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Améfrica de Bia Ferreira contagia através do afeto

Foto do escritor: Thiago Furbino
Thiago Furbino
3 de ago.
7 min de leitura

Inspirada em Lélia Gonzalez, a cantora une sonoridades caribenhas e brasileiras em um disco que troca o confronto pelo diálogo, sem abrir mão da luta política


Retrato estilizado de mulher negra com lenço branco e lábios vermelhos, sobre fundo verde com explosões amarelas.
Ilustração Digital por Laís Fidélis


Mistura do Brasil com Caribe


No dia 15 de julho, dez dias após a eliminação da Seleção Brasileira da Copa do Mundo, muitos brasileiros continuavam desanimados após mais uma eliminação do “país do futebol”. Mas enquanto milhões guardam a camisa da Seleção no armário, a cantora Bia Ferreira continuava orgulhosa. Recostada em uma rede de um hostel em Toronto, no Canadá, ela veste uma camisa retrô da amarelinha, com o antigo brasão, que traz a sigla CBD (Confederação Brasileira de Desportos) estampada no peito, enquanto toma café em uma caneca que ostenta a mesma imagem.


Cantora negra com óculos amarelos canta ao microfone, com fundo azul e estrelas amarelas em estilo gráfico.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

“Tem uma (camisa) que está escrita CBD, tem uma que está escrita Exu. Em nenhuma está escrita CBF, mas todas elas já trazem essa identificação que é do Brasil. Eu tenho muito orgulho da nossa cultura, do nosso país. Eu ando com camisa, eu ando com stickerzinho, bandeira. Vou fazer show? Eu penduro a bandeira no palco”, conta.

Este orgulho de ser brasileira, e principalmente latina, que a cantora demonstrou durante a entrevista, combina muito com seu trabalho mais recente: o álbum Améfrica, lançado em 29 de maio deste ano e produzido em parceria com Vinicius Lezo. Durante mais uma turnê pelo Hemisfério Norte, a artivista – como ela mesma se denomina, ao mesclar os termos “artista” e “ativista” – separou um tempo para nos contar sobre o lançamento.


O nome do disco faz alusão às ideias desenvolvidas por Lélia Gonzalez, referência do pensamento negro e do feminismo latino-americano na década de 1980. A antropóloga propôs a Améfrica Ladina como categoria político-cultural que reconhece o papel central das culturas africanas e indígenas na formação do continente, em oposição às correntes eurocêntricas predominantes, nas quais esse legado é apagado.


Para retratar a Améfrica de Lélia, Bia Ferreira apostou no reggae. Segundo a cantora, o Caribe “tem muito mais semelhanças com o Brasil do que imaginamos”. No novo álbum, o ritmo caribenho se entrelaça com outros estilos, como o dub, o reggaeton, o xote, o baião e outros.


Cantadas em português, espanhol, inglês e francês, as músicas se misturam em um caldeirão sonoro que, através do talento de Bia, materializam o conceito da antropóloga.


Duas mulheres em ilustração, uma sorrindo e outra séria, com estrela amarela ao fundo sobre verde.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Um disco para balançar o corpo e a mente


Surgido na Jamaica na década de 1960 a partir dos gêneros ska e rocksteady, o reggae muitas vezes serviu para dar voz às demandas das populações caribenhas, com letras que denunciavam a desigualdade social, a violência e a corrupção dos políticos. Ao mesmo tempo, suas melodias evocavam as formas de resistência, exaltavam o amor, a dança e a alegria.


A partir da década de 1970, impulsionado pelo sucesso do filme The Harder They Come, estrelado por Jimmy Cliff e do álbum Catch a Fire, de Bob Marley & The Wailers, o reggae passou a inspirar artistas em todo o mundo. No Brasil, Gilberto Gil e Edson Gomes ajudaram a disseminar o gênero no cenário nacional, preparando o terreno para outros músicos. Bia conta como entrou em contato com o gênero pela primeira vez:


“O reggae entra na minha vida depois de grande, quando eu já tinha 13, 14 anos, andando de skate com a galera e ouvindo Charlie Brown, uns negócios assim, sabe? Me sentia super revolts de ouvir uns reggaes e raps”, diz.

