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Crianças criadas por avós

Foto do escritor: Laís Fidélis
Laís Fidélis
26 de jul.
7 min de leitura

O que significa crescer com os avós? Não apenas uma configuração familiar diferente, mas uma experiência que altera a relação com o tempo, com o cuidado e com o envelhecimento


Idosa rega duas crianças com mangueira no jardim, sob uma árvore, em clima alegre.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Dentre todas as fases da vida, a infância costuma ser a que permanece mais viva na memória. Não por acaso, a frase de Lya Luft - “a infância é o chão que a gente pisa a vida inteira” - tornou-se uma das mais conhecidas para traduzir os impactos dos primeiros anos do desenvolvimento humano.


A cultura brasileira é profundamente atravessada pelas tradições familiares. É no ambiente familiar que acontecem os primeiros contatos com a vida em sociedade, onde aprendemos costumes, valores, formas de afeto e maneiras de enxergar o mundo.


Entretanto, falar em “família brasileira” significa reconhecer uma realidade diversa, heterogênea. Não existe uma única forma de ser família. Cada casa constrói seus próprios hábitos, regras e modos de viver: o que pode ou não ir para a geladeira, se o almoço acontece à mesa ou em frente à televisão, se os pais são casados ou divorciados, se há um pai e uma mãe, duas mães, dois pais, avós responsáveis pelos netos ou qualquer outra configuração que tenha o cuidado e o afeto como ponto de encontro.


De certo modo, toda família é única. Ainda assim, existem pequenas experiências compartilhadas que atravessam diferentes casas e ajudam a formar a memória coletiva. Uma delas é a presença dos avós - especialmente das avós - na criação dos netos. Seja por necessidade, escolha ou contexto social, é comum que elas formem uma rede de apoio para a criação de seus netos. Enquanto pais e mães trabalham para sustentar a família, muitas avós assumem os cuidados diários: buscam na escola, preparam o almoço, ajudam nas tarefas, colocam para dormir e acompanham de perto os primeiros anos da infância. Em muitos lares, elas deixam de ser apenas figuras de apoio e passam a dividir (ou assumir) as funções de cuidado.


As mãos que embalaram duas gerações


Close-up de mão idosa sobre mão jovem, ambas com esmalte rosa claro, em gesto de carinho e apoio.
Mão de Maria da Glória, avó de Laís

Como o cuidado familiar recai historicamente sobre as mulheres, não é exagero afirmar que as mãos das avós trocaram as fraldas de duas gerações da mesma família: primeiro de seus próprios filhos e, depois, de seus netos.


Ao conversar com minha avó, Maria da Glória, essa passagem do tempo aparece em uma lembrança aparentemente simples. Quando chegou em São Paulo, no ano de 1969, as fraldas ainda eram de pano, lavadas e reutilizadas diariamente. Décadas mais tarde, ao participar da criação dos netos, viu as fraldas descartáveis facilitarem uma tarefa que conhecia como poucas pessoas. As formas de cuidar mudaram, mas o cuidado permaneceu o mesmo: silencioso, cotidiano e quase sempre invisível.


Mulher e três crianças agachadas com um cão no jardim, entre plantas e flores, em clima alegre.
Avó, Maria da Glória e seus três filhos: Maria José e os gêmeos, Adriana e Adriano

Todos os netos tiveram a infância atravessada pelo cuidado de Maria da Glória. São seis ao total, mas três conviveram com ela de maneira mais próxima: Pedro, Bárbara e Laís.


Minha tia Maria José e seu primeiro filho, Pedro, moraram no mesmo terreno que Glória até o menino completar sete anos. Toda a primeira infância do primogênito aconteceu no quintal da casa, sempre sob os olhares atentos dos avós. Depois veio Bárbara, a primeira neta menina é filha de Adriano, que também foi acompanhada por Glória até os cinco anos de idade.


