Em “O Esquema Fenício”, Wes Anderson domina sua linguagem, mas repete velhos truques
- Carlos Eduardo Ortega

- 28 de jun.
- 3 min de leitura
Com elenco de estrelas, o décimo terceiro filme do diretor impressiona tecnicamente, mas deixa uma sensação de déjà-vu

Da simetria obsessiva às paletas de cores vibrantes, poucos diretores contemporâneos têm um estilo tão próprio quanto Wes Anderson. Em O Esquema Fenício, seu 13º longa, que estreou no Festival de Cannes em maio e chegou aos cinemas brasileiros poucas semanas depois, Anderson mantém-se fiel ao seu universo visual. O filme, bem-humorado e capaz de arrancar boas risadas, é reconhecidamente andersoniano – algo que o público já conhece bem. Mas surge a dúvida: até que ponto é possível surpreender e expandir os limites de uma fórmula já consolidada?
O longa, estrelado por Benicio Del Toro, acompanha o magnata Zsa-Zsa Korda em sua tentativa desesperada de angariar apoio de investidores para reverter uma conspiração que ameaça levá-lo à falência. Ao mesmo tempo, Korda é forçado a confrontar sua conturbada relação com Liesl, sua filha e herdeira interpretada pela novata Mia Threapleton. Após ser abandonada em um convento na infância e se tornar freira, ela repudia as práticas comerciais do pai e o considera responsável pela morte da mãe.

Como todo bom filme andersoniano, o elenco inclui uma chuva de rostos já muito conhecidos. Tom Hanks, Scarlett Johansson, Willem Dafoe e Bill Murray (interpretando ninguém menos que Deus) são apenas alguns dos grandes nomes que desfilam pela tela naquilo que o diretor define em entrevistas como seu primeiro "conto de espionagem". De fato, O Esquema Fenício chama atenção tanto por sua temática quanto pelo nível de ação. Logo nos primeiros cinco minutos, testemunhamos uma explosão que dilacera um corpo ao meio. Dois acidentes aéreos são vistos em cena e, na reta final, acompanhamos Korda em um confronto físico com seu irmão Nubar, interpretado por Benedict Cumberbatch. O ritmo de informações é frenético, mas sem perder a essência do que fez o diretor se tornar mundialmente reconhecido — seu estilo.
Todos os personagens são construídos com aquele capricho que virou marca registrada de Wes Anderson. Cada figura, por mais secundária que seja, tem seus próprios trejeitos: um jeito de andar, um figurino marcante, uma mania de falar. São tipos que cativam não só pelo que fazem, mas por como se encaixam no quebra-cabeça visual do filme. Esse cuidado com os detalhes não é novidade no trabalho do diretor, mas aqui esse talento parece estar mais afiado.
Para quem curte Anderson, O Esquema Fenício é praticamente um banquete. Os cenários de casa de boneca, os cortes rápidos, os enquadramentos teatrais — tudo está lá, feito com precisão técnica e uma coesão visual impressionante. É impossível não reconhecer de cara que é um filme do diretor. Mas justamente essa fidelidade total ao próprio estilo pode deixar um gosto de "mais do mesmo".
Por mais gostoso que seja voltar a esse universo, há momentos em que bate aquela sensação déjà-vu. Quem conhece a filmografia do diretor pode se pegar pensando: "eu já vi isso antes". E provavelmente já viu mesmo. A composição visual, os dramas de pai e filho, o narrador solene, os personagens encarando a câmera — tudo isso já apareceu em Moonrise Kingdom, Os Tenenbaums e O Grande Hotel Budapeste, e agora volta aqui, ainda bonito e eficiente, mas menos surpreendente.
Não é que Anderson precise revolucionar a cada filme, o problema é que O Esquema Fenício falha em adicionar algo substancial à filmografia do diretor. Fica a sensação de que ele, mesmo tecnicamente mais apurado que nunca, está andando em círculos.
Nota: 3/5



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