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Mulheres na arte contemporânea: sujeito ou ainda somos objeto?

  • Foto do escritor: Clara Campos Bicho
    Clara Campos Bicho
  • 6 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Por que as narrativas de si mesma são tão importantes?




Ilustração Digital por Laís Fidélis
Ilustração Digital por Laís Fidélis


Ao longo da história da arte, os homens homogeneamente representaram as mulheres: nas músicas, nas pinturas, nos livros, depois no rádio, no cinema e na televisão e, agora, na internet… Nós mulheres servimos por séculos como musa-objetos — às vezes musas, mas sempre objetos.


De diversas maneiras, fomos silenciadas dos registros históricos e desacreditadas em nosso potencial intelectual e criativo: a arte e a academia eram espaços exclusivos aos homens brancos e ricos. Pensando, sobretudo, no mundo ocidental, a maioria dos artistas ao longo da história era homem. E hoje, será que está muito diferente?

Pintura bíblica: mulher seminua de turbante afasta dois anciãos sussurrantes, em clima tenso e escuro. Ela parece fugir deles.
Susannah and the Elders. Guido Reni, 1622-23

Ao longo de tantos séculos, o mundo patriarcal se apossou do mundo artístico que, através do olhar masculino, estabeleceu as mulheres como objetos de consumo nas obras de arte. É interessante pensar como a arte é um espaço de liberdade, onde é possível colocar em prática, de alguma forma, toda a imaginação e fantasia do artista — o que, sem dúvidas, pode materializar diversas violências de gênero, das mais sutis às mais explícitas (mal comparando, atualmente, vale pensar o uso de inteligência artificial para manipulação de imagens de mulheres).


Para refletir sobre esse assunto, há um livro muito interessante chamado Ways of Seeing (1972), do crítico de arte inglês John Berger, no qual ele discute, entre outras questões, a reprodução do mundo patriarcal na arte. Berger escreve: “Os homens agem e as mulheres aparecem. Os homens olham para as mulheres e as mulheres olham para si mesmas no ato de serem olhadas pelos homens”. É curioso pensar sobre como esse olhar machista é ensinado a nós, desde crianças, também através de outros objetos midiáticos como novelas, desenhos animados e histórias de contos de fadas.


E hoje: onde estão as mulheres na cena?

A partir da minha própria experiência como artista visual e musical, percebo como essa visão patriarcal ainda é muito presente na produção artística contemporânea. A maior parte dos artistas ainda é homem: nas artes visuais mas, principalmente, na música. E nós mulheres, infelizmente, ainda parecemos ocupar, sobretudo, lugares de objeto.


Na “cena” da música, geralmente, as mulheres são incentivadas a cantar e a “enfeitar” o ambiente — e isso pode parecer tentador para muitas pessoas.


Obviamente, o intuito deste texto não é o de julgar as escolhas individuais de cada artista, mas refletir sobre o que nos é incentivado enquanto mulheres: que é basicamente ser vista como um objeto de desejo. Exemplo disso é este quadro bastante simbólico (e terrível) de Man Ray, no qual a mulher retratada é literalmente um objeto bonito que serve para ser apreciado e, claro, tocado, como um instrumento musical.

Mulher nua de costas em preto e branco, com turbante e símbolos musicais gravados no dorso, em estúdio.
Le Violon d'Ingres. Man Ray, 1924.

Repetindo a história que perdura há séculos, nós mulheres ainda somos incentivadas a aprender outros tipos de atividade, que não priorizam as habilidades consideradas “técnicas” ou “intelectuais”, como pintar, compor e produzir músicas e tocar instrumentos, por exemplo. O lugar de objeto é sempre oferecido se você for mulher, já o de musa, só se você for considerada bonita.


Imagino que muitas vezes pareça ser vantajoso estar numa posição na qual você não precisa exercitar muito a sua inteligência ou se esforçar para desenvolver a técnica. No entanto, entrando nessa, muitas artistas se vêem perdidas, dependendo de outras pessoas ou até de selos e gravadoras.


O lugar de musa-objeto continua na arte contemporânea, principalmente na música. Basta refletir: quantas compositoras contemporâneas você consome? Quantas produtoras e donas de estúdio você conhece? Quantas bandas com integrantes mulheres você escuta?

Cartaz amarelo das Guerrilla Girls com gorila nu sobre fundo amarelo; texto critica o Met Museum: menos de 5% artistas mulheres no museu, 85% de mulheres nuas ou seminuas nas obras.
Cartaz do grupo de ativistas contra o machismo na arte, Guerrilla Girls. O título em português: “As mulheres precisam estar peladas para entrar no Museu Met.?” 1980.

Infelizmente, a arte acaba imitando a vida e as desigualdades e violências do mundo são reproduzidas a todo momento, desde o seus bastidores até às obras de arte de fato. Inclusive, não recomendo esperar muita coisa da maioria de homens do meio (muitos que inclusive fazem vista grossa para abusadores e agressores de mulheres). Por isso, talvez a melhor ideia para iniciar uma mudança seja investir na própria autorrepresentação.


Seja pintando, compondo as próprias canções, aprendendo a tocar melhor um instrumento ou produzindo, criar as narrativas de si mesma parece ser a primeira e mais potente forma de reivindicação da condição de sujeito das mulheres artistas. A partir do momento em que contamos as nossas próprias histórias, podemos ser vistas como seres humanos e viver o nosso trabalho de forma mais verdadeira e mais confiante.

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