Já eu, a caçula de Adriana, passava as férias escolares na casa dos avós. Apesar de ter participado ativamente da criação de todos os netos, minha avó nunca diz que os criou. Ela afirma apenas que cuidou. Cuidou dos netos como antes havia cuidado das irmãs mais novas e, mais tarde, dos próprios filhos. Para ela, o cuidado nunca foi uma escolha ou um gesto extraordinário. Era simplesmente o que precisava ser feito.


“Eu não criei, eu cuidei.”


Três pessoas posam no sofá: casal idoso e menina; a mulher segura um copo, em sala simples, clima afetuoso.
Laís e seus avós maternos: Valdomiro e Maria da Glória

Perguntei à minha avó se ela acredita que netos criados por avós são mais mimados. Ela respondeu que não. Na sua percepção, acontece justamente o contrário: os netos costumam respeitar ainda mais os avós, escolhem as palavras com mais cuidado e aprendem, desde cedo, a ter paciência com as limitações que chegam com a idade, como as dificuldades com a tecnologia.


“Eu tive mais amor do que outras crianças.”


Foi justamente essa percepção que encontrei ao conversar com a jornalista Júlia Ennes, editora-chefe da Revista Wanda. Criada pelos avós durante a infância, ela rejeita imediatamente a ideia de que crianças criadas por avós são, necessariamente, mais mimadas ou despreparadas para a vida. Sua resposta é outra.


Braço com tatuagem de família e mãos segurando foto antiga de Avô, avó e bebê, em clima afetuoso.
Abaixo foto de Neuza, Alvimar e Júlia. Acima, tatuagem que Júlia fez em homenagem aos avós.

Júlia cresceu em Cataguases, interior de Minas Gerais, dividindo a casa com sua mãe e avós maternos: Dona Neuza e Seu Alvimar (ou Vilmar, para os íntimos). Para possibilitar uma jornada de 8h diárias de trabalho e a criação simultânea de Júlia, sua mãe mudou de Juiz de Fora para voltar a morar com os pais.


A escolha pode parecer um passo atrás, mas era a opção mais segura para manter a independência financeira. Seus avós receberam a notícia com naturalidade: participar da criação da primeira neta era simplesmente parte da vida. Em nenhum momento cogitaram ficar de fora.


O tempo passou e Júlia lembra com carinho dos anos em que morou com os avós. Os dias de sua infância se dividiram em brincar na varanda enquanto cantarolava com seu avô as músicas que aprendia na escola e anotavam juntos, caminhar pela cidade com sua avó e tia-avó e, claro, assistir novela ao entardecer.


Folha pautada com frase manuscrita em português: Pecado, Pecadinho, Pecadão... em letra cursiva azul, tom íntimo.
Trecho de uma canção que Alvimar e Júlia comporam juntos

Enquanto relembra a infância, as memórias aparecem muito menos ligadas a grandes acontecimentos e muito mais aos pequenos rituais cotidianos.


“Eu tive mais amor do que outras crianças.”


A frase não surge como uma idealização romantizada da infância, mas como uma tentativa de traduzir aquilo que ficou: as marcas de uma infância com muito afeto. Crescer ao lado dos avós significou conviver diariamente com um tipo de cuidado que dificilmente cabe em definições simples.


Enquanto relembra a infância, as memórias aparecem menos ligadas a grandes acontecimentos e mais aos pequenos rituais do cotidiano. A avó sempre foi uma mulher firme, organizada e dona de uma autoridade silenciosa. “Meu avô era do tipo ‘faço o que quero’. Minha avó era ‘faço o que tenho que fazer’”, expressa a jornalista. Era ela quem cuidava das plantas da casa, mantinha a rotina funcionando e, mesmo dizendo que perguntaria ao marido antes de tomar uma decisão, acabava fazendo aquilo que julgava certo.


Mulher beija a bochecha de um bebê no colo, em ambiente escuro, com clima carinhoso.
Júlia e sua avó materna, Neuza

Júlia lembra que, quando a mãe chegava tarde da faculdade, dormia na cama dos avós. Não era apenas uma busca por companhia.


“Eu tinha medo de dormir e eles não acordarem.”


É um medo que poucas crianças experimentam com tanta intensidade. Conviver diariamente com pessoas mais velhas significa também perceber, desde cedo, que o tempo tem outro ritmo. A infância passa a dividir espaço com a consciência da velhice.


