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O Oscar e como a memória influencia em suas experiências (e nas nossas)

Foto do escritor: Ricardo de Andrade
Ricardo de Andrade
15 de mar.
5 min de leitura

Entre memórias, os filmes indicados ao Oscar revelam como o passado molda as narrativas do presente


Ilustração com figuras amarelas e duas tiras de filme pretas, além de um rolo de cinema em uma cabeça
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Quando decidi assistir os filmes indicados ao Oscar, não estava pensando em nada. Não comecei pensando em uma competição, como infelizmente tem sido o modo vigente de se assistir filmes nos dias de hoje. Comecei apenas buscando bons filmes.


E talvez esse tenha sido meu maior acerto desde que me enveredei pelo cinema. Neste momento eu entendi que não estava apenas consumindo – mas exercitando um conceito que nos acompanha pro resto da vida: a memória.


Notei, em um momento mais profundo de reflexão, que a memória está presente em todos os indicados à categoria de melhor filme: em Frankenstein, as memórias do criador e da criação contrastam em meio à reflexão sobre seus lugares no mundo; em Hamnet, o luto e a dor, são acompanhados pela memória do que se foi e, de forma teatral, são transformados em catarse.


A memória está sempre ali. Em O Agente Secreto, somos apresentados a um filme construído através de memórias. Tanto as que se foram quanto aquelas que ainda serão interpretadas. Memórias essas que foram, ironicamente, apagadas com a ajuda do país que agora às aplaude.


E essa foi a grande sacada do filme brasileiro. O filme têm boas chances de abocanhar mais um prêmio de “Melhor Filme Internacional” para o Brasil, com as lembranças renegadas de nossa história. Um país que indica a obra à essa grande honraria, mas fecha os olhos para os maus-tratos dados aos imigrantes está querendo dizer exatamente o que?


Fica a reflexão: o Oscar aprende com suas memórias? É uma premiação que premia as obras pela sua capacidade de serem consumidas ou de serem interpretadas pelo grande público? Dentro disso, moralmente falando, as memórias representadas nas obras estão sendo valorizadas ou somente são ignoradas, gerando uma certa hipocrisia por parte da Academia? E claro, se essas memórias são valorizadas, são apenas para se adequar às demandas de representatividade do mundo moderno?


Pensando nisso, podemos enfatizar Marty Supreme, filme em que um americano ambicioso não aceita sua posição na sociedade e faz de tudo para se manter em um lugar que nunca o pertenceu. Seria este o grande certame dos países afora que competem no Oscar? Eles realmente pertencem naquele lugar? Eles realmente... precisam pertencer naquele lugar?


Neste exercício de memória, pensemos em Pecadores. Amado pela crítica e com uma base de espectadores dividida, o filme invoca a memória. A história negra, o racismo, os brancos que tentam se colocar neste lugar de vítima quando na verdade são os causadores de tudo. Tudo… tudo está ali.


Eis aí um perfeito exemplo de uso da memória e dessa vez tonificado dentro da música, uma das artes sensoriais mais poderosas que existem. Por ter se alimentado da memória como narrativa histórica, Pecadores tem grandes chances de ser laureado como “Melhor Filme”. Mas isso é o suficiente para se manter no panteão dos grandes filmes da história? O Oscar sempre foi o exemplo máximo disso? Ou foi como nos ensinaram a acreditar?


Se assim nos ensinaram a acreditar, então faz sentido que F1: O Filme, esteja nessa lista. A memória que resta é a de um piloto perdido no próprio amálgama de sensações e arrependimentos. Porque, assim... de verdade? Neste filme, o que importa para os produtores é resgatar a memória do que um dia a Fórmula 1 significou para seu público. E o faz isso muito bem, como se não estivesse preocupado em ser criticado por sua história simplória e previsível. E sabe... aqui, talvez não tenhamos perguntas. Aqui, talvez tenhamos conclusões. F1 é o único dos indicados que deixa muito claro que a “memória” só importa para resgatar seu público e, principalmente, seu lucro.


Mas como um suspiro de alívio, o Oscar só trouxe um exemplo deste tipo em 2026. Já fomos tomados por blockbusters em um passado recente. Por sorte, alguns cineastas provam que ainda merecem ter seu espaço ao sempre procurarem tratar de conceitos populares de formas não muito populares. Este é o caso de Paul Thomas Anderson, com seu novo filme Uma Batalha Após a Outra. Aqui faço uma comparação com a letra de Tudo O Que Você Podia Ser, do álbum de Milton Nascimento e Lô Borges. Assim como a música brasileira, o filme trata da memória como algo poderoso, mas que ainda assim pode continuar na berlinda. Para essa narrativa, a memória não é um agente transformador e sim o que sobra de nossos fracassos.


E o que é a melhor escola da vida, senão aprender com os nossos fracassos? Ainda que o protagonista sofra com as consequências de seus “não-atos” e sua passividade perante os horrores que aconteciam no mundo, ele entende que fez o que poderia ter sido feito. Até que a desgraça aconteça, ele está em paz com sua memória. E nesta última frase, convido-os a pensar: o Oscar tem agido dessa forma desde 1929, quando foi criado pela Academia? Só se move quando é convidado a se mover?


Essas respostas ainda estão em debate. Visto que para uma premiação desse tipo, tão criticada por seu viés ideológico neutro (e cá entre nós, sabemos que o “neutro” sempre penderá para o sistema social em vigência), ainda temos outros suspiros de alívio, como dito anteriormente neste texto. Sonhos de Trem não se preocupa em ser um filme de Oscar. Não se preocupa em ser um filme de prêmios. Não se preocupa em ser nada... a não ser um belíssimo filme sobre a vida de um pacato cidadão americano durante o período da depressão econômica. Robert Grainier é o contrário do protagonista de Marty Supreme, que não vê consequências em seus atos.


Em Sonhos de Trem, o lenhador está sempre atormentado por memórias do passado. Do que poderia ter feito. Do que poderia ter sido evitado. Todos os seus arrependimentos estão ali, embarcados numa grande solidão. Ainda que assombrado por essas questões, ele seguiu sua vida e num final catártico, ainda assim conseguiu dar sentido a uma vida que não fazia sentido. No final, o Oscar poderia estar seguindo esse caminho? Ele está a caminho de um final “catártico”, visto que a chegada de novas mídias ameaça a posição da sétima arte dentro de nossa sociedade?


Ou seriam apenas sentimentos falhos, como vemos no laureado de Cannes, Valor Sentimental? Assim como a protagonista, o grande prêmio insiste em escolher outros caminhos por “orgulho”? O Oscar só se interessa em manter o status vigente ou quer fazer algo útil para a sociedade?


Bugonia, o último exemplo listado a ser citado por aqui, é um filme que se encaixa nessas duas últimas reflexões. Se quer fazer algo útil para sociedade, indicar um filme “surrealista” com óbvias tendências para o cinema B americano, é uma boa opção? E ainda ajuda a manter o status vigente da premiação? É. Nisso não há o que se discutir.


Ou seja... podemos dizer que o Oscar tem aprendido com suas memórias? Ou é somente ilusão, fruto de uma sociedade capitalista que aprendeu a lucrar com a representatividade?


É o que podemos descobrir no dia 15 de março deste ano, quando tem início a 98° edição da premiação. Em um mundo de respostas prontas, esperamos ter novas reflexões e quem sabe: novas respostas sobre o que está por vir.


Eu sei que são muitas questões sem resposta e esse texto pode ter irritado o leitor que as procura. Mas como achar as respostas sem fazer as perguntas certas?

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