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Girl, so confusing: em "Brat", Charli XCX fala sobre gênero, rivalidade feminina e maternidade

  • Foto do escritor: Clara Campos Bicho
    Clara Campos Bicho
  • 12 de jan. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 29 de jun.

Eu sei que estou atrasada, mas finalmente parei para ouvir esse disco


Ilustração por Thalia Vargas
Ilustração por Thalia Vargas

Finalmente, na última semana de 2024, eu parei para ouvir com calma o disco "Brat" da inglesa Charli XCX. Lançado em 7 de junho de 2024 pela Atlantic Records, "Brat" é o sexto álbum de estúdio da cantora e foi produzido por A.G Cook, Easyfun, Cirkut e George Daniel. E eu sei, estou alguns meses atrasada… Quando o disco saiu, ouvi apenas algumas das 15 canções no meu fone e, claro, de relance ouvi os hits do álbum várias vezes, já que tocou o ano todo em tudo quanto é lugar, como falamos na retrospectiva da Wanda. Confesso que não me cativou de primeira.


Antes de "Brat", já conhecia Charli, mas nunca fui uma fã, nem grande ouvinte de suas músicas. Não por não gostar exatamente, mas talvez por ter tido pouco contato. Lembro-me dela pela primeira vez há uns dez anos, com o sucesso mundial "Boom Clap", e hoje percebo o quão nova ela era naquela época, tinha 21 anos. E, ainda que tenha surgido com um hit pop chiclete, ela parecia diferente de suas contemporâneas: cantava de forma diferente, com seu sotaque inglês nada sutil, era fisicamente diferente, não parecia genérica, como costumamos ver, e também apresentava um certo sarcasmo em suas letras. Charli XCX certamente se destaca em meio à multidão de artistas pré-fabricados pela indústria.


Diferentemente de muitas artistas de sua geração, Charli sempre escreveu suas próprias músicas. E é justamente por isso, pela pessoalidade das composições de Charli XCX, que "Brat" se tornou um fenômeno, consolidando-se como o álbum mais bem avaliado de 2024 no Metacritic e o 16º álbum mais bem avaliado de todos os tempos. O que poderia ser mais um álbum hyper-pop, é praticamente uma espécie de diário de Charli que, em meio ao autotune e batidas eletrônicas, mostra-se extremamente vulnerável, cantando sobre temas bastante pessoais.


O som pop do álbum é experimental e tem inspiração na música rave e nos próprios lançamentos anteriores da cantora e de seus amigos, como a brilhante Sophie, grande precursora do hyper-pop, a quem Charli dedica à faixa So, I. XCX fala sobre se arrepender de não ter convivido mais tempo com a amiga, falecida em 2021.


Charli XCX abre o álbum com "360", que foi lançado como single, e transmite ao ouvinte uma sensação de empoderamento e empolgação. Assim como em "Club Classics" e "Von Dutch", segunda e sexta canção do álbum, Charli faz autorreferências, reconhecendo a si mesma e seu grupo de artistas como ícones da música contemporânea, em termos de talento, estilo e de personalidade.


Em "360", XCX cita os nomes de Gabbriette e de Julia Fox como exemplos de mulheres inspiradoras, além de seu amigo e produtor A.G Cook. Esse detalhe sutil me chamou a atenção porque de cara sugere que o texto é mais do que um simples “sou incrível”, é, na verdade, bem mais profundo do que isso. Essa exaltação dos amigos evidencia pessoalidade e prepara um pouco o ouvinte para as camadas de sentimentos o espera nas próximas faixas.


Partindo dessa ideia, na terceira faixa, "Sympathy is a knife", Charli fala sobre inseguranças, sobre ter que lidar com falsidade e ter dificuldades em saber se alguém está sendo genuíno ou falso com ela. Essa grande discrepância de discurso entre as duas primeiras músicas e a terceira foi meu primeiro choque ao ouvir "Brat". Charli XCX vai de “eu sou uma artista referência e as pessoas tentam me imitar” para “sou apenas uma pessoa que também tem inseguranças” em poucos minutos e assim ela fica durante todo o disco.


A quarta e a quinta faixa de "Brat" continuam a explorar as vulnerabilidades da cantora. Em "I might say something stupid", seguindo o tema de "Sympathy is a knife", Charli fala sobre performances sociais, festas, e de como ela sente que talvez não pertença mais a certos lugares e grupos sociais que costumava frequentar e, mesmo assim, continua frequentando. “Talvez eu diga algo idiota”, ela canta. Parando para pensar, são temas muito pessoais e incomuns de serem tratados de forma tão direta, como a artista aborda. Em "Talk talk", que é um som pop mais doce e mais comum, Charli conta sobre o início do relacionamento com seu noivo, revelando seus sentimentos e inseguranças sobre a aproximação com o companheiro.


Chamo atenção para a sétima faixa do álbum, "Everything is Romantic", que é a mais bonita sonoramente e com certeza uma das minhas preferidas. A canção se destaca entre as demais: começa com arranjos bonitos de violinos, seguidos pela voz de Charli, que descreve paisagens e contextos, situando o leitor a uma atmosfera etérea. Segundo a própria artista em sua conta no Tik Tok, cinco termos que descrevem a canção são: “italiana, roupas chiques, romântica, Pompéia, rendas e cortinas.”


Na segunda metade do álbum estão as faixas "Rewind", "So I", "Girl, so confusing", "Apple", "B2b", "Mean Girls", "I think about it all the time" e a última, "365". Seguindo a mesma lógica de mesclar músicas sobre empoderamento com músicas sobre inseguranças, medos e desejos, Charli apresenta "Rewind", na qual fala sobre o desejo de “voltar” aos tempos em que ela não se importava com a opinião alheia, em contraste com os dias atuais.


“Eu voltaria no tempo para quando eu não era insegura. Para quando eu não analisava demais o formato do meu rosto. Hoje em dia só como nos bons restaurantes. Mas, honestamente, estou sempre pensando no meu peso”

Por mais triste que seja essa situação, achei incrível me deparar com um texto desses em um álbum de uma cantora famosa. É bastante humano e está diretamente relacionado a questões de gênero, como a violência dos padrões de beleza para as mulheres.


As letras de Charli XCX transparecem honestidade e por isso me cativaram. São músicas sobre temas muito específicos e pessoais, muitas vezes incomuns na música pop ou na música de forma geral. Ao mesmo tempo, são bastante passíveis de identificação por parte do ouvinte, sobretudo se você for uma mulher. Além de falar sobre padrões de beleza, inseguranças, empoderamento e citar suas amigas em suas músicas, em "Girl, so confusing", Charli também canta sobre um grande tema inerente da vivência enquanto mulher: a rivalidade feminina. Quem nunca teve uma amiga que secretamente (ou nem tão secretamente assim) não gostasse de você ou tivesse inveja de você?


Destacando outra das minhas favoritas, está a penúltima música de "Brat": "I think about it all the time", que é basicamente sobre o dilema de Charli em ser mãe ou não ser mãe. Ela canta que tem o desejo de ter um filho mas que teme que a maternidade, com todas as suas adversidades, possa tirar a sua liberdade como uma mulher independente.


No geral, não tem nada muito novo nas típicas progressões de acordes de música pop usados no álbum e nem nos arranjos, característicos do hyper-pop. O que torna "Brat" genial são as composições extremamente únicas de Charli XCX, além de seus vocais impecáveis e interessantíssimos. Ela vai na contra mão de suas contemporâneas, sim, não há como replicá-la.

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