CURA BH 2024: uma cidade boa para criança é uma cidade boa para todo mundo
- Júlia Ennes

- 8 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 29 de jun.
A praça é do povo, como o céu é do condor!

Quando me mudei para Belo Horizonte, nunca tinha vindo para cá antes. Lembro de chegar e observar as ruas, os prédios, as pessoas e pegar meu celular para tirar foto de um grande mural na lateral de um prédio. Claro, eu já tinha ouvido falar do CURA (Circuito Urbano de Arte) e até já tinha visto imagens das empenas na internet e na TV. Mas a experiência de ver as artes frente a frente é outra.
Entre os dias 24 de outubro e 3 de novembro, aconteceu a 10ª edição do CURA, a 8ª em BH. Uma bandeira muito levantada pelo circuito é a de propor novas formas de habitar e coexistir nas cidades. Suas ações destacam o território não apenas como um espaço a ser ocupado, mas um campo de criação e reinvenção, onde é possível reimaginar novas possibilidades de convivência e acessibilidades. Neste ano, o festival convidou o público a "imaginar a cidade pelos olhos das crianças".
Conversei com Priscila Amoni, artista e curadora do CURA, sobre as atividades realizadas na edição deste ano e a importância de pensarmos nas crianças quando imaginamos a utilização do espaço urbano.
“A gente está partindo de uma máxima de que uma cidade boa para criança é uma cidade boa para todo mundo”, me contou ela através de um áudio no WhatsApp.
O CURA já existia quando suas organizadoras viraram mães e, segundo Priscila, isso transformou também a visão delas sobre as cidades. “A gente foi percebendo que a cidade é hostil para a experiência da criança. Os parquinhos são mal cuidados, não existe mobiliário urbano, zonas seguras para atravessar a rua… são vários fatores que tornam a cidade muito perigosa e hostil para crianças e cuidadores”.
Além da experiência de acompanhar as artes sendo feitas, o circuito apresentou uma programação variada que chamou as pessoas para usufruírem da Praça Raul Soares, carinhosamente apelidada de ‘Raulzona’, com exibições de filmes, apresentações de DJs, e até slackline nas alturas - formas de aproveitar o espaço público e criar conexões com o território da cidade.
O festival contou ainda com a instalação interativa “BRINCACIDADE”, criada pela arquiteta urbanista Isabel Brant. A estrutura convida as crianças a terem experiências sensoriais e a se sentirem parte do ambiente. De acordo com a curadora, a instalação é um desejo do CURA de ver o espaço público habitado com mais qualidade pelas crianças, assim como por quem cuida delas. “É, de certa forma, um apelo para que aquela praça, a Raul Soares, se torne muito mais do que um lugar de passagem, mas um lugar de estar”, explica Amoni.
Incluir crianças é também incluir suas mães e seus cuidadores - e em grande parte dos casos, são as mulheres as responsáveis pelo trabalho de cuidado. Não por acaso, esta é a primeira vez que todas as atividades do festival foram pensadas e executadas por artistas mulheres.
Priscila conta que a equipe 100% feminina era um sonho antigo, desde a primeira edição, mas que só foi possível agora com o amadurecimento do projeto. “Nós somos três curadoras. A gente foi convidando cada vez mais mulheres para estarem nos cargos de liderança do festival e, cada vez mais, formando assistentes mulheres. Nessa edição, foi uma decisão mesmo de que seria um desafio encontrar [apenas artistas mulheres] dentro da nossa linha curatorial do ano, que tinha a ver com a maternidade, com a infância, com os corpos, mulheridades. A gente achou que cabia de acordo com o conceito do festival do ano”, explica.
A curadoria desta edição foi composta pelas artistas Flaviana Lasan, Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni. Quem assina as obras são as artistas visuais Dona Liça Pataxoop, Clara Valente e Bahati Simoens.



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