Corre lá vem o boi!
- Júlia Rhaine

- há 5 horas
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A cidade mineira que celebra congado correndo de um boi

O congado é uma das manifestações culturais mais tradicionais de Minas Gerais. Além da presença dos foliões, é comum a figura de um boi como o enunciador da festa. Mas, em uma cidade no interior do Oeste mineiro, o boi mais do que desfila: ele ataca!
Animado, o jovem Natan Moisés, de 19 anos, mostra como o município de Oliveira, onde nasceu e cresceu, se organiza para a abertura das festividades. “Todo mundo pulando, gritando, chamando ‘Êh boi’, provocando o bicho, até que o boi simplesmente começa a correr atrás de nós”. Moisés esclarece uma questão que pode martelar a cabeça de muitos: “Claro, não é um boi de verdade, é uma pessoa vestida de boi que corre atrás de nós”, explica o estudante da área de Recursos Humanos.
Não se sabe ao certo quando começou a tradição em Oliveira, atualmente com 40.552 habitantes. Porém, é certo que, em todos os anos, no primeiro sábado do mês de setembro, às sete e meia da noite, o Boi do Rosário sai da Casa dos Congadeiros em direção às principais ruas da cidade. As pessoas começam a se aglomerar em volta do boi repetindo o tradicional refrão "Êh, Boi!, Êh Boi”. De repente, os percussionistas, que rodeiam a figura tocando as caixas, mudam o louvor por um rufado e o boi dispara sobre o público, a visão é de correria, giros, pinotes e cabeçadas. Logo tudo para e a percussão retoma a batida padrão e a marcha pelas ruas. Passa de meia-noite até que todo o trajeto seja percorrido.
A tradição faz parte da vida de muitos jovens em Oliveira, como explica a estudante Bianca Carvalho, de 19 anos, natural da cidade. “Quando eu era mais nova, minha mãe levava a gente lá no Boi”, lembra. Ela faz parte do mesmo grupo de amigos que Moisés, e todo ano sai de Lavras, no Sul de Minas, onde estuda agronomia, para acompanhar a festa. “A gente sempre está lá, batendo ponto todo ano”, diz.
O congado é um dos mais belos acontecimentos do ano em Oliveira. Os cinco mastros dos santos padroeiros da Festa do Rosário – Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora Aparecida, São Benedito e Santa Efigênia – são erguidos na Praça XV de Novembro, a principal da cidade, um mês antes do início da festa. Um dia antes dos cortejos caminharem pelas ruas, o Boi do Rosário caminha acompanhado pela multidão. É que antes do rádio, da televisão e muito antes da internet, era o boi que anunciava o começo da festa.
É como se o boi fizesse uma abertura espiritual e energética das vias públicas, tudo no campo simbólico da fé. O tabelião João Paulo Siqueira, um dos rapazes que se reveza para caminhar como o animal, explica o significado da simbologia do boi. “É para limpar as ruas de todos os pensamentos negativos, começar de forma positiva, para fazer uma festa feliz, e anunciar que o congado vai começar”. No giro pelas ruas centrais, o Boi do Rosário passa pela Igreja Matriz Nossa Senhora de Oliveira e, na lateral da praça, o boi saúda lentamente cada um dos cinco mastros.
Embora todo o evento pareça, de certa forma, bagunçado, é cuidadosamente organizado por toda a equipe congadeira, que todos os anos se dedica a fazer uma roupagem diferente que cobre o balaio, a estrutura do boi, onde a pessoa vai controlá-lo de dentro, e também onde está fixada a cabeça do animal, uma cabeça de boi de verdade com uma imagem de Nossa Senhora do Rosário na testa.
“O boi é como se fosse um santo em movimento”, compara Siqueira.
Mesmo com toda essa correria, ele não pode ser tocado, e não abaixa a cabeça para ninguém — apenas para reis do congo, princesas e capitães no palanque, na praça principal da cidade, na noite do evento.

O boi que mostra os caminhos da tradição e da amizade
No Brasil, o Congado é hoje uma festa religiosa popular realizada do Ceará ao Rio Grande do Sul, assumindo características regionais. Estudos indicam que, antigamente, o Congado reunia os negros escravizados para a chegada do rei Congo. A festa era uma reação contra as ações e atitudes dos europeus brancos e cristãos que de tudo faziam para lhes impor a sua religião e visão de mundo. Proibidos de cultuar seus orixás, os congados foram a maneira encontrada pelos afrodescendentes, que obrigados, adotam símbolos cristãos, para recriar suas tradições nesta terra.
Atualmente, o número de participantes varia de grupo para grupo. Algumas cidades, como Oliveira, têm a figura de um boi como o enunciador da festa. Pessoas representam reis, príncipes, rainhas, festeiros, guias, pajens, capitães de espada, coronel, alferes da Bandeira, dançantes, embaixadores, porta-bandeira e outros personagens que desfilam pelas principais ruas das cidades louvando santos, que mudam conforme a localidade. As coreografias estão ligadas às músicas e a todo o ritual. Entre as principais, destacam-se a marcha caminhada com o grupo ordenado. Devido a sua importância histórica e cultural, em agosto de 2024, os congados mineiros passaram a ser reconhecidos como Patrimônio Cultural de Minas Gerais. O resultado é fruto do trabalho do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep) para a preservação e promoção dessas tradições populares. O evento é um dos mais importantes símbolos da cultura afro-brasileira. Mesclando elementos da cultura africana ao catolicismo, ele representa parte da grande contribuição histórica dos negros no Brasil. Os cortejos simbolizam a recriação do sagrado: percorrer caminhos trilhados pelos ancestrais é reviver a força e participar do mistério dos que já se foram.
Os cidadãos de Oliveira se orgulham de seu congado, e de seu Boi do Rosário, que não apenas desfila, como em outros locais, mas é ativo, integrando a festa à população. João Paulo Siqueira esclarece que, mesmo popularmente sendo conhecido por “atacar”, o boi não possui um alvo. “Quando fica muita gente, o boi corre, para esparramar o povo e ter espaço, e às vezes dá uma pancada”.
O oliveirense Marcos Menezes, estudante de Biologia em Belo Horizonte, volta todos os anos para Oliveira, a fim de correr do boi com os amigos Bianca e Moisés.
“É uma celebração tão bonita e rica em história, passando por várias e várias gerações, e assim, consegue se manter influente até os dias de hoje”, diz Marco.
A figura mitológica do boi era vista por negros escravizados e indígenas como companheiro de trabalho, símbolo de força e resistência. É por isso que toda essa encenação gira em torno dele. A figura sagrada abre os caminhos para o começo do congado, ou mostra o caminho de volta para casa, como no caso dos amigos que sempre retomam suas origens e a amizade por causa do boi.




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