Ilustração de mulher sorrindo com turbante colorido, fundo bege e duas estrelas amarelas laterais.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Com o tempo, o gosto pelo gênero ganhou novos contornos:


“Os reggaes que eu ouvia eram uns reggaes mais politizados. Eu ouvia muito a Banda Reação - de Aracaju -, Ato Libertário, Tiken Jah Fakoly. E depois eu comecei a ouvir aqueles reggaes mais amorzinhos, né? O reggae sempre foi esse lugar onde eu buscava uma politização mais gostosinha.”

Entre as dez faixas de Améfrica, sete possuem forte presença do estilo jamaicano: Améfrica, Paz Para o Espírito, Conte Comigo, Nós, O Seu Silêncio, Algoritmo e Para Alegria Se Achegar. Outras duas, Leve e Pote Fundo, são mais marcadas pelo xote e pelo baião, enquanto a última faixa do disco, Cota Não É Esmola, aproxima-se da MPB. Mesmo assim, todas elas têm o reggae em seu DNA.


No reggae, Bia encontrou o compasso perfeito para expressar uma fase de vida mais cuidadosa consigo e aberta ao diálogo. A autora do hit “Cota Não É Esmola”, que soma mais de 14 milhões de visualizações o YouTube e cerca de 3 milhões de reproduções no Spotify, agora mescla letras de confronto direto - característica marcante em seu início de carreira - com outras em que a mensagem chega por meio do afeto:


“Se eu ficar cantando só a minha dor sem trazer a solução, parece que a gente é só a dor da gente. Nós temos que conseguir fazer isso com amor, afeto, olho no olho”, reflete a cantora. “Eu tenho que conseguir olhar para o meu parente bolsonarista. Eu preciso conseguir conversar com ele. Não é porque a gente tem algum pensamento diferente que não vai ter coisa nenhuma em comum.”

Para ela, Améfrica nasce desse entendimento.


“Améfrica vem para lembrar que a vida pode ser leve, lembrando que a regra não é a guerra. A guerra não é natural, não fomos feitos pra brigar”, afirma. “A gente não pode se definir pela violência, porque gente doente não faz revolução. Gente doente não consegue lutar por melhorias. A gente precisa, primeiro, se curar.”

De um modo geral, é um álbum leve, que ora nos chama para balançar a cabeça ao som do reggae, ora nos convida a dançar um xote agarradinho. Por outro lado, não abandona lutas conhecidas e também abre espaço para novas reivindicações, como a música Algoritmo, que critica a passividade induzida pelas redes sociais.


Se o intuito de Bia era fazer um disco para hackear a mente dos desavisados, introjetando a revolução através de músicas que convidam para balançar o corpo, ela teve sucesso.


Outra Bia, outro Brasil


Quando compôs “Cota Não É Esmola”, em 2011, Bia vivia um período muito diferente de sua vida. A cantora relembra que estava adoecida e que transformar em música as dores que vivia acabou tendo um impacto profundo em sua saúde emocional. “Quando compus ‘Cota Não É Esmola’, eu estava adoecida. Falar sobre o problema, que sempre foi uma coisa que eu fiz muito, botar o dedo na ferida, falar sobre o que me dói, sobre o que me atravessa, em algum momento me adoeceu, porque eu comecei a ser a minha dor.”


Ilustração abstrata simétrica de dois rostos laterais, fundo verde e estrela branca sobre hexágono amarelo.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Quinze anos depois, a artista afirma que enxerga a própria trajetória sob outra perspectiva. “Eu não consigo mais falar com aquele tipo de agressividade, porque não é o que a vida está trazendo para mim. Eu quero mostrar para as pessoas que vêm de onde eu venho que a vida pode ser generosa com a gente. Que a dor da gente atravessa a gente, mas ela não define quem nós somos.”


