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“Sol e Lua (Continuam em Harmonia)”: entre amigos e memórias, nasce um videoclipe independente

Foto do escritor: Júlia Rhaine
Júlia Rhaine
22 de mar.
5 min de leitura

Produzido por estudantes da UFMG, o clipe de “Sol e Lua (Continuam em Harmonia)” mistura nostalgia, cotidiano universitário e cenários de Belo Horizonte


Imagem dividida: lua crescente azul-clara sobre fundo preto e estrela explosiva branca/vermelha sobre fundo amarelo.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

Você já sentiu saudade de um momento enquanto ainda o vivia? Aquela sensação de como seria bom se aquilo nunca acabasse, ou se aquela pessoa nunca fosse embora? É um sentimento difícil de definir em palavras sóbrias, mas a música pode ser uma forma de elucidar essas emoções.


A estudante de Cinema da UFMG e produtora audiovisual Giovanna Villefort, conhecida como Chaosfort, lapida esse sentimento de nostalgia há alguns anos, até que, em 2026, ele se materializou em forma de arte. Sol e Lua (Continuam em Harmonia) é uma canção composta e interpretada pela artista, que ganhou um videoclipe no dia 12 de março (assista abaixo). Nele, a artista retrata como, às vezes, somos perseguidos (ou perseguimos) essa sensação de que os momentos bons podem acabar a qualquer instante, especialmente durante a transição da adolescência para a vida adulta.


Mulher sorridente de boné branco apoia-se numa cadeira, em sala com porta de madeira e quadro branco com anotações.
A cantora e estudante de cinema Chaosfort | Foto: Divulgação

Chaosfort sente essa inquietação desde os 16, sete anos atrás, quando começou a escrever a canção. Ela conta que teve a ideia ao sair da escola, debaixo de chuva, com a amiga Yasmin. “Essa cena ficou muito gravada na minha cabeça: a gente tomando aquela chuva, se divertindo e, ao mesmo tempo, acabando o ensino médio. Aquela sensação amarga”, relembra.


Em 2024, incentivada pelos amigos, Chaosfort participou do projeto Casamus na Periferia, que tem o objetivo de gravar, filmar e produzir músicas autorais de artistas independentes. Foi ali que ela deu o pontapé inicial. Mas, como produtora audiovisual, ela ainda sentia falta de algo. “Eu sou do cinema. Então, antes mesmo de fazer a música, acho que eu já estava pensando num clipe”.


Em maio de 2025, o projeto foi aprovado para receber financiamento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura) e o clipe começou a ser planejado. Para Chaosfort, as leis de incentivo são essenciais para sua carreira como produtora independente. “É uma coisa que eu defendo muito. Para mim, às vezes, é a única possibilidade de tirar um projeto da cabeça e fazer acontecer”, afirma.


De amigo em amigo, nasce o videoclipe


Chaosfort continua explicando que, como não se tratava de uma grande quantia, tudo precisava ser feito com agilidade. Por isso, a ajuda de seu amigo publicitário e produtor audiovisual Henrique da Cruz foi essencial. O clipe inteiro foi construído com o poder da amizade, já que todos os participantes são amigos ou amigos de amigos, conectados de alguma forma pela UFMG.


Amy, estudante de Teatro na instituição e uma das atrizes do videoclipe, por exemplo. É colega de Giovanna desde o colégio, quando ainda moravam em Ituiutaba, no interior de Minas Gerais. As duas se reencontraram anos depois na universidade.


De tantos amigos que foram se somando ao projeto, o clipe acabou reunindo uma equipe de 10 pessoas – todos universitários ou recém-formados – que já possuem boas experiências de trabalho, mas que estavam vivenciando algo diferente: a produção independente. “Eu acho muito bonito esse lance da arte, no geral, mas principalmente do cinema, que é uma arte muito coletiva. Não tem como fazer sozinha”, declara a cantora.


Chaosfort conta que foi uma correria: o clipe inteiro foi gravado em dois dias. Durante a produção, alguns precisavam apresentar seminários, enquanto outros tinham acabado de chegar de viagem. Ainda assim, tudo isso dava ao projeto um clima tipicamente universitário.


Mesmo com outras experiências de trabalho parecidas, tanto Henrique quanto Amy falam sobre a diferença de participar de um videoclipe musical independente. “É muito diferente quando a gente trabalha com videoclipe, porque a linguagem da música também está presente ali. A imagem já é um universo simbólico por si só e, quando ela vem casada com a música, conseguimos sentir uma energia diferente a partir dessas duas materialidades”, conta o publicitário, que, junto de Chaosfort, assina a direção criativa do projeto.

