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Violenta nostalgia: Ethel Cain e narratividades na música

  • Foto do escritor: Isaac Miranda
    Isaac Miranda
  • 6 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura
Ilustração por Thalia Vargas.
Ilustração por Thalia Vargas.

Por culpa do romantismo europeu, até hoje temos a tendência de ler poesia e imaginar que os versos venham junto de uma expressão pessoal de seu autor; por mais que professores de literatura tentem internalizar a ideia de um “eu lírico” em adolescentes geralmente desinteressados, e por mais que autores venham a ironizar ou falar explicitamente da relação indireta entre eles e sua arte, leitores de poesia costumam ter dificuldade de dissociar quem aquilo escreve e quem ali fala.


É uma dificuldade justificável: é impossível criar qualquer tipo de arte sem beber, de alguma forma, das suas referências pessoais, indo a favor ou contra elas; por isso, também, não é à toa que separar arte e artista seja uma questão tão problemática. Mas a liberdade de brincar com a ficção não pode ser retirada da lírica, e a criação de personagens internos à música ou à poesia é um recurso produtivo para tentar entender como narrar dentro de diferentes limites formais.


A ideia de um “álbum conceitual”, um álbum cujas músicas se unem para traçar partes de uma história maior, não é algo particularmente radical de se pensar, com exemplos clássicos (pensemos em Pink Floyd e o The Wall) e até artistas que se tornaram repetidos frequentadores do estilo (quase toda a discografia a de Kendrick Lamar é assim considerada). Assim como no momento de escrever qualquer história, é interessante reparar como exatamente o autor vai abordar os temas aos quais se dedica, e ainda mais interessante pensando na fronteira imprecisa entre realidade e ficção que atravessa a música.


Dentro do pop alternativo, alguns álbuns conceituais e suas personagens se tornaram extremamente marcantes para um certo nicho: falo de presenças como a Electra Heart e a Cry Baby dos álbuns epônimos de, respectivamente, Marina and the Diamonds e Melanie Martinez. Para esses álbuns, as cantoras em questão criaram narrativas e personagens específicos, por mais que ambas tenham relatado base em suas experiências reais ou sentimentos pessoais. Outras artistas populares no mesmo contexto, como Lana del Rey, também se dedicaram a álbuns conceituais e, para suas identidades artísticas e carreiras, encarnaram personas presumivelmente distintas de si próprias.


Elas foram populares em especial entre os anos de 2013 e 2016, nos círculos que andavam pelo Tumblr adotando estéticas como “soft grunge” ou “sad girl”. Quem viveu, sabe; e sabe também que as canções tristes dessas cantoras não eram apenas histórias para entretenimento ou identificação, mas a dor se tornou cool, desejável, diferencial. Foi um espaço de conscientização e normalização a respeito de doenças mentais, sim, mas também de romantizar e glamourizá-las.


As sad girls não desapareceram com a queda do Tumblr, mas migraram para outros espaços e outros artistas. E a “tradição” de álbuns conceituais e de personagens musicais que tratam de temas similares, sobre trauma, violência e vivência feminina, igualmente não morreu. Se em 2014 tivemos o Ultraviolence de Lana del Rey, em 2022 viemos a ter o Preacher’s Daughter de Ethel Cain.


É possível aproximar esses dois álbuns por seus assuntos e motivos, de mulheres violentadas em situações lamentáveis, construídas numa estética Americana — não o gentílico, mas a palavra específica, em inglês, para objetos culturais que remetem a uma identidade cultural e nacional dos Estados Unidos. Entretanto, a separação e a distância, não apenas entre os dois álbuns mas entre toda a proposta e a recepção da obra de cada uma, são também pronunciadas. Isso acontece desde sua apresentação pessoal, passando pelos detalhes estéticos de cada uma, e terminando na significação que levam para cada um de seus públicos.


Lana del Rey é o nome artístico de Elizabeth Grant, mas a relação entre Hayden Anhedönia e Ethel Cain não é a de nome artístico e nem a de personagem: Ethel Cain é, de fato, uma personagem de Hayden, mas é também o projeto musical ao qual se dedica primariamente no momento. Ela não deixa de se apresentar com seu nome real — no começo de cada um de seus vlogs no YouTube, por exemplo —, mas também lança sob o nome de Ethel álbuns e músicas que não fazem parte da narrativa, a exemplo do EP Perverts, de janeiro de 2025. Ethel existe em algum lugar entre personagens como Electra Heart e personas como Lana del Rey, se inserindo em uma bolha de ficção mas indo para além de sua história.


Sua apresentação visual difere também dos temas geralmente mais “clássicos”


estadunidenses identificáveis em Lana e Electra, que bebem de períodos entre as décadas de 1950 e 1970. Já Ethel é temporalmente fixada na década de 1990 e tem um visual muito menos “pop”, principalmente atrelado à religião e à estética gótica do sul dos EUA, sombria e rústica.


Mais gritante, porém, é a distinção entre as narrativas e seus efeitos. Hayden consegue contornar a romantização do trauma de Ethel pela forma crua e realista em que conta de sua vida: enquanto um dos versos mais populares de Lana é “he hit me and it felt like a kiss” — “ele me bateu e pareceu um beijo”, que pode retratar a relativização comum em vítimas de violência doméstica, mas é aberto para más interpretações —, Hayden faz questão de narrar não apenas a violência que Ethel sofre quando criança nas mãos de seu pai e quando jovem nas mãos de vários homens, mas também a morte da personagem, deixando claro que não há nada de inspirador em sua história.


Talvez por um aprendizado com suas predecessoras ou apenas por criar em outro momento histórico, o fato é que Hayden tem um tato particular na hora de tecer essa trama dolorosa no Preacher’s Daughter. E a história não acabou: ela planeja uma trilogia, e dia 8 de agosto vai lançar a prequel Willoughby Tucker, I’ll Always Love You, revelando, em ainda mais de sua música, da vida e do universo de sua personagem-projeto Ethel Cain.



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