A Lei de Cotas transformou o perfil do ensino superior público ao ampliar o acesso de estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas. Hoje, pretos e pardos representam 50,3%,dos estudantes das universidades públicas, um avanço significativo quando comparado aos 35% registrados em 2011, quando a música foi feita.


Mesmo com a ampliação do acesso ao ensino superior, pesquisas apontam que o principal desafio hoje é garantir a permanência dos estudantes. Em relatório sobre a implementação da política nas universidades, a Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) alerta que a evasão de cotistas ameaça sua efetividade e reforça a necessidade de ampliar as políticas de assistência estudantil e permanência.


Porém, nem todos pensam assim e, mesmo em 2026, a política de cotas segue sendo alvo de contestação por parte de setores da direita. É o caso do pré-candidato à Presidência e cofundador do MBL (Movimento Brasil Livre), Renan Santos, do Partido Missão, que defende a retirada dos critérios raciais e sociais para o acesso ao ensino superior federal.


Nesse contexto, Bia optou por incluir novamente “Cota Não É Esmola” em Améfrica. A letra da canção, que é obra obrigatória para o processo seletivo da Universidade de Brasília (UnB) e aparece em materiais didáticos da rede SESI, encerra o álbum como um sinal de que ela continua atenta.


“Eu trago essa canção dizendo que é preciso manter o direito conquistado. Eu estou falando de leveza, mas que a gente não esqueceu os motivos pelos quais a gente luta. Então, eu acho que ela vem pra fechar esse ciclo num lugar de consciência, e de que não podemos retroceder.”

Retorno para casa?


Reconhecida internacionalmente, Bia Ferreira já se apresentou em 16 países, na América, na África e na Europa. Em abril de 2026, foi a única brasileira no All-Star Global Concert do International Jazz Day, promovido pela Unesco.


Na ocasião, ela interpretou Imagine, clássico pacifista de John Lennon ao lado de grandes nomes do jazz, como Herbie Hancock, Marcus Miller, Buddy Guy, Dee Dee Bridgewater e Gregory Porter.



Hoje, porém, a mineira de 33 anos busca se reconectar com as origens. Sua terra natal, o pacato distrito de Santa Rita do Mutum, quase na divisa com o Espírito Santo, tem cerca de 1.500 habitantes, segundo dados de 2022. Na infância, Bia conta que havia apenas “300 pessoas, gatos, galinhas, bois e cavalos”, brinca. “Eu andei primeiro de cavalo, depois que eu fui andar de carro!”.


“Acho que há muito tempo tenho me alimentado de várias culturas e vários lugares, mas eu estou sentindo cada vez mais a necessidade de voltar para casa e de me realimentar da cultura mineira. Quero conseguir voltar a morar em Minas Gerais, eu acho que essa é minha missão de vida.”

Depois de morar em diferentes estados do Brasil, a artista diz que, devido às andanças, perdeu o sotaque mineiro, mas sempre recupera o jeito característico de falar quando conversa por telefone com o avô.


“Se eu fico uma hora com o meu avô no telefone, quando eu desligo saio falando aquele minerês mais arrastado que pode”, disse, inconformada de que algumas pessoas costumam duvidar da sua origem:


“Tenho muito orgulho de ter nascido no estado de Sérgio Pererê, Maurício Tizumba, Júlia Tizumba, Josiane, Janamô, Lô Borges, Milton Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Tamara Franklin, Colombiana, Iza Sabino, Clara Lima, Conceição Evaristo - pelo amor de Deus! - como é que eu não vou falar que eu sou mineira?”

Bia se levanta da rede de descanso e se dirige para a sacada do hostel, onde reclama da paisagem:


“Tá tendo umas queimadas aqui, olha como tá o dia. Tudo amarelo, parece que botaram um filtro. Sabe aqueles filtros de apocalipse? Calor! Aqui tá tacando fogo em tudo.”

A vista da sacada revela o ar denso e o “filtro do apocalipse” que geralmente os cineastas de Hollywood utilizam para retratar o sul global. Aqui, na Améfrica, os problemas, em sua maioria, permanecem, mas a forma de Bia fazer arte e enxergar a vida, agora, são diferentes.




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