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Beleza Fatal entretém mas parece paródia de uma novela que já vimos

  • Foto do escritor: Júlia Ennes
    Júlia Ennes
  • 28 de jun.
  • 4 min de leitura

A primeira novela brasileira da MAX promete inovação, mas tropeça nos clichês e exageros


Ilustração Digital por Laís Fidélis
Ilustração Digital por Laís Fidélis

No início deste ano, estreou Beleza Fatal, a primeira novela brasileira do streaming MAX. Desde seu anúncio, a produção prometia ser um "novelão" capaz de reinventar o mercado audiovisual brasileiro. E, de fato, o sucesso foi estrondoso: alta audiência, muitos comentários nas redes sociais e espectadores se reunindo para acompanhar o último capítulo. Mas agora que o hype passou: Beleza Fatal é realmente boa?


Criada e roteirizada por Raphael Montes, com supervisão do veterano Silvio de Abreu e direção geral de Maria de Médicis, a trama aposta em um argumento clássico: a vingança da heroína Sofia (Camila Queiroz) contra a vilã Lola (Camila Pitanga).


Na coletiva de lançamento e ao longo de toda a campanha de divulgação, a equipe demonstrou entusiasmo com o caráter inovador da primeira-novela-brasileira-do-streaming. Caio Blat, que interpreta o médico inescrupuloso Benjamin e também dirige algumas cenas, destacou os benefícios do novo formato, mais enxuto: "A gente cansou de fazer novela de 180, 200 capítulos. Agora, temos o mesmo tempo para fazer 40 capítulos. É um privilégio, não tem barriga, não tem repetição, milhões de coisas acontecem".


"A novela fez uma lipo e tem barriga negativa", brincou a diretora Maria De Médicis.

“Barriga”, como são chamadas cenas ou capítulos inteiros que não acrescentam no desenvolvimento da trama, pode mesmo ser um problema nas novelas, como vimos acontecer agora com Garota do Momento, que perdeu ritmo após ser estendida. Mas a repetição, redundância, o enredo desenvolvido aos poucos faz parte da arte das novelas, que precisam – e geralmente conseguem – entreter um público por meses a fio.


A redução do tempo de enredo e a preocupação em ter “milhões de coisas” acontecendo o tempo todo faz sentido, considerando o momento social que vivemos, com vídeos curtos, estímulos constantes e uma briga por atenção online. É uma novela para quem até gosta, mas não tem paciência para ver novela.


No quesito enredo, a produção se manteve no arroz com feijão que o público conhece. Desde o primeiro capítulo, vemos uma sucessão de clichês – desejos de poder, vingança, segredos de família, casais que se apaixonam na infância, troca de casais… Em novelas, os clichês não são grandes problemas, mas precisam ser bem trabalhados e apresentados junto a algo novo, fresco.


O problema é que o texto de Raphael Montes é feito de situações absurdas e diálogos óbvios e, algumas vezes, até vergonhosos – a cena em que Sofia “se torna” Lola pela primeira vez e ri como ela, é o significado de cringe. Os personagens são caricatos, cheios de falas forçadas que parecem ter sido criadas para virar meme.


A direção de Maria de Médicis, em vez de amenizar os excessos do roteiro, parece ter optado por acentuá-los. Algumas escolhas estéticas e técnicas deixam a desejar quando comparadas à qualidade dos folhetins atuais. Talvez por ser uma produção de streaming, voltada para um público mais amplo e não necessariamente brasileiro, Beleza Fatal parece mais com o que se imagina que uma novela seja, do que com o que uma boa novela pode ser. Beira a uma sátira do gênero.


É inovador e revolucionário? Não.

O enredo de Raphael Montes não só repete fórmulas conhecidas pelo gênero mas parece uma grande colcha de retalho de grandes sucessos da teledramaturgia. E a decisão de escalar atores para os mesmos papeis que já vimos eles interpretando em grandes sucessos da Globo também não ajuda a tirar essa impressão. Nós temos a gêmea malvada da Bebel de Paraíso Tropical, o Zé Pedro de Império em um universo onde o comendador é médico e, por isso, o filho também é, e a eterna Angel de Verdades Secretas – Camila Queiroz, coitada, parece presa na pele de Angel, tanto no imaginário coletivo, quanto no de Raphael Montes.


Camila Pitanga dá vida à exagerada vilã Lola
Camila Pitanga dá vida à exagerada vilã Lola

Por outro lado, o criador e roteirista acerta na atualidade do texto. A crítica ao culto da beleza e ao mundo de influenciadores digitais é usada como fio condutor da narrativa. A banalização dos procedimentos estéticos e a picaretagem da Lola seria surreal se não fosse tão real – algumas cenas da vilã poderiam ser stories da Virgínia.


O formato de streaming também permite que a novela escape das “caixinhas” tradicionais da TV aberta. Beleza Fatal mistura o humor típico das faixas das 19h com cenas de sexo, violência e palavrões que só veríamos no falecido horário das 23h. A inovação maior está nessa liberdade criativa.


Acredito que o grande sucesso de Beleza Fatal é resultado de uma soma entre marketing eficiente e timing perfeito. A novela da MAX chegou em um momento de retomada do interesse popular — especialmente do público jovem, mais imerso no streaming —, pelas novelas e, ao mesmo tempo, de uma carência desse público por boas produções no gênero.


O sucesso recente de produções como Vai na Fé e, agora, Garota do Momento parece ter reacendido o amor do brasileiro por novelas, mas o fracasso de outras, como Mania de Você, deixou uma sede por boas tramas de verdade. O que restou ao público, então, é nivelar por baixo e aceitar uma mistureba de recortes de grandes sucessos dos “bons tempos” da teledramaturgia brasileira.


Pensando melhor, ainda bem que Beleza Fatal é uma novela curta, sem enrolação. Não sei se conseguiria mesmo assistir mais capítulos.


Nota: 3/5



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