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Entre a Representação e o Simulacro: Os limites da autorrepresentação e da ressignificação de narrativas na arte

  • Foto do escritor: Letícia Albuquerque
    Letícia Albuquerque
  • 6 de jul. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

O que acontece quando a representação de corpos marginalizados parte de quem não compartilha dessas vivências? Uma reflexão sobre arte, identidade e crítica


Ilustração Digital por Laís Fidélis
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Eu nunca me vi na necessidade de escrever uma crítica de arte. Mas, recentemente, deparei-me com uma pintura publicada no Instagram que me fez repensar meu papel como pesquisadora de história da arte e a importância de tecer essas críticas, principalmente dentro da academia. Era uma obra da artista visual mineira Tekinha Barra, estudante de Belas Artes na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


A obra que despertou minha inquietação era a representação de uma mulher preta, com bronze de fita adesiva sem sutiã, correntes e argola dourada fumando um baseado. Seu corpo é cartunesco e caricato, extremamente sexualizado, com inserções de LED no bico dos mamilos. Quando olhamos pro portfólio da artista como um todo a temática se repete: corpos quase sempre negros e extremamente sexualizados. Há problema nisso?

Ilustração/grafite de mulher negra sensualizada fumando charuto, cheia de joias, em parede branca, fazendo gestos com as mãos.
Print da obra de Tekinha Barra, 2025. Reprodução: Instagram.

A artista se descreve como alguém que “acredita na potência da cultura popular e na comunicação mais acessível” e utiliza de multimídias como o grafitti e a moda para produzir obras que “dialogam com suas vivências e cotidiano buscando representá-las de formas cômicas”. Os temas que mais se fazem presentes em suas artes são de vivências marginalizadas, tratam sobretudo de assuntos de cunho sexual e do universo do funk.


Aqui acho importante ressaltar que este texto não busca antagonizar com base em moralismos a abordagem desses assuntos na arte. Não me oponho às temáticas nem mesmo a forma, afinal, gosto é algo subjetivo e acredito que exista bastante valor nessas manifestações artísticas. Exposições como FUNK: um grito de ousadia e liberdade, do Museu de Arte do Rio, por exemplo, evidenciam cada vez mais o desejo de salvaguardar e exaltar essas faces mais marginalizadas da cultura brasileira.

Instalação artística colorida em instalada no Museu de Arte do Rio, com pinturas de mulheres negras dançando em poses sexualizadas sob toldo listrado e fundo urbano.
Vista da exposição “FUNK: Um grito de ousadia e liberdade”, Museu de Arte do Rio, 2023/2024. Foto: Divulgação

Mas então, afinal, pra que escrever esta crítica? Pois quero usar desse exemplo para abrir a discussão sobre os limites da representatividade, da ressignificação da hipersexualização, da caricatura de corpos marginalizados, da representação de si e o simulacro de vivências em narrativas artísticas.


Se analisados fora de contexto, os desenhos e grafites de Tekinha poderiam ser a representação visual de uma vivência que empodera e aumenta a autoestima desses corpos. No entanto, há uma pergunta importante a se fazer: até que ponto a artista se aproxima dessa realidade e quanto dessa representação visual é uma emulação artificial e fetichizada?


Quero por um momento fazer um parênteses e reconhecer a importância dos projetos sociais que a artista realiza, democratizando o acesso à arte no Aglomerado da Serra. São projetos extremamente importantes para a cultura e não quero desmerecer os esforços de usar sua plataforma e seus privilégios para a realização de tais projetos. Meu foco é discutir a arte dela, não em seu valor estético, mas na narrativa que os atravessa e os justifica.


A dicotomia entre representação e autorrepresentação na arte

Quando discutimos arte e suas representações visuais de beleza, canônica ou não, temos que considerar uma história violenta de apagamentos e exaltações que por anos foram usados para justificar narrativas de opressão, estereótipos e ideais de beleza. Utilizo como base principalmente as pesquisas das artistas-historiadoras Juciele Silva, Mariana Bracks Fonseca e Janaina Cardoso de Mello, da Universidade Federal de Sergipe, para falar um pouco da representação visual de mulheres negras na História da Arte.


