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Quem matou Vale Tudo?

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 26 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Definitivamente uma das novelas já feitas


Vale Tudo 2025. Divulgação.
Vale Tudo 2025. Divulgação.

Há uma semana, assistimos ao polêmico final do remake de Vale Tudo, escrito por Manuela Dias. A nova versão de uma das maiores novelas da história da TV brasileira não saiu da boca do povo por meses, seja por bem ou por mal. Agora que tudo acabou, eis aqui meu review.


Aproximadamente um ano atrás, quando o elenco do remake foi anunciado, eu assistia à versão original no Globoplay. Na época, Manuela Dias deu uma entrevista à Folha de S. Paulo em que disse que, para ela, o pilar de Vale Tudo não é a crítica social, mas sim a aposta entre mãe e filha. A autora afirmou ainda que poderia mudar a vilã Odete Roitman, porque falar mal do Brasil estaria supostamente fora de moda. Depois da repercussão negativa, ela parece ter voltado atrás.


Porém, nessa mesma entrevista, Manuela afirma algo muito interessante: “o autor também fala através de seus personagens”. E talvez tenha sido por isso que tivemos momentos bizarros, como a cena em que Odete diz que “a sociedade pode não estar preparada para mulheres que comandam o mundo, mas o patriarcado vai ter que se acostumar”, e outra personagem sussurra: “essa aí caminhou para que as feministas pudessem correr”. Do you think Odete Roitman had girl power?


Não acho que Manuela Dias se veja na Odete, nem que tenha algo contra Raquel ou contra Taís Araújo (que, nesta versão, interpreta a protagonista), mas sim que escolheu o caminho mais fácil, pop. E o que me leva a pensar isso é a forma como essa novela foi promovida.


Voltemos à entrevista à Folha: no ensaio fotográfico, Manuela Dias usava uma camisa escrita “eu vou matar Odete Roitman”. Na versão de 1988, a vilã (interpretada por Beatriz Segall) só aparecia no capítulo 29, em uma cena que sequer mostrava seu rosto completo — não por ser menos importante, mas porque sua aparição merecia suspense. Em 2025, tudo foi acelerado. A Odete de Débora Bloch era vista desde os teasers. A personagem se chamava na terceira pessoa, com nome e sobrenome, o tempo todo. E até a pergunta “quem matou Odete Roitman?” foi usada à exaustão. Odete, Odete, Odete.


A personagem é, de fato, muito icônica dentro de uma novela muito icônica. Sua morte mobilizou o país, e a pergunta sobre seu assassinato ficou gravada no imaginário coletivo. Mas, no desespero de entregar isso logo ao público, o remake transformou a antagonista em protagonista, tanto no marketing quanto no próprio enredo da novela. E ainda o fez de maneira superficial. Odete deveria ser uma personagem complexa — preconceituosa, mas humana.


Menos às vezes é mais


Para além de toda a polêmica envolvendo o protagonismo da novela, outra coisa chama atenção: Manuela Dias parece querer fazer “justiça” com personagens que, num primeiro olhar, podem parecer pequenos, mas que tiveram uma função na trama original.


Um exemplo claro disso é o tratamento dado à diarista Lucimar. Interpretada por Maria Gladys na versão original, a diarista funcionava como um alívio cômico e, ao mesmo tempo, como um reflexo do público dentro da trama. Ela observava a movimentação dos personagens principais, fazia fofocas e até chegou a apostar sobre quem teria matado Odete Roitman (chegaremos lá). Era uma personagem simples, sem um arco próprio relevante, mas que cumpria bem sua função.


Na versão de 2025, Manuela deu um novo enredo à Lucimar (Ingrid Gaigher), centrado na luta de uma mãe solo pela pensão alimentícia — conflito inexistente no original, mas que gerou impacto real, aumentando os acessos à Defensoria Pública. O mérito, porém, logo se perdeu. Lucimar voltou para Vasco e cedeu às vontades dele, como se nada tivesse acontecido. E pior: na reta final da trama, uma das protagonistas, Maria de Fátima (Bella Campos), engravida de César (Cauã Reymond) — agora bilionário — precisa se virar sozinha e, ao ser lembrada dos seus direitos, responde apenas: “Esquece isso.” Ué... e toda a discussão sobre o direito à pensão? A Defensoria Pública? Parece que esqueceram mesmo.


Na Vale Tudo de 1988, Lucimar terminava rica porque apostou o número do túmulo de Odete na loteria e venceu. No último capítulo, ressurgia vestida como a própria vilã: terninho, cabelo armado, acompanhada de um homem mais jovem e um repertório atualizado de ódio ao Brasil. O sonho do oprimido é ser o opressor — com um toque de humor impecável. Um final muito mais interessante do que ver a independente Lucimar virar apêndice do Vasco-devedor-de-pensão.


Lucimar no final da Vale Tudo original. Icônico!!!!
Lucimar no final da Vale Tudo original. Icônico!!!!

Outro enredo muito alterado pela autora do remake foi o do casal Laís e Cecília. Na versão de 1988, Cecília (Lala Deheinzelin) morre em um acidente de carro. Em 2025, Manuela decidiu mudar o destino da personagem, mas o fim trágico tinha um motivo: Gilberto Braga queria discutir o direito à herança para casais homoafetivos. A inspiração veio de um caso real, de um amigo do autor, Marco Aurélio Rodrigues, que precisou disputar na Justiça a herança do companheiro, Jorge Guinle Filho — os detalhes dessa história foram revelados recentemente no excelente episódio Duas Novelas, do podcast Rádio Novelo Apresenta.


É verdade que a pauta já não é mais urgente em 2025, visto que uniões homoafetivas passaram a ser reconhecidas na última década. Mas ainda existem outros assuntos importantes para a comunidade LGBTQIA+ que poderiam ter sido abordados — e não foram.


Cecília ficou viva, mas o enredo do casal morreu. As personagens não ganharam relevância nem caíram no gosto do público. O resultado foi mais uma história esvaziada — afinal, a novela não é uma crítica social, não é? É sobre uma aposta entre mãe e filha... ou nem isso.


Tragédia anunciada

Dá pra ver que Manuela Dias se sente politizada, feminista. Mas parece incapaz de escrever personagens diferentes dela mesma com profundidade. Falta vivência ou, ao menos, escuta. A forma como aborda questões sociais tem a superficialidade de quem observa o mundo pela janela de um apartamento em um bairro nobre do Rio de Janeiro.


A Vale Tudo de 2025 confirmou o que a entrevista à Folha já anunciava: Manuela tem a pretensão de “corrigir” os problemas do mundo, mas não parece saber exatamente quais são esses problemas. Não foi à toa que a protagonista — nesta versão, uma mulher negra, interpretada pela excelente Taís Araújo — perdeu espaço para a vilã símbolo do preconceito.


Em outubro do ano passado, eu disse que Manuela Dias mataria Odete Roitman. Mas ela foi além: matou a própria Vale Tudo.

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