Para as coisas permanecerem iguais, elas precisam mudar
- Maria Fernanda Marques

- há 5 horas
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Maior diversidade na lista de nomeações do Grammy Awards 2026 não esconde a mágoa de uma parcela da Academia com a última edição

Na última sexta (7), saiu a lista de nomeações do Grammy Awards 2026, a mais importante premiação da música pop estadunidense. A 68ª edição acontece em 1 de fevereiro do ano que vem, em Los Angeles, e na lista de nomeações se destacam os nomes de Kendrick Lamar, que recebeu nove indicações pelo seu álbum GNX (2024); Lady Gaga, com sete indicações pelo Mayhem (2025); e Bad Bunny, com seis indicações pelo sucesso Debí Tirar Más Fotos (2025). Sabrina Carpenter e Tyler the Creator também aparecem em múltiplas categorias, com seis e quatro indicações respectivamente.
Com a ausência de figurinhas carimbadas das categorias principais, como Taylor Swift, Beyoncé, Adele, etc., vemos nesse ano uma maior variedade de artistas nas indicações, o que abre espaço para surpresas — boas e ruins. Dentre elas, a indicação de Justin Bieber a Álbum do Ano com SWAG (2025), Rosé e Bruno Mars em Gravação do Ano pela faixa APT., a cantora Addison Rae em Artista Revelação e (de novo) a ausência de Lorde em qualquer categoria, mesmo tendo lançado um álbum bem recebido pela crítica. Para nós brasileiros, a surpresa foi a indicação de Caetano Veloso e Maria Bethânia pelo álbum Caetano e Bethânia Ao Vivo (2025).
Mudanças (no mínimo) controversas
Além disso, algumas mudanças foram estabelecidas para a edição deste ano, como a criação da categoria “Melhor Capa de Álbum”; a ampliação de critérios de elegibilidade a compositores e letristas e, principalmente, a divisão da categoria “Melhor Álbum Country’ em duas outras: “Melhor Álbum Country Contemporâneo” e “Melhor Álbum Country Tradicional”. Essa última, tema de burburinhos e discussões em redes sociais desde junho deste ano, quando foi anunciada, apenas quatro meses depois da última edição da premiação.
Em entrevista a James Ochoa pelo próprio site do Grammy, o CEO da Recording Academy, Harvey Mason Jr. explicou que a mudança faz parte de um processo anual em que a comunidade artística propõem mudanças às estruturas e categorias da premiação, e disse que “a música country evoluiu significativamente na última década, com o country tradicional experimentando um enorme ressurgimento, crescendo em popularidade e volume.[...] É uma parte importante da história da música country e merece ser celebrado e reconhecido com propósito.”
Seria uma justificativa razoável, se não fosse por um detalhe: a mudança aconteceu imediatamente após a histórica vitória de Beyoncé na antiga categoria de Melhor Álbum Country com Cowboy Carter, lançado em 2024. Na ocasião, a artista se tornou a primeira mulher negra — e, aparentemente, a última — a vencer a categoria que, vale dizer, nunca tinha indicado um artista negro desde a sua criação, há 50 anos. Na lista de indicações de 2026, a tradição se mantém e não temos artistas negros em nenhuma das duas novas categorias que premiam álbuns do gênero.
Beyoncé, country e o desprezo velado do Grammy Awards
Nascida em Houston, Texas, a cantora sempre teve o country dentre suas principais referências musicais e culturais. No entanto, o gênero nunca teve espaço na primeira metade de sua carreira, com obras voltadas pro sucesso comercial dentre o público do R&B e do pop. Após o rompimento com seu pai e empresário Mathew Knowles, em 2013, a cantora assumiu o controle criativo de suas obras e vem, pelo menos desde 2016, explorando outros gêneros musicais.

O álbum Cowboy Carter é o segundo de uma trilogia que busca resgatar gêneros musicais que tiveram as contribuições negras apagadas de sua história ao longo do tempo. O primeiro lançamento dessa trilogia foi o sucesso Renaissance (2022), voltado para a música house e a presença negra na cultura ballroom.
No processo de lançamento da obra country, Beyoncé declarou através de seu Instagram que o álbum “nasceu de uma experiência que tive anos atrás, onde não me senti bem-vinda” e que, por causa dessa experiência, mergulhou mais fundo na história do gênero e estudou a contribuição negra para ele. Imediatamente após a postagem, fãs da cantora especularam que a noite em questão seria a performance ao vivo da faixa Daddy Lessons, que Beyoncé fez junto ao grupo Dixie Chicks na premiação Country Music Awards (CMA), em 2016.
Na época, ela tinha acabado de lançar seu 6º álbum de estúdio, Lemonade, uma obra que mistura suas vivências pessoais com o ativismo pelas pautas raciais nos Estados Unidos. À época, a cantora, que esteve em um campo neutro politicamente em nome do sucesso comercial até aquele momento, sofreu boicotes não apenas de parte do seu público, mas também de outros setores da sociedade americana que a consideravam “importante demais” para se posicionar politicamente — incluindo a polícia.
Neste ano, Beyoncé perdeu o prêmio de Álbum do Ano, considerado o mais importante da premiação, para Adele, com o disco 25 (2016). A cantora britânica afirmou, no discurso de agradecimento, que Beyoncé merecia o prêmio. Apesar de acumular estatuetas, teve início um questionamento dentre seus fãs do porque, até aquele momento, Beyoncé ou qualquer outra mulher negra não tinham levado a estatueta de Álbum do Ano desde Lauryn Hill, em 1999.
Rapidamente, o que era um questionamento entre fãs virou uma cobrança para o Grammys e, em 2023, quando o álbum Renaissance perdeu para o Harry’s House (2022), de Harry Styles, ficou muito difícil para a premiação disfarçar sua dificuldade de reconhecer o bom trabalho de artistas negros nas categorias principais, especialmente nessa.
Mudar em prol do status quo
E então vem o Cowboy Carter, um álbum que questiona abertamente a postura racista do meio country com relação a artistas negros. Além de carregar uma qualidade musical incontestável, o álbum vinha de Beyoncé que, naquela altura do campeonato, muito dificilmente poderia ser ignorada — sob pena de tornar a situação ainda mais constrangedora para a Recording Academy. O prêmio de Álbum do Ano veio, então, acompanhado da estatueta de Melhor Álbum Country, como algo que dizia “parabéns pela coragem e pela paciência. Agora, por favor, nos deixe em paz”.
Assim, a mudança na categoria parece uma forma de agradar a parcela racista da música country que não consegue engolir Beyoncé desde 2016, quando ela se aventurou no CMA, e que não lidou bem com sua vitória na categoria justamente com um álbum que expõe as contribuições negras de um gênero que se pretende genuinamente branco.
A separação em duas categorias, com a ênfase no tradicional x contemporâneo — outra grande discussão que não cabe aqui, mas vale ser feita — evidencia uma necessidade já antiga da premiação de isolar artistas negros de modo a não deixar que a música feita por esses artistas “invada” as categorias reservadas para o reconhecimento do trabalho branco. Necessidade essa já muito bem apontada por Tyler the Creator lá em 2020.
Por fim, não é surpresa para ninguém que o Grammy é uma premiação que aposta no seguro, no que não desagrada a honrada sociedade norte-americana. Disfarçada de celebração da diversidade, a separação nas categorias country soam, para aqueles que estão atentos, como uma tentativa de preservar o status quo no centro da música ocidental. Como a própria Beyoncé anuncia na faixa Ameriican Requiiem, que abre o álbum, “para as coisas permanecerem iguais, elas precisam mudar”.



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