Meu Quarto, a Rua, as Cores da TV e as árvores do fundo do quintal… Por que nos envolvemos tanto com as coisas mais simples?
- Clara Campos

- 28 de jun.
- 3 min de leitura
Quero saber as cores…🎵

Recentemente foi publicada uma matéria na revista Noize sobre o meu EP, Cores da TV. O texto foi escrito pelo jornalista (e músico) Erick Bonder, que me entrevistou por ligação. Na época, conversamos por um bom tempo sobre minhas inspirações para o disco, como foi produzido e coisas afins. Para a divulgação do texto, em um post da revista no Instagram, estava em destaque as minhas aspas “Gosto de compor de forma simples, não busco algo intelectualizado. As coisas cotidianas significam muito mais do que as palavras rebuscadas.”
Sinceramente, não me lembrava dessa exata frase, mas me recordava de ter sim falado bastante sobre essa ideia na entrevista. Agora, pensando de forma mais distante, percebi que a minha obra inteira é meio que só sobre isso: os objetos que cercam a minha vida cotidiana. E por objetos eu quero dizer as pessoas, incluindo eu mesma, os lugares, as memórias, os sonhos, os traumas, além dos próprios objetos mesmo, no sentido mais óbvio da palavra.
Nunca tive a intenção de complicar, mas, de toda forma eu penso: será que a nossa vida toda não é simplesmente sobre isso? Tem como escrever sobre algo que não seja a sua própria vida cotidiana?

O destaque para essa fala minha, entre tantas outras, despertou-me a atenção. Então, comecei a buscar na memória o fato de que, desde a adolescência, eu consumo bastante arte que se volta para esse tema do cotidiano, do simples.
De imediato, vieram a nossa Wanda Pimentel com os seus Envolvimentos, alguns filmes da Chantal Akerman, em especial Salute ma Ville (1968), músicas, como as do Paramore em que a Hayley Williams cantava simplesmente sobre os seus próprios sentimentos (de The Only Exception a Ignorance)…
Resgatando esse histórico, o meu quarto e a rua parece que, para mim, sempre representaram essa dicotomia entre o mundo exterior, com seus vários agentes e tensões, e o mundo interior de cada um de nós, onde guardamos as coisas que o tempo nos deu. Especialmente, percebo que a grande maioria dos artistas que eu acompanhei a minha vida toda, independente do suporte artístico, são mulheres escrevendo sobre seus sentimentos e sobre o seu dia a dia.

Sem dúvida, as obras que me acompanhavam e me emocionavam de fato, estavam muito distantes de filmes de super-heróis, ou ficção científica, sempre me apeguei ao que parecia, de alguma forma, mais real. E, tenho a impressão muito particular de que, o fato de nós mulheres não sermos incentivadas (inclusive, muitas vezes reprimidas) a falar sobre os nossos sentimentos e a nossa própria vida de maneira não romantizada ou erotizada, faz com que a arte seja um lugar perfeito para suprimir essa necessidade. A liberdade da criação artística permite se fazer, de alguma maneira, ouvida.
Enquanto os homens podem sonhar com mundos completamente diferentes, às vezes, até interplanetários, nós mulheres temos que nos concentrar em simplesmente conseguir viver a realidade. E, honestamente, não acho que isso seja algo inerentemente ruim, ter os pés na realidade parece a melhor forma de viver a vida e, talvez a única possível para enfrentar o mundo de fato.
As árvores do fundo do quintal
Mandam lembranças
De quando a gente era criança
E as cores da TV
Não parecem mais me entreter
Eu quero voltar pro mundo



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