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“Ainda criança, aprendi que ser menina era menos”: o corpo que grita de Eugênia França

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 28 de jun.
  • 5 min de leitura

Artista mineira transforma dores silenciosas em performances públicas sobre a violência de gênero na Grande BH


Ilustração Digital por Thalia Vargas
Ilustração Digital por Thalia Vargas

A artista mineira Eugênia França apresenta o projeto Sob vozes silenciadas habitam corpos que gritam, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A programação inclui três performances em espaços públicos, a gravação de uma videoarte e uma exposição na Casa da Cultura Nair Mendes Moreira. A série de ações artísticas teve início no final de maio e segue até o dia 11 de agosto.


Em Sob vozes silenciadas habitam corpos que gritam, Eugênia revisita a série Em Nome das Rosas. Criada entre 2017 e 2020, as pinturas retratam mais de 200 mulheres vítimas de violência. Em entrevista à revista Wanda, a artista conta que a série de pinturas transformou a forma como ela vê e lida com a violência de gênero — e consequentemente, sua produção artística. “Antes, esse tema surgia de maneira sutil e periférica no meu trabalho. Passei a perceber que a violência não é um episódio isolado, mas uma estrutura que atravessa o tempo, o corpo, a pele e a memória”, explica.


O que nasceu na pintura transbordou para outros suportes e linguagens — e ganhou o mundo. Eugênia transformou seu próprio corpo em veículo de memória, escuta e denúncia.


“Gosto de pensar que, ao transitar por múltiplas linguagens, estou rompendo com a ideia de que a dor da mulher deve ser contida, domesticada ou silenciada. Nos meus trabalhos, percebo que essa dor vaza, ocupa espaços, infiltra superfícies e se espalha”, explica.


No dia 23 de maio de 2025, Eugênia realizou uma performance que buscava encenar a violência corretiva vivida na infância dela. Durante cerca de 40 minutos, ela foi forçada a engolir quantidades abusivas de comida, colocadas em sua boca. Em outra apresentação, a artista se ajoelha e beija repetidamente os pés de alguém.


Segundo ela, essas cenas retratam práticas abusivas que, embora violentas, são muitas vezes naturalizadas como formas de cuidado ou expressão de afeto. “As violências corretivas que vivi não se manifestaram apenas por gestos explícitos, mas também por pequenos controles, silenciamentos e contenções que moldaram meu corpo, meu desejo e minha voz”, afirma.


“Ainda criança, aprendi que ser menina era menos. Enquanto meu pai e meus irmãos tinham o mundo como referência, minhas irmãs e eu tínhamos a casa. Eles falavam e nós calávamos. Eles mandavam, e nós servíamos”


Eugenia conta que as reflexões sobre essas violências na infância surgiram há cerca de dois anos, após uma conversa com um amigo — e daí a ideia das performances. “Percebi que eu precisava acessar uma memória que não era só minha — uma memória coletiva, corporal e silenciosa”, conta.


“[Nas performances], eu me entrego, me coloco, me desnudo de toda a vergonha, medo e culpa que fui treinada para sentir. Compartilho essa dor e convido outras mulheres a fazerem esse enfrentamento. Meu corpo não atua — ele convoca”, explica.


Encarnar a dor


Na obra de Eugênia França, o corpo é veículo, suporte, ator e testemunha. Pergunto à ela, qual o impacto de reviver essas violências. Afinal, ser mulher em uma sociedade patriarcal já é muito difícil — encenar, reviver e vestir essas dores publicamente, também.


Ela conta que, muitas vezes, após pintar um quadro ou realizar uma performance, sente uma exaustão profunda e uma necessidade de silêncio absoluto e isolamento. “Quando o corpo está no centro da obra, trazendo dores tanto individuais quanto coletivas, não há como sair ilesa”, diz.


