O Brasil no Oscar: 65 anos antes de “Ainda Estou Aqui”, “Orfeu Negro” fez história na premiação
- Pablo Albuquerque

- 23 de fev. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 29 de jun.

O público brasileiro respira Ainda Estou Aqui para aqueles que o viveram. O drama político de Walter Salles já dispensa apresentações. A vida de Rubens, Eunice e todos da família Paiva, já foi exaustivamente discutida, as expectativas para o Oscar são o que vem cercando e impulsionando o longa nas últimas semanas. O filme está indicado nas categorias de Melhor Atriz, com a brilhante Fernanda Torres, Melhor Filme Internacional e Melhor Filme, marcando a primeira participação do Brasil na cerimônia em 5 anos, sendo a última em 2020 com Democracia em Vertigem, de Petra Costa.
A abstinência já quinquenal de representação na premiação, junto da narrativa de “fazer justiça” pelos prêmios perdidos por Central do Brasil, do mesmo diretor, em 1999, gerou um real cenário de euforia social, um “clima de copa do mundo”, como vem sendo dito, para o que seria o primeiro Oscar do Brasil. Mas por que Orfeu Negro, de Marcel Camus, não é portador de tal título mesmo sendo ambientado no Rio, falado em português, com atores brasileiros, e tendo levado o Oscar de Melhor Filme Internacional em 1960?
Orfeu Negro e filmes miscigenados
Primeiramente: Orfeu Negro é questionavelmente brasileiro. Com diretor de nacionalidade francesa, e co-produção ítalo-franco-brasileira, a obra retrata um Brasil completamente ufanista, belo, mas irreal. Ambientada nas favelas de um Rio de Janeiro abdicando do status de capital, Orfeu Negro narra o mito grego em uma história de carnaval, samba e muita tradição oral, temas já vastamente explorados e por muitas vezes criticados, por estarem em voga mesmo quando não representam nosso país tanto assim.

É fato que, os personagens, as paisagens, os diálogos, são construídos pela ótica erotizada de um diretor francês, um estrangeiro, que foca unilateralmente no belo de nossa cultura para apelar ao público internacional. Por mais que seja dotada de romantismo ingênuo, a trama apresenta pensamentos interessantes quando tocada pela parte brasileira envolvida. O carnaval leva C maiúsculo, é o sonho esperado o ano inteiro pela classe trabalhadora. Não apenas um feriado, mas a oportunidade de performar numa cidade já tão impositiva nos papeis de seus cidadãos o que o indivíduo bem querer.
A música “A Felicidade” composta para o filme por Vinicius de Moraes e Tom Jobim expressa bem a ideia: “A felicidade do pobre