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Anora perde o brilho ao ofuscar protagonismo de Mikey Madison

  • Foto do escritor: Gabriela Matina
    Gabriela Matina
  • 9 de fev. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Quando a protagonista perde espaço na própria narrativa


Ilustração de pessoa estilizada com óculos escuros e roupa azul sobre fundo vermelho, em clima moderno e impactante.
Ilustração Digital por Thalia Vargas

Na última semana fui assistir Anora no Quinteiro, um bar no Floresta que exibe filmes de graça todas as quartas e, às vezes, na quinta-feira também. É uma opção legal para encontrar aquele amigo que tem a agenda muito cheia nos finais de semana ou só para sair da rotina mesmo.


Agora indo para o filme, Anora, ou Ani, como prefere ser chamada, é uma menina de 23 anos que trabalha em uma casa de strip. Ela se relaciona diariamente com homens esquisitos, geralmente com pelo menos o dobro da idade dela ou até mais do que isso. Até que um dia conhece Ivan, um jovem de 21 anos filho de um oligarca russo. Além de pagar pelos serviços dela, ele também quer conhecê-la melhor.


Ivan trata Anora bem melhor do que os outros clientes da boate e tem conversas de igual para igual com ela – apesar da desigualdade de classe gritante entre os dois. Depois de se conhecerem, ele faz uma proposta para que Anora seja exclusivamente sua namorada por uma semana, em troca de 15 mil dólares.


Ela, claro, aceita prontamente. No fim desses sete dias, os dois acabam se casando para que ele não precise voltar para a Rússia para trabalhar na empresa do pai. Durante esse tempo, Ivan apresenta ela aos amigos, eles vão a festas, viajam e se divertem juntos. Por alguns instantes, Anora parece viver um sonho. Até aí tudo bem interessante.


Tudo corre bem até que os capangas do pai do menino aparecem para anular o casamento e, desesperado com a possibilidade de se encontrar com os pais que estão vindo da Rússia para ver o casamento desfeito, Ivan foge, deixando Anora para trás. É a partir daí que o filme começa a desandar.


O problema é que Anora é um filme longo demais para um roteiro que não se aprofunda nos personagens. Muitas cenas poderiam ser cortadas, e diversas questões ficam sem resposta. Não sabemos, por exemplo, o que fazem os pais de Ivan ou por que ele tem tanto medo deles a ponto de fugir e abandonar a esposa nas mãos de três homens.


Não sabemos como Anora chegou aquele trabalho ou se é feliz ali. Apenas descobrimos que fala russo (um dos motivos para ter se conectado com Ivan) por causa da avó imigrante. Mesmo assim, a atuação de Mikey Madison não deixa de ser um dos pontos altos do filme.


Mas Anora me perdeu completamente depois do segundo ato. A relação entre os protagonistas, que dura pouco mais de uma semana, não justifica a transformação da personagem principal. No início, ela se mostra independente e totalmente no controle da própria vida, mas, conforme a trama avança, vai gradualmente perdendo brilho.


Claro, faz sentido que ela tenha se interessado pelo mimado. Talvez tenha sido uma das poucas vezes em que encontrou alguém da sua idade no ambiente onde trabalha. Mas ele, no fim das contas, é apenas um garoto chato, que gasta dinheiro em festas, drogas e viagens com os amigos. A falta de ação de Ivan no desfecho do filme torna tudo ainda mais frustrante.


Sean Baker me cativou muito mais em Projeto Flórida, onde acompanhamos a vida de crianças que vivem em um motel no subúrbio do sudeste dos Estados Unidos – o mesmo estado onde tantas outras crianças ricas passam férias, explorando o mundo mágico da Disney e das compras em outlets. Com crianças se divertindo enquanto os adultos ao seu redor lutam para sobreviver, o filme constroi um retrato do “sonho americano”.


Sendo assim, me parece que uma das marcas do cinema do diretor é explorar perspectivas pouco abordadas no cinema. Mas em Projeto Flórida, ele sem dúvidas acerta mais ao humanizar seus personagens. A fotografia dos dois filmes também é bem diferente. Enquanto Anora aposta em tons frios e cenas noturnas, Projeto Flórida é vibrante, diurno, com cores saturadas que traduzem o calor da região e o olhar inocente das crianças, mesmo diante das dificuldades.


Em Anora, Baker volta a abordar a desigualdade de classes. A garota precisa se prostituir para sobreviver, enquanto Ivan vive em uma mansão com seguranças, empregados, cartões de luxo na garagem, elevador e uma vista panorâmica da cidade. Mas, ao longo do filme, a protagonista perde completamente sua força e até mesmo o próprio protagonismo. Depois da primeira hora, a trama se torna desinteressante e o paradeiro de Ivan, que vira o foco principal durante cerca de quarenta minutos de filme, era totalmente previsível.


De repente, Anora se torna ingênua e perde toda a autonomia que demonstrava no início. Grande parte das piadas da “dramédia” também não funcionam para mim. Passei o filme esperando o momento em que ele me convenceria de que merecia todas as premiações que tem recebido – Palma de Ouro em Cannes, Critics Choice de Melhor Filme e uma série de indicações ao Oscar. Mas esse momento nunca chegou.

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