Certa vez, pintando o retrato de uma mulher que havia sofrido diferentes tipos de violência, percebeu os músculos tensionados durante toda a execução da obra. Ao final do trabalho, foi diagnosticada com uma inflamação no braço. “Desenvolvi uma capsulite adesiva no braço com o qual eu segurava a paleta. Levei anos para recuperar totalmente os movimentos”, relata.


Apesar do desgaste físico e emocional, Eugênia acredita profundamente no poder da arte de denunciar e gerar transformação.


Para ela, o trabalho artístico que lida com o trauma deve provocar reflexão – e não apenas reviver o sofrimento. A linha entre representação e re-violência é tênue, mas, para a artista, a chave da questão é consciência e propósito ético.


A arte não precisa ser confortável. Muitas vezes, ela existe justamente para incomodar. Mas é fundamental diferenciar o desconforto que provoca reflexão daquele que apenas traumatiza sem mediação”, afirma.

O corpo como território

Eugênia França na Vila do Incenso de Quang Phu Cau, Vietnã. Acervo pessoal da artista.
Eugênia França na Vila do Incenso de Quang Phu Cau, Vietnã. Acervo pessoal da artista.

Não apenas as performances em cartaz em Contagem, mas boa parte da produção mais recente de Eugênia parte do entendimento de que as violências não são episódios isolados — são estruturas que atravessam o cotidiano de todas as mulheres.


Em 2022, as pinturas de Em Nome das Rosas já haviam passado a compor o projeto Entre a Pele e a Palavra. Durante quatro meses, ela percorreu 15 países vestindo roupas estampadas com QR Codes. Ao serem escaneados, os códigos levavam a retratos da série, além de áudios, cartas de mulheres vítimas de violência e informações sobre serviços de acolhimento.


“Tirei do meu guarda-roupa tudo que falava apenas de mim — tudo que escolhi com desejo — e passei a vestir a pele de outras mulheres. É um modo de dizer: ‘Eu vejo, eu escuto, eu não esqueço’.”

Eugênia França ao lado de mulher da tribo Karen, Chiang Rai, Tailândia. Acervo pessoal da artista.
Eugênia França ao lado de mulher da tribo Karen, Chiang Rai, Tailândia. Acervo pessoal da artista.

Durante a trajetória, Eugênia precisou lidar com diferentes idiomas, costumes, religiões e fronteiras simbólicas. Na Índia, por exemplo, precisou adaptar a performance: parte da proposta consistia em cortar publicamente o vestido com os QR Codes. No entanto, este ato foi interpretado como uma “ofensa à dignidade das mulheres indianas”. A apresentação, então, foi transferida para um espaço fechado, exclusivo para mulheres.


“Foi, sem dúvida, o país que mais me fez refletir sobre o que é ser mulher e sobre o lugar que ocupamos — ou somos autorizadas a ocupar — dentro das estruturas sociais e culturais”, diz.


Segundo ela, a experiência ampliou a percepção dela sobre o que significa ser mulher em diferentes culturas — e como, apesar das diferenças, há algo que une a experiência do ser mulher.


“Em cada lugar, pude perceber ecos das mesmas violências estruturais e das mesmas formas de resistências. Cada corpo e cada história são únicos, mas fazem parte de um tecido coletivo de dores e potências intimamente relacionado à organização de cada país ou comunidade”, afirma.


A próxima performance de Eugenia França acontece na próxima sexta-feira, 13 de junho, no CESU Amazonas.


Serviço

Projeto Sob vozes silenciadas habitam corpos que gritam


Performance individual: 13 de junho, das 19 às 20 horas no CESU Amazonas –Rua Tiradentes, 2750, Industrial 3 seção – Contagem.


Performance coletiva: 11 de julho, às 17h, concentração na escadaria da Igreja de São Gonçalo – Rua Bueno Brandão, 40, Centro – Contagem


Exposição: 11 de julho a 11 de agosto, na Casa de Cultura Nair Mendes Moreira – Praça Vereador Josias Belém, 01 – Contagem



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