Muitas dessas imagens sempre foram atravessadas por estereótipos violentos que afirmavam o lugar simbólico desses corpos na sociedade. A figura da “Mulata do Samba”, como esse objeto sexual e de desejo, pode ser usada para discutir sobre as recentes ressignificações da sexualidade feminina como forma de empoderamento.


Nos últimos anos, temos acompanhado muitas artistas, principalmente no campo da música, com destaque ao funk e ao rap, utilizando da própria sexualidade como ferramenta de empoderamento e autonomia, como é o caso de Duquesa e a dupla Tasha e Tracie. Essas manifestações são de extrema importância justamente por tirar o olhar fetichista do corpo marginalizado e colocá-lo em um lugar autônomo de desejo e vontades.


Porém, com base em relatos de outros corpos marginalizados, pesquisas e inclusive experiências empíricas como mulher lésbica — identidade essa historicamente marginalizada e sexualizada também —, acredito que essas ressignificações têm de vir de um lugar de uma vivência pessoal, caso contrário continuam caindo no lugar comum e problemático do fetiche.


Nesse ponto entro na minha segunda crítica: a emulação e o simulacro de vivências na arte. Tekinha não é uma mulher preta e marginalizada, logo a narrativa da sua arte como ferramenta de ressignificar a sexualização de corpos marginalizados e periféricos se torna no mínimo duvidosa. Faço a pergunta: é possível ressignificar a hipersexualização de mulheres negras no funk não sendo uma mulher negra? Em que momento se torna caricato e ajuda a reforçar estereótipos negativos vindo de uma artista branca que sempre acedeu a privilégios sociais?


As discussões de separação entre a arte e o artista vêm se mostrando cada vez mais relevantes nos últimos anos e não sou da crença de que seja possível fazer essa distinção de forma tão simplista. Vivências pessoais e trajetórias de vida refletem muito nas representações que elas tomam na arte e acho que algumas das obras da Tekinha são exemplo disso.


Apesar da importância de seus projetos sociais e seus esforços de democratização do acesso à arte dentro de comunidades, criou-se em volta do trabalho de Tekinha uma bolha retroalimentada de validação, muitas vezes cega à críticas pertinentes às suas obras.


O impacto — seja ele positivo ou negativo — da arte vai para além da bolha que a consome e é necessário apontar essas problemáticas para que não se torne um problema velado e perpetuado ad infinitum. Nesse caso, acho imprescindível um deslocamento sociogeográfico para que a discussão tenha mais nuances e a crítica seja pertinente. Dessa forma, a pesquisa da artista deveria ser mais atravessada por interseccionalidades de raça e classe, que se fazem pouco presentes em grande parte do seu portfólio e isso independe do seu valor comercial ou de circulação, que não cabe a mim julgar ou colocar preço.


Por fim, acho importante ressaltar que meu objetivo com esta crítica é de abrir a discussão sobre essas problemáticas de narrativas que vêm crescendo cada dia mais dentro das produções nas universidades de Belas Artes. Não é um caso isolado e não é um problema recente, sociólogos como Rodney William e Pierre Bourdieu já discutiam sobre as problemáticas da apropriação cultural desde os anos 80. Essas problemáticas são transferíveis a outras esferas no que tange à pluralidade de identidades e manifestações artísticas e que vemos observando se tornar pontos de tensão em todas as esferas da cultura.


O papel da crítica de arte se faz necessário como ferramenta de denúncia no momento em que começam a surgir problemáticas que não são tratadas com a devida seriedade em decorrência da repercussão negativa na vida social e profissional de quem critica.


* Letícia é natural de Belo Horizonte e estudante de Museologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisadora nas áreas de história da arte, patrimônio material, imaterial e urbanismo.


As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião da Revista Wanda.

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