Afinal, quem é Wanda?
- Clara Campos Bicho

- 22 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
Os Envolvimentos da mulher com o mundo

Nesta quarta edição da revista, depois de termos ambientado um pouco os leitores ao que seria a Wanda, resolvi melhor esclarecer, respondendo à questão: afinal, quem é Wanda? “Revista Wanda”, o que quer dizer isso? Bem, a Wanda é um elo que juntou o nosso grupo de amigas no início da faculdade de jornalismo na UFMG (eu, Júlia, Gabi e Ellen), uns anos atrás. Apresentei a artista às minhas amigas e fizemos um dos primeiros trabalhos da graduação sobre ela. E, graças à amizade, a revista existe. Mas, vamos do começo…
A Wanda não é uma Wanda qualquer, aleatória. Tem nome e sobrenome: é Wanda Pimentel, artista visual carioca, nascida na cidade do Rio de Janeiro em 1943. Inclusive, parei para pensar agora que ela nasceu apenas um ano antes da minha avó Risa. E antes de ser tema durante a faculdade (fiz uma longa pesquisa sobre ela e um TCC de 70 páginas), Pimentel foi inspiração durante os anos do ensino médio. Foi ela um grande motor para que eu começasse a pintar telas, até então apenas desenhava. A conheci através da minha professora de artes do ensino médio, Amanda. Depois, nunca mais nos separamos. Quando recebi a notícia de sua morte em 2019, chorei como se fôssemos amigas. Minha artista preferida.
Essa é a Wanda para mim, mas, em termos mais formais, segundo a minha própria pesquisa, ela foi uma pintora, desenhista e escultora precursora da arte construtivista no Brasil e integrante do movimento da arte figurativa, tendo estudado pintura com Ivan Serpa no início dos anos 1960. As obras de Wanda chamam atenção pelas qualidades visuais, como as cores fortes e chapadas, as linhas precisas e a paleta de cores marcante, mas também pelas características temáticas: a série “Envolvimentos”, a mais famosa da artista, aborda questões de gênero, como o confinamento da mulher ao espaço doméstico, em plena ditatura militar do final dos anos 1960 até os anos 1980.
De acordo com a curadoria de Adriano Pedrosa e de Camila Bechelany, diretor artístico e curadora-assistente do Museu de Arte de São Paulo (MASP), “Pode-se compreender a obra de Pimentel, e particularmente a série “Envolvimentos”, a partir do embate dessas duas referências aparentemente irreconciliáveis: por um lado, o rigor das linhas e formas abstratas e geométricas; por outro, o desejo de representar o mundo contemporâneo e cotidiano em transformação, vivido e percebido (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), Exposição Envolvimentos, 2017).”
E é nesse conflito entre o rígido e o mutável que as pernas e os pés da mulher que habita os cômodos da casa de “Envolvimentos” se movem dançando em cima da pia da cozinha e bagunçando toda a louça, andando pelos quartos e deixando as roupas espalhadas pelo chão…
Além das questões de gênero, “Envolvimentos” expõe o consumismo e a relação entre os objetos e as pessoas. Em entrevista para Vera Pedrosa no jornal carioca “Correio da Manhã”, em 1969, Wanda fala sobre a temática da série: “[...] Acho que a minha problemática é a do nosso tempo: a falta de perspectiva do homem, a sua alienação. A coisa mais triste é o homem ser dominado pelas coisas. Não, dominado não é o termo. Envolvido”.
Logo após o fim da ditadura, em 1986, Wanda Pimentel trouxe um relato ao documento “Depoimento de uma geração 1969-1970”, do Ciclo de Exposições sobre Arte no Rio de Janeiro. O documento de quase 100 páginas contém depoimentos de 37 artistas visuais do período, entre eles estão Cildo Meireles, Wanda Pimentel e Vera Roitman. Os artistas falam sobre a relação entre os anos ditatoriais, a repressão e a violência, o trabalho artístico e a resistência ao regime. Wanda destaca o sofrimento que perpassou seus trabalhos e de seus amigos durante a ditadura, sentimento que se relaciona diretamente às temáticas sobre gênero, exploradas em seus quadros:
“Meu trabalho foi sempre muito rígido, duro. Lembro-me que nunca pintei com alegria, tudo foi feito sempre de forma dolorosa. Quem sabe, por aí, havia alguma relação com a situação política que vivíamos. Sempre construí meu trabalho de uma maneira muito tensa.”
Diante de tudo que a Wanda foi e é, fica a nossa homenagem em forma de revista: de alguma maneira, também seguimos narrando sobre a relação entre o homem, mais especificamente, a mulher e o mundo.



Comentários