Mesmo com baixa audiência, Mania de Você entrega o melhor vilão da TV brasileira desde Félix
- Júlia Ennes

- 11 de out. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de mai.
Sim. Deve ter eu e mais 5 gato pingado assistindo “Mania de Você”, mas eu estou obcecada e acho que você deveria dar uma chance

Completando um mês no ar, a nova novela das nove da Globo, Mania de Você, de João Emanuel Carneiro, tem enfrentado dificuldades com a audiência. Apesar dos índices terem melhorado com o início da segunda fase, o folhetim segue sofrendo duras críticas do público e a questão central parece ser: a novela está com muita cara de série da Netflix.
Porém, se o grande público parece desinteressado por Mania de Você, arrisco dizer que aqueles que se apegaram à novela, o fizeram principalmente por conta de Mavi, o personagem do Chay Suede. Neste papel, o ator mostra uma grande evolução, se comparado com trabalhos anteriores.
Mania de Você não é a primeira novela que enfrenta críticas em relação a essa “cara de série”, Amor de Mãe, de Manuela Dias, também passou por isso em 2019-2021. Isso acontece porque a maioria de nós brasileiros cresceu assistindo novelas ou, pelo menos, sabendo um pouquinho da história que estava no ar no horário das 21h. Para nós, que sempre fomos espectadores, ainda que passivos, das novelas é natural percebermos uma diferença entre elas e as séries ou os filmes. Pode não ser claro qual é essa diferença, mas a gente sabe que existe.
É possível citar algumas características que os diferenciam, mas, neste caso, a principal parece ser o ritmo. Mania de Você é muito rápida. E, não me entenda mal, eu particularmente amo, mas os enredos da teledramaturgia costumam ser mais lentos, mastigados, com muita redundância, até porque precisam durar meses e o público não pode ir se perdendo ao longo do caminho.
A trama foi anunciada com o slogan “o jogo muda o tempo todo” e, por mais que isso possa parecer instigante, esse talvez tenha sido o grande erro da produção - além, é claro, do desespero que baixou na Globo após a audiência ruim das primeiras semanas, que resultou na decisão questionável de sair picotando a montagem e deixando o público mais confuso ainda com a história.
Mesmo com um enredo com várias pontas soltas depois dos cortes, o núcleo principal da novela consegue nos prender à narrativa. Chay Suede não é o único ator que está brilhando na trama. Agatha Moreira está muito bem como Luma, assim como Gabz, como Viola. No entanto, Mavi rouba a cena, principalmente, com sua dinâmica com Mércia, interpretada pela sempre excelente Adriana Esteves. É delicioso odiar Mavi, e olha que na grande parte do tempo eu nem chego a odiá-lo, de fato!
A performance de Chay é recheada de gestos contidos e expressões faciais ora sutis, ora beirando o desespero, que conseguem transmitir os sentimentos e tensões do personagem. Ele transita, naturalmente, entre momentos de frieza e cinismo, de vulnerabilidade e outros até cômicos ao lado de Mércia. É a entrega de um ator que entendeu a complexidade do papel e consegue empregar camadas ao personagem. Exemplo disto é a sugestão de mudança no cabelo do personagem para a segunda fase, feita pelo próprio ator ao diretor Carlos Araújo. A sugestão veio após Suede supor que Mavi provavelmente gostaria de parecer mais fisicamente com Rudá (Nicolas Prattes), interesse amoroso de Viola.
Essa delicadeza da atuação e construção do personagem de Suede é muitíssimo clara em uma cena - que pra mim é uma das mais marcantes da trama até então, mais do que a morte apressada de Molina -, que aconteceu ainda na primeira fase, quando Mavi descobre o envolvimento de Viola com Rudá e vai confrontá-la.
Em prantos, Mavi solta a seguinte frase: “Eu devo ser uma pessoa muito desprezível, devo ser uma pessoa totalmente incapaz de provocar amor em alguém”. Com este texto excepcional de João Emanuel Carneiro, o intérprete entrega um choro muito mais intenso do que de alguém que foi traído, mas de alguém que sente que é incapaz de ser amado.
Com esse momento, conseguimos entender um pouco mais de Mavi e de suas intenções, para além da ambição pura de alguém que quer ser rico. O personagem que foi a vida inteira rejeitado pela mãe, agora se vê também rejeitado pela mulher que ama. Gabz, que vive sua primeira protagonista no horário nobre, completa com maestria a cena.
O mais interessante é que enredos que seguem esse caminho, comumente acabam com um toque de machismo - uma culpabilização destas mulheres por tudo que o homem abandonado faz ou ainda uma justificativa, caso este homem tente se vingar. Porém, não é isso que sentimos com Mavi. Com sua atuação tão intensa e, ao mesmo tempo, com ar de tão natural, Chay Suede consegue nos fazer compreender as motivações do personagem, mesmo que não concordemos com absolutamente nada que ele faz.
Por isso, arrisco a dizer que Mavi é o melhor e mais carismático vilão da TV brasileira desde Félix, o personagem de Mateus Solano em Amor à Vida. Quem não lembra do personagem icônico que jogou a sobrinha recém-nascida na caçamba de lixo, ofendeu tudo e todos, e mesmo assim conquistou o público a ponto de ter uma redenção e protagonizar o primeiro beijo gay de uma novela brasileira?
Eles são, de fato, personagens muito distintos. Porém, assim como Solano, Chay consegue entregar um personagem carismático, debochado, que fala o que pensa e que consegue conquistar o público a ponto de quase torcermos por ele.
Será que Mavi terá uma redenção, como teve Félix? Será que a baixa audiência vai acabar afetando a trajetória do personagem? Cenas dos próximos capítulos!



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