“A Giovanna [Chaosfort] queria algo mais natural, como se fosse o dia a dia mesmo. Então, antes de tudo, ela fez um storyboard. Ali ela desenhou e roteirizou para a gente o que queria e como imaginava que ficaria”, declara Amy, que se mostra animada em trabalhar com a amiga.

Ilustração de storyboard de figura verde deitada em sofá roxo; ao lado, tela de câmera mostra mulher sorridente no tapete, com Canta a letra.
Cena no storyboarding e cena no videoclipe inspirada no storyboarding | Foto: Giovanna Villefort

Quanto mais pessoas, mais ajuda — mas também mais gastos, principalmente com transporte e alimentação. Nessa parte, o dinheiro da lei de incentivo foi essencial para que todos pudessem realizar o projeto com qualidade. A gravação também serviu como aprendizado para a estudante de cinema. “É engraçado, porque a gente, como aluno de cinema, sabe disso, mas é na hora de fazer é que realmente aprende e entende como funciona”.


Desvendando BH


Durante a entrevista, Chaosfort destacou que o clipe tem grande inspiração no curta A Hora Vagabunda, do diretor Rafael Conde, que tem Belo Horizonte como cenário. Algo que ela também retoma, mas buscando evitar mostrar os mesmos lugares que sempre aparecem nas publicidades.


Por isso, as gravações ocorreram em locais que os integrantes do projeto realmente frequentam, como as sinucas do bar Tim Bilhares, o que torna o trabalho muito mais divertido, como brinca Amy: “E, no final, a gente jogou sinuca e bebeu!”.


Duas mulheres brindando com copos ao lado de uma mesa de sinuca, em ambiente interno, clima descontraído.
Gravação no bar Tim BIlhares | Foto: Divulgação

“A gente conversou muito, e é legal que, mesmo algumas pessoas não tendo intimidade entre si, o espaço da universidade conecta todo mundo. Então a gente tinha muito assunto para conversar. A gente almoçou no restaurante universitário durante o dia da gravação e explorou o prédio da música”, relata a estudante de cinema.

Chaosfort brinca que passa 80% do seu tempo na Estação Barreiro, já que utiliza os ônibus como principal meio de transporte, e que foi muito especial para ela ter o local como cenário no clipe. “A gente gravou os ônibus, e o pessoal que trabalha lá foi super solidário com a gente, para que pudéssemos garantir a autorização. E os ônibus super complementam a filmagem.”


Amy complementa: “Falar em Belo Horizonte e não falar de ônibus é impossível.”

Grupo brinda diante de grafites; à direita, mulher posa na Estação Barreiro enquanto uma câmera grava.
Gravação no bar Tim Bilhares e na Estação Barreiro | Foto: Divulgação

Tudo acaba para começar de novo


O videoclipe possui uma estética de coming of age (ou amadurecimento), um gênero que foca na transição da adolescência para a vida adulta. No clipe, a protagonista – interpretada por Chaosfort – faz de tudo para reviver os momentos de diversão com seus amigos ou tentar impedir que eles acabem, para não perder essas pessoas. Mesmo assim, ela permanece com aquela sensação amarga de que, em algum momento, tudo terá fim.


A letra da música complementa essa ideia. Com um ritmo pop/MPB mais calmo, os versos são sobre nostalgia, mudanças ao longo do tempo e, principalmente, sobre como, apesar de não podermos deter o tempo e as coisas precisarem mudar, as lembranças permanecem eternas — como a experiência vivida durante a produção do videoclipe.


“Há meio que uma metalinguagem ali, porque, ao mesmo tempo em que as pessoas estão atuando, a maioria dos atores já é amiga da Giovanna [Chaosfort] e está interpretando amigos dela”, analisa Henrique. Então acho que o tipo de memória registrado ali chega a ser quase documental também, justamente porque estamos representando aquela amizade. Acho que essa talvez seja a sensação mais diferente do videoclipe”.


Grupo de amigos posa sorrindo em mirante ao pôr do sol, com skyline da cidade ao fundo.
Equipe do videoclipe reunida | Foto: Divulgação

Assista ao clipe de Sol e Lua (Continuam em Harmonia):



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