Siriara, o pássaro gigante do Pisa na Fulô
- Bruna Batista

- 22 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 15 horas
O carnaval de Belo Horizonte apresentou ao público uma nova espécie de pássaro: a Siriara

O Bloco Pisa na Fulô é um dos queridinhos do carnaval de BH. Todos os anos ele fecha a terça-feira com um forró carnavalesco que começa no pôr do sol e segue noite adentro. Desde sua criação, construiu um cortejo marcado pela dança e por uma forte pesquisa estética que une festa popular, cena urbana e referências da cultura tradicional.
Em 2026, o bloco apresentou o tema “Velho Chico Encantado”, uma homenagem ao Rio São Francisco como território de memória, espiritualidade e resistência. No meio dessa homenagem havia uma ala de pernaltas vestidos de pássaros da região do São Francisco e, no meio deles, uma espécie nova: a Siriara. Uma ave híbrida, mistura de Siriema e Arara.

A estrutura imensa, feita para ser vista de longe, segue os movimentos de seu criador, Alef Costa. A ideia nasceu de uma relação antiga com a perna de pau. O artista, com trajetória no circo e em intervenções urbanas, conta que o desejo de criar um boneco de grande porte o acompanhava havia anos.
“Sempre tive vontade de criar um boneco pensado especificamente para essa altura, para esse corpo expandido”, afirma. Referências de bonecos gigantes vistos em outros países e a experiência de manipular um bonecão em um show da Bia Ferreira em Belo Horizonte serviram de impulso, mas o objetivo era desenvolver algo próprio, conectado ao seu contexto artístico.
Algo entre o mineiro e o fantástico
A Siriara é a representação do real que não está na saída nem na chegada, e se dispõe é no meio da travessia. Não é um pássaro que você encontre na natureza, não é só uma alegoria de carnaval. Assim como nos sertões de Guimarães Rosa, onde o mundo se revela em movimento, a Siriara surge suspensa entre o chão e o céu, entre o corpo humano e a figura fantástica, entre o território mineiro e o imaginário.
“Eu não queria algo totalmente realista, não queria representar um pássaro fiel às formas exatas da natureza”, explica Alef. A proposta era criar uma figura que transitasse justamente entre o imaginário e o real, quase como uma entidade. Assim surgiu um pássaro híbrido. “A Siriara nasce desse encontro entre território e sonho, entre o real e o inventado.”
Embora a concepção parta de um desejo individual, a materialização foi construída em diálogo. O encontro com o cenógrafo Tim Santos foi decisivo para definir forma, proporções e presença da peça. “A ideia nasce comigo, mas ganha forma e viabilidade através dessa parceria”, diz o artista. Coube à Tim desenvolver os desenhos, pensar a estrutura, escolher materiais e encontrar soluções técnicas que garantem leveza, equilíbrio e segurança sobre a perna de pau.
Algumas das etapas da criação da estrutura Siriara (arquivo pessoal)
A estrutura do pássaro foi construída a partir de uma “alma” de madeira compensada, com recortes estratégicos para reduzir peso sem comprometer a resistência. Alumínio, policarbonato e outros materiais leves complementam o corpo, enquanto o acabamento em EVA azul, de diferentes espessuras, dá volume e identidade visual. Toda a construção aconteceu em ateliê, em Belo Horizonte.
A imagem inicial, ainda que clara, foi se transformando ao longo do processo. Alef relata que “foi um diálogo constante entre a imagem que eu tinha na cabeça e o que os materiais permitiam.” Soluções técnicas acabaram interferindo diretamente na estética, abrindo novos caminhos e redefinindo detalhes da figura.
A construção começou pela pesquisa de referências de aves de pernas longas e de bonecos já existentes, sempre com a intenção de evitar o realismo. O desenho já considerava a relação com o corpo do pernalta e as proporções vistas de baixo para cima. Antes do acabamento, a equipe concentrou esforços na estrutura e no mecanismo de movimento da cabeça, que precisou ser testado e ajustado algumas vezes.
Os desafios foram muitos. O controle do peso, o volume e o transporte exigiram atenção constante. Todos os detalhes foram considerados, desde a quantidade de parafusos até a criação de partes desmontáveis. Outro ponto central foi o mecanismo de movimentação da cabeça. “Criamos um capacete interno para que o movimento do performer fosse transferido para a cabeça do pássaro através de cabos”, explica. Isso permitiu manipulação e expressividade sem comprometer o equilíbrio. “Equilibrar impacto visual, leveza e mobilidade foi a parte mais complexa.”
Nesse vídeo percebemos que, quando Alef mexe a cabeça, o pássaro se mexe junto.
Houve momentos de incerteza. “Muitas ideias funcionam no papel, mas quando passam para a prática precisam ser revistas”, explica Alef. Ajustes e correções foram inevitáveis, mas a confiança na potência da imagem e no trabalho sustentou o processo até o fim.
Do primeiro esboço, em novembro, à finalização, na primeira semana de fevereiro, foram cerca de três meses de trabalho.












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