O padre que incomoda
- Laís Fidélis

- 12 de abr.
- 3 min de leitura
Entre o altar e a rua, padre Júlio Lancellotti enfrenta perseguição política e silenciamento nas redes sociais. “Força e coragem”, discursou o sacerdote no último domingo

Ainda é cedo quando o padre Júlio Lancellotti atravessa a calçada em frente à Igreja de São Miguel Arcanjo, no Belenzinho, zona leste de São Paulo. Próximo à paróquia, algumas pessoas já aguardam o início da distribuição de café e pão.
Naquela manhã de 6 de março de 2026, porém, a rotina teria um significado diferente. Na noite anterior, havia circulado a notícia de que o Núcleo de Convivência São Martinho de Lima poderia ser fechado.
Às oito da manhã, após a missa, o padre e integrantes da Pastoral do Povo da Rua organizaram uma pequena procissão até a frente do núcleo. Ali, diante do portão, rezaram um Pai-Nosso.

Fé e justiça social no coração de Belenzinho
Em um dos bairros mais tradicionais da zona leste, o sacerdote atua há mais de três décadas no atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade. À frente da paróquia da Igreja de São Miguel Arcanjo, tornou-se uma figura conhecida por seu trabalho ao lado da Pastoral do Povo da Rua.
Na região do Belenzinho, dois centros de acolhimento à população em situação de rua ficam a poucos metros da paróquia: o Núcleo de Convivência São Martinho de Lima e o Centro Comunitário Santa Dulce dos Pobres.
A história que se inscreve entre as ruas Sapucaia, Taquari e Padre Adelino está diretamente ligada à atuação do padre. Em 1990, ao lado do bispo Dom Luciano Mendes de Almeida, o Núcleo de Convivência São Martinho de Lima foi fundado. Hoje administrado pelo Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto (Bompar), o espaço fornece alimentação para cerca de 450 pessoas.
Do altar às telas
Ao longo dos anos, o reconhecimento público do trabalho do sacerdote também ganhou força nas redes sociais. As transmissões online de missas e atividades pastorais ampliaram o alcance de sua atuação, levando para fora da paróquia debates sobre desigualdade urbana e as condições de vida da população em situação de rua.
A visibilidade crescente, no entanto, também trouxe conflitos. Apesar de sua atuação na defesa dos direitos humanos , a trajetória do padre passou a ser atravessada por tensões institucionais.
A censura velada
Em dezembro de 2025, uma decisão do cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, determinou a suspensão das transmissões ao vivo realizadas pelo padre Júlio Lancellotti, incluindo missas e outras atividades nas redes sociais.
A Arquidiocese de São Paulo dispõe de mecanismos institucionais para orientar e, quando julgar necessário, restringir a atuação pública de seus sacerdotes.
Para apoiadores do padre, a decisão representa um obstáculo a um trabalho humanitário e alinhado às doutrinas cristãs. Já sob a perspectiva institucional, a Igreja mantém sua autoridade sem vir à público para explicar sua decisão.
O que está em jogo não é apenas a presença nas redes sociais, mas o alcance de uma voz que denuncia desigualdades e confronta estruturas. Com as transmissões suspensas e o perfil oficial do padre inativo, abriu-se espaço para que outra pressão surgisse: desta vez, no campo político.
A luta pelo Núcleo São Martinho de Lima
O Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, referência no atendimento à população em situação de rua no Belenzinho, esteve recentemente no centro de uma disputa institucional. A Prefeitura de São Paulo chegou a cogitar o encerramento das atividades do espaço, mas recuou depois do inquérito do Ministério Público.
A situação expôs como iniciativas de assistência social podem se tornar alvo de disputas políticas em torno da gestão da cidade.
A prefeitura recuou a decisão, e ficou definido um cronograma de trabalho conjunto para o aperfeiçoamento dos serviços prestados no centro, além da realização de um estudo técnico mais aprofundado sobre o funcionamento do equipamento e as necessidades da população atendida.
Força e Coragem
Um mês depois da notícia sobre o possível fechamento do núcleo, era a manhã do domingo de Páscoa. Em meio à mensagem de esperança e ressurreição, o sacerdote dirigiu algumas palavras à comunidade. “Força e coragem”, disse.
O episódio abriu uma discussão que ultrapassa os limites da fé. Quando a Igreja Católica decide quem pode falar e quem deve se calar, o debate deixa de ser apenas institucional.
Em um ano de eleição presidencial, a quem interessa que uma voz tão potente sobre direitos humanos seja silenciada?
Talvez seja justamente isso que incomoda: quando a fé deixa de ser apenas discurso e se transforma em prática social, ela inevitavelmente se torna também um ato político.



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