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O novo Frankenstein de Guillermo del Toro não é um filme de terror, nem de ficção científica

  • Foto do escritor: Clara Campos
    Clara Campos
  • 28 de jun.
  • 4 min de leitura

E isso é o mais assustador de tudo…


Frankenstein. Ilustração Digital por Thalia Vargas.
Frankenstein. Ilustração Digital por Thalia Vargas.

Ao longo da história das ciências, religiões e filosofias mundo afora, muitos estudiosos desenvolveram teses e teses sobre a suposta “natureza humana”. Particularmente, gosto de acreditar na ideia de que nós nascemos “na boa” e são a partir das nossas interações com os ambientes que nós cercam, desde os macros, como a sociedade, aos mais próximos como a família e a escola, por exemplo, que vamos nos formando como pessoas. É aquela história do Rousseau de que o ser humano nasce bom, o problema é a sociedade que o corrompe. E você, já se perguntou: o que faz o ser humano ser “humano”?


É dessa indagação sobre a origem da índole humana que surge o novo Frankenstein, lançado no Brasil no final de outubro de 2025, pela Netflix, desta vez pelo olhar do diretor mexicano Guillermo del Toro. Após dirigir outras produções que exploram a relação entre criador-criação e a essência do que é ser humano, como Pinóquio (2022) e o premiado A Forma da Água (2017) — que lhe rendeu os prêmios Oscar de “Melhor Filme” e de “Melhor Diretor” — del Toro retorna às telas com a nova e curiosa adaptação do clássico romance gótico de Mary Shelly.


A nova versão de Frankenstein chama atenção com o grande elenco. O longa é estrelado por Oscar Isaac, no papel de Victor Frankenstein, e Jacob Elordi, como a “Criatura”, e conta ainda com o genial Christoph Waltz, como Henrich Lavenza, aristocrata financiador dos experimentos do Dr. Frankenstein, e a nossa neta da atriz brasileira Maria Gladys, Mia Goth, como Elizabeth Lavenza.


O “Criador”


Assim como o livro original inglês, o filme também se passa na Europa dos anos 1800, protagonizado pelo egocêntrico e esquisito médico Victor Frankenstein. Vindo da nobreza britânica, o Dr. Frankenstein é filho de um barão inglês Alphonse Frankenstein, que além da riqueza possui o título de “melhor médico” da Europa. No entanto, apesar do prestígio social, no ambiente familiar o pai se mostra alheio e abusivo, rejeitando a companhia e o afeto do filho e da esposa, Caroline Beaufort, a mãe e melhor amiga de Victor.


Oscar Isaac no papel de Victor Frankenstein, 2025
Oscar Isaac no papel de Victor Frankenstein, 2025

Foi após a morte da mãe durante o parto do irmão mais novo, William (Felix Kammerer), que Victor Frankenstein se deprime, tornando-se totalmente solitário. Para piorar, o rabugento do pai, Alphonse, ainda cai de amores pelo filho caçula, negligenciando, cada vez mais, Victor. Um pouco mais tarde, Alphonse também falece e passa ao primogênito, agora órfão, o título de barão. E é durante o início desse período sombrio que Victor começa sua busca pela “imortalidade”: o jovem Frankenstein recorre à ajuda da ciência e das forças sobrenaturais para se tornar, de fato, o “melhor médico do mundo” e começa seus experimentos de reanimação de cadáveres.


A “Criatura”


Graças aos investimentos do aristocrata (e tio da cunhada Elizabeth Lavenza) Heinrich Lavenza (Christoph Waltz), Victor Frankenstein se dedica, cada vez mais, ao sucesso do processo de reanimação de cadáveres. Especificamente, o cientista recolhe, com ajuda de Heinrich, pedaços de cadáveres para escolher as “melhores partes” e montar, uma “criatura” imortal. Sim, não é a coisa mais bonita que você vai assistir, mas vale a pena.


Jacob Elorid no papel de “Criatura” e Mia Goth no papel de Elizabeth Lavenza, 2025
Jacob Elorid no papel de “Criatura” e Mia Goth no papel de Elizabeth Lavenza, 2025

E é depois de muito estudo, que o médico consegue dar vida à “Criatura”, como ele chama o ser vivo que criou. Jacob Elordi surpreende com uma atuação de altíssimo nível como a “Criatura”


De início, o ser recém-criado consegue dizer apenas o nome de Victor e se comporta como uma criança bem pequena, inocente e frágil, apesar de sua força física e tamanho impressionantes. Grosseiro e aparentemente insensível, o Dr. Frankenstein é hostil com o suposto “monstro”, tratando-o como um objeto inanimado, acorrentando-o, punindo-o e, até, agredindo-o fisicamente.


De forma geral, é assim que Victor interage com todos as personagens da trama — com exceção de Elizabeth (Mia Goth), com quem desenvolve um laço afetivo, que para ela é amistoso e, para ele, uma paixão. E como consequência das violências do “Criador”, a “Criatura” vai se fechando cada vez mais, embora não se desenvolva de forma raivosa ou violenta.


O médico é o monstro


É a partir, sobretudo, das interações da dupla de protagonistas Victor e a “Criatura” que o Frankenstein de Guillermo del Toro explora a ideia do “humano”. Enquanto o nobre e vaidoso médico se mostra uma pessoa egocêntrica e sem compaixão pelos outros, o suposto “monstro” é doce, gentil e sem preconceitos.


Curioso é que, ao longo da trama, as únicas duas personagens que desenvolvem afeto pelo “experimento” e constroem algum tipo de afetividade com ele são a única personagem mulher que permanece no filme, Elizabeth Lavenza, e um idoso que é cego e, portanto, não julga a “Criatura” por sua aparência diferente. Entre tantos homens da aristocracia, foi preciso duas pessoas marginalizadas e um “monstro” para que o filme de Guillermo del Toro mostrasse, enfim, a beleza da humanidade: os laços afetivos genuínos que construímos ao longo da vida.


O médico é o monstro e a “Criatura”, em toda sua estranheza visual, é a verdadeira humana — no seu sentido mais puro. Em um mundo onde todos parecem ter seu caráter corrompido, seja por futilidades ou por traumas e dores profundas, os esquisitos da história, mesmo se revoltando com as injustiças e violências da vida, são os que conseguem enxergar beleza onde a maioria não vê. E o final da história? É bonito demais, então não vou dar spoiler.


O novo Frankenstein de Guillermo del Toro não é um filme de terror, nem de ficção científica, é talvez, um retrato cru da humanidade, que segue o comando violento dos homens, — “homens” aqui como gênero social mesmo —, mas que, apesar disso, ainda mostra uma pequena ideia de esperança e doçura diante do mundo tão injusto e desumano no qual vivemos.


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