamou a Jade para escreverem a letra juntas, gravaram no estúdio e apresentaram a faixa já pronta para Paige no chá. “Eu chorei horrores, fiquei muito de cara com como a minha filha é tão especial”, lembra.



A primeira parte de Esse É O Meu Mundo termina com a faixa 98’, aberta com o áudio da mãe de Paige que diz “filha, você nasceu para brilhar”. Agora, o deluxe fecha com Meu Mundinho, escrita pelas madrinhas do ponto de vista de Kiara.


“O Esse É O Meu Mundo, se você escuta de trás para frente, de 98’ até a intro, ele conta a minha história. É aquela cobrinha que não termina, que come o próprio rabo. O deluxe também. Em Meu Mundinho, a primeira frase é ‘você é meu raio de sol’. As meninas quiseram linkar com o álbum, porque eu sou filha do sol. Então, automaticamente me torno parte do sol, e a Kiara é meu raio de sol. Tudo tem essa conexão, mas foi muito natural. O sentimento foi guiando o caminho.” expressa.


Quando pergunto se ela já imaginou Kiara ouvindo esse álbum daqui a alguns anos, Paige sorri. “Fico imaginando ela cantando na escola, se apresentando no dia das mães, no dia dos pais. Tipo a filha da Sharpay [Evans, personagem vivida por Ashley Tisdale em High School Musical]: ‘a minha mãe é a Paige! A minha mãe é a Paige!’”, ri segurando Kiara no colo. “Eu canto muito para ela desde que era pequenininha. Acho que vai ser uma criança muito ligada à música. Agora é só esperar.”


Mais leve

Paige conta que a maternidade a ajudou a se reconectar com a música — e a música foi fundamental para superar o período depressivo que enfrentava. Agora, ela encara a carreira de maneira diferente. “Eu me cobrava muito, queria que tudo fosse perfeito. Aí nunca era. Agora, não é que não tenha problemas — tenho vários —, mas estou muito mais leve para com eles. Acho que nem tô pensando neles, porque tenho que pensar em trocar fralda, dar banho.”


Sem romantizar, ela deixa claro que parte dessa leveza vem da rede de apoio que a cerca. “Tenho muita sorte porque meu trabalho me possibilita contar com pessoas muito empáticas. Meu companheiro me ajuda muito, ele é um paizão. Mas minha mãe é mãe — e de três filhos. Aprendo muito com ela; ela me ajudou, cuidou de mim e faz isso até hoje. Sem ela, sem meu companheiro, sem as pessoas que trabalham comigo e entenderam que minha rotina mudou, não sei o que eu teria feito.”


Em Um Lugar, Paige canta sobre expectativas, a busca pela felicidade e equilíbrio e o fim de uma versão de si mesma: “eu me sinto livre toda vez que eu lembro do fim”. “Esse fim é comigo mesma”, explica. “A pessoa que eu era e que não sou mais, porque agora sou mãe. Minha filha é a primeira coisa que penso quando acordo e a última quando fecho os olhos. A gente nunca para de pensar — eu não durmo há seis meses. Estou conhecendo esse mundo que é o meu novo mundo. A gente ressignificou tudo.”


A artista de 28 anos parece genuinamente transformada, e essa leveza fez as coisas fluírem de um jeito diferente. “Eu não vou deixar de ser a Ana, que é a Paige, a Baby Girl. Mas a gente só cresce. A gente vai colocando várias joias nesse roupão, vai se enchendo de pedrarias e ficando cada vez mais brilhoso. Para mim a vida é assim. Eu sou outra pessoa, me sinto livre, de fato, daquilo que eu era antes, porque eu não sou mais só isso.”


A marcha está engatada. “Tô mais interessada na música, com várias ideias. Não paro no deluxe — tô que nem um trem bala! Não vou desistir da música.” E, com o humor característico: “Muita gente que não gosta de mim queria que eu desistisse, mas eu não desisti. Um beijo para elas! E um forte abraço!”

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