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Odete Roitman nunca esteve tão viva

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 25 de out. de 2024
  • 4 min de leitura

Se tirar a inflação do Cruzado e adicionar redes sociais do plano de fundo, "Vale Tudo" poderia ser hoje


Ilustração por Thalia Vargas
Ilustração por Thalia Vargas

Eu cresci ouvindo falar na tal novela "Vale Tudo". Assim como outros folhetins icônicos, como "Roque Santeiro" e "Rainha da Sucata", "Vale Tudo" parecia ter marcado não só a vida de pessoas da minha família mas do Brasil todo. Quem nunca ouviu a famosa frase quem matou Odete Roitman?


Recentemente, a Globo anunciou um remake da novela, previsto para estrear em março de 2025, após Mania de Você. Com isso, decidi assistir à versão original, de 1988, na Globoplay. Ainda estou na primeira metade do folhetim mas, preciso dizer, estou obcecada. Não é à toa que, em 2016, "Vale Tudo" e "Avenida Brasil" foram eleitas pela revista Veja como as "melhores telenovelas brasileiras de todos os tempos".


Escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, a trama acompanha Raquel e Maria de Fátima, mãe e filha que têm formas muito diferentes de encarar a vida. Enquanto Fátima não hesita em passar por cima de tudo e todos para "vencer na vida", Raquel acredita que é possível viver bem sendo honesto. Após uma discussão, elas decidem "apostar" para ver quem está certa. O pano de fundo da história é a crise econômica e a falta de ética do final dos anos 1980 no Brasil.


Com as notícias sobre a nova versão surgindo, as ideias de Manuela Dias, responsável pelo remake, causaram polêmica. Em entrevista à Folha de S. Paulo, a autora afirmou que a novela foi criada em uma época em que “falar mal do Brasil, ou poder falar mal, era revolucionário” mas hoje estamos “saturados”. Dias insiste ainda que o pilar da história não é a crítica social, mas sim a aposta entre mãe e filha.


"Vale Tudo" foi a última novela a ser submetida ao crivo da censura da ditadura militar e chegou a ter cenas cortadas. Apesar disso, é um marco da volta da democracia e tem um texto bastante crítico, coisa inimaginável poucos anos antes. O enredo é, de fato, fortemente marcado pelo contexto em que foi feito — como toda produção é —, mas será que as críticas ainda não são válidas? Será que superamos todos aqueles problemas apontados pela versão original? Por que adaptar uma obra tão crítica se o novo enredo se distancia dessa essência? "Vale Tudo" seria "Vale Tudo" sem sua crítica social?


A declaração polêmica de Dias veio quando questionada pelo jornalista da Folha se a personagem Odete Roitman, uma das mais emblemáticas vilãs da teledramaturgia brasileiras, seguirá dizendo coisas que hoje seriam imperdoáveis pela “patrulha do politicamente correto”.


Na versão de 1988, Odete Roitman odeia o Brasil. Na cena icônica que a introduz à narrativa, com um close up apenas em seus olhos, Odete, que mora na França, pede à irmã Celina que faça reserva da suíte presidencial de um hotel que não tenha mendigos na porta, nem muitos brasileiros hospedados, porque "quanto menos ouvir falar português, melhor" — e que peça desconto, eles sempre dão!


Em outra cena, que poderia ser um almoço de família num dia qualquer dos últimos anos, Odete solta um absurdo atrás do outro, chocando os outros personagens à mesa. Segundo ela, o Brasil é "uma mistura de raças que não deu certo" e o povo brasileiro fala demais em crise mas não quer trabalhar, e que a solução para a violência e criminalidade é a pena de morte. Para mim, não tem nada de mais atual do que este discurso.


O fato é que a personagem cumpre um papel importante na narrativa. A crítica ao Brasil da época não está no que sai da boca dela; Odete Roitman é a crítica. Seu jeito elitista quase caricato constrói essa figura que personifica o cinismo, o racismo e a aporofobia da elite dos anos 80. E no contexto de ascensão da extrema direita que vivemos, a caricatura dessa elite branca segue certeira.


O próprio Aguinaldo Silva, um dos roteiristas da versão original, descreveu Odete como uma caricatura em uma entrevista também à Folha de S. Paulo, em 2023. Apesar de afirmar que a personagem não seria aceita hoje, ele reconhece que ainda existem pessoas como ela. A teledramaturgia deveria, então, ignorar essas figuras? A reação do público às declarações de Manuela Dias sugere o contrário.


Amenizar a atuação de um vilão, tira toda a força narrativa de se ter um vilão. Novela é um melodrama e faz parte da linguagem do gênero ter personagens bonzinhos e malvados — não necessariamente de forma maniqueísta, mas é preciso haver dualidade e conflito para movimentar a trama.


No caso de "Vale Tudo", Odete foi feita para ser incorreta, controversa e causar choque. Existe uma diferença entre ser verossímil e banalizar uma questão. E Odete é muito verossímil, existem muitas por aí, mas a narrativa a repreende e destaca os problemas do seu discurso.


No episódio em que conhecemos um pouco mais da visão elitista da presidente do grupo Almeida Roitman (empresa fictícia da trama), por exemplo, as cenas ficam alternando entre ela falando que o brasileiro é preguiçoso e não quer trabalhar, e os personagens de núcleos mais pobres conversando sobre a dificuldade que é trabalhar 16 horas por dia, aguentar patrão, e ganhar quase nada.


O público que assiste, por mais que seja cativado pela personagem — afinal, ela é uma personagem muito interessante e a interpretação de Beatriz Segall é um show à parte — , entende que ela é o “mau exemplo”. Querer tornar tudo correto, positivo e educativo, é duvidar da capacidade de interpretação do telespectador.


Para mim, negar o mal, o controverso e o problemático não parece ser o caminho — é impossível na vida real e também nas novelas. As reações negativas às declarações de Manuela Dias indicam que o público quer ver vilões autênticos, quer sentir raiva, catarse e ver sua realidade representada na tela, com todas as dores e delícias de ser brasileiro.


Quem matou Odete Roitman? Em 2025, se continuar a ignorar o lado negativo das coisas, pode ser a própria Manuela Dias.


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