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Além de um sublime desencanto

  • Foto do escritor: Thomaz Ambrósio
    Thomaz Ambrósio
  • 23 de mar. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 18 horas

Entre o belo e o sublime, a obra de Hayao Miyazaki revela por que a inteligência artificial pode imitar uma estética, mas jamais criar uma linguagem


Ilustração Digital por Laís Fidélis
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Em 1756, Edmund Burke sugeriu uma relação mutuamente exclusiva entre o “belo” e o “sublime”: o primeiro seria uma reação de conforto e conformidade, em que as expectativas de adequação estética são alcançadas, transformando-se em satisfação. O segundo, muito mais potente e prevalente na natureza, surgiria da aniquilação desse canal; seriam trevas que deixariam a mente humana confrontada com o desconhecido, entregue à própria imaginação, impotente e impressionada com sua vastidão — mas, possivelmente, em um estado de prazer absoluto. Sublime.

Acredito que a mídia da animação 2D, como se fez na grande maioria do século XX, exista como ponto de ruptura dessa dicotomia. É uma expressão artística que simultaneamente necessita e procura um “entendimento”, um ponto comum de linguagem (o belo), enquanto também propõe uma matéria de vida completamente nova e inédita, capaz de evocar o sublime. Apesar de o abstrato ser uma excelente forma de expressão, ele é frequentemente rejeitado no audiovisual por seu poder de achar o caminho de volta e levar o desentendimento ao artista, ao invés de escorrer pelo lápis. O desenho tem como alicerce a intencionalidade. As formas, cujos limites não são seus próprios caprichos, assumem essa nova liberdade em um desenho, a partir do momento onde tudo que as definem — até então, algo inegociável — se tornam um canal de exploração.


Isso tudo para dizer que um desenho animado é uma arte petulante que se recusa a escolher apenas um caminho: o artista anda com o belo embaixo do braço e o sublime no horizonte. Forma-se, assim, uma essência inteiramente humana, mas ainda carente de vida, como um Pinóquio. O animador, ciente disso, entra em cena.


Entre esses Gepetos, o mais famoso e consagrado ainda caminha entre nós: Hayao Miyazaki. Seria até tedioso listar suas obras e aclamações, atravessando as últimas 5 décadas, em inúmeras frentes. Para citar algumas: animador (claro), diretor, storyboarder, mangaká (no início de sua carreira) e produtor. A casa onde alçou tantos voos diferentes foi o Studio Ghibli, fundado por ele (junto de Isao Takahata), e consagrado principalmente pelo talento de Miyazaki em caminhar com um pé no belo e o outro no sublime.


Para ilustrar esse ponto, se pergunte por aí: quantas vezes você já viu imitações, plágios, homenagens, não ao Studio Ghibli, mas ao estilo Ghibli?


Difícil responder sem antes definir, e impossível definir sem antes entender. Sendo o “estilo Ghibli” uma névoa de sensações, apontaria para a matéria empírica o que Burke entendia como impossível: a transformação — e coexistência — do sublime no belo, especialmente quando se trata de Miyazaki. Retira-se o império da natureza, infinitamente opressora, e introduz-se o desencanto humano. O prazer do estranhamento se manifesta em personagens como Sen (No-Face) em Viagem de Chihiro, ou na expressão misteriosa do Deus da Floresta em Princesa Mononoke. São criaturas inconcebíveis e, simultaneamente, presentes. O horror sublime que essas experiências evocariam na natureza se suaviza na ciência de que, no fim, tudo ali é humano. Tudo ali escorreu do lápis do japonês Hayao Miyazaki.


Essa repetição, de certa forma, transforma o sublime em belo. Acrescenta-se a beleza da expectativa, o coração e a mente plenamente abertos e cientes que receberão algo além do que, juntos ou separados, conseguiriam esculpir. A experiência Ghibli está completa e, ao ser produtificada, se transforma em estilo Ghibli.


Com quase 90 anos, Miyazaki viveu para ver o que tanto temia e praguejou. A tecnologia “avança” do mesmo jeito que um tanque de guerra avança em uma cidade ocupada ou um trator avança sobre uma árvore. O progresso, corrompido ao ser parido por cifrões ao invés de artistas, recentemente demonstrou novamente sua intenção de deslocar arte do belo e do sublime.


O “autor”, cujo nome sequer é um nome, não é nem artista e nem criador. Seu “exercício” (repare na abundância de aspas) de recriar o estilo Ghibli foi extremamente celebrado por outros entusiastas da vassalagem ao capital. O conteúdo dessa “homenagem” nada mais é do que o próprio trabalho de Miyazaki sequestrado, distorcido, torturado em formas sem intenção, sem inconsciente, sem fetiche ou receio. O belo que triunfa nas imagens criadas por inteligência artificial é a compreensão mais triste possível da expectativa: a farsa de algo “novo” sem um átomo de originalidade, almejando a satisfação egocêntrica de ocupar, numa fantasia patética, o próprio cenário. O rabo devora a cobra.


A cereja do bolo, no entanto, é o retorno ao sublime original de Burke. Sem o desencanto do humano, o que essas imagens evocam é de um mistério hostil, trevas escondidas atrás de espantalhos porcamente elaborados que tentam nos parecer amigáveis e, principalmente, naturais. Toda a arte é humana. As máquinas não assumem autorias — imbecis se defendem como artistas por escrever meia dúzia de ordens para o ladrão treinado. Mas o sublime está ali. O horror atiça a imaginação em um estado de alerta e autodefesa. E não resta nada; nem desencanto, nem o prazer do sublime ou do belo, apenas medo. Tanto que acabe quanto, e talvez, principalmente, que continue.



*Thomaz é carioca, designer e animador por formação, e escritor por vontade de falar. Juntou tudo isso em sua newsletter MMOLA, onde escreve sobre cinema, arte, e muitas outras coisas.

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