Quando a infância encontra a velhice


Conviver diariamente com os avós significa também crescer sabendo que o tempo passa. Hoje, uma das maiores tristezas de Júlia é perceber que as plantas desapareceram da casa da avó.


“O envelhecimento dela se materializa nisso. Não tem mais plantas.”


Há também outra ausência difícil de aceitar: quando o avô deixou de cozinhar e as refeições perderam parte de seu significado. Pequenas mudanças diárias que, para quem observa de perto, anunciam a passagem do tempo antes mesmo que ela seja dita em voz alta.


Talvez por isso, a infância de Júlia também tenha sido atravessada por um medo precoce da perda.


Ao mesmo tempo, essa convivência aproximou Júlia de um universo que muitas vezes permanece distante para outras crianças. Ela aprendeu a gostar das caminhadas sem destino pela cidade, das visitas aos parentes, do café da tarde sempre no mesmo horário, das conversas longas diante da televisão e até do cuidado intuitivo com as plantas.


“Nunca fui uma criança de brincar. Eu gostava de ler, desenhar, conversar e ver televisão.”


São hábitos que permanecem na vida adulta e que ela reconhece como parte da convivência com os avós.


O afeto mora nos detalhes


Os ensinamentos também apareceram nos pequenos gestos. A honestidade quase inflexível veio da avó Neuza. A pontualidade, do avô Vilmar. “É meio o avô de [novela] Vale Tudo: Roubar é crime. O correto é o correto.” Chegar atrasado ainda provoca um desconforto difícil de explicar.


Mas talvez o maior aprendizado tenha sido outro: cuidar de quem envelhece.


“A principal diferença que eu sinto por ter sido criada pelos meus avós é o cuidado com os outros idosos.”


Ela percebe isso nas conversas que consegue estabelecer com pessoas mais velhas. Enquanto muitos enxergam um abismo geracional, Júlia encontra familiaridade. A convivência diária fez com que aprendesse a escutar outro ritmo de conversa, outro repertório de histórias e outro modo de olhar para o mundo.


Essa intimidade também transformou sua maneira de entender o respeito. Ela conta que discute muito com a avó e que nunca enxergou isso como falta de consideração. “Eu acho estranho esse respeito que coloca os mais velhos num pedestal. Para mim, intimidade para ter conversar de igual pra igual também é uma forma de respeito”.


A relação entre as duas nunca foi construída em grandes demonstrações de afeto. A avó raramente dizia “eu te amo”. Quase demonstrava com toque físico. Ainda assim, Júlia nunca duvidou do amor que existia ali.


“Não é que ela não ame. É o jeito dela.”


Talvez uma das maiores heranças de quem cresce com os avós seja justamente aprender que o afeto nem sempre se manifesta pelas palavras. Às vezes ele aparece no café servido todos os dias no mesmo horário, na caminhada pela cidade, nas plantas regadas antes do almoço ou no silêncio compartilhado diante da televisão.


Avós são máquinas do tempo


Ao viver ao lado deles, o passado nunca parece distante. Histórias de décadas atrás são contadas como se tivessem acontecido “outro dia”. Com o passar dos anos, surge uma inversão delicada: chega o momento em que os netos passam a explicar um mundo novo para quem lhes ensinou quase tudo.


“Eu entendo a estranheza que eles sentem com novidades. Imagino que pra eles também deva ser estranho contar sobre o passado e um mundo que já não existe mais para uma pessoa que nunca vai viver esse mundo - porque ele já acabou.”


Talvez seja esse o maior legado de uma infância criada pelos avós. Mais do que ensinar sobre o passado, eles tornam impossível esquecer que toda relação de cuidado também é atravessada pela finitude. Crescer ao lado deles significa aprender, desde cedo, que amar alguém é também testemunhar o tempo agir sobre quem se ama. E justamente por isso, cada café da tarde, cada receita, cada caminhada e cada conversa comum acabam se transformando em delicadas memórias que temos medo de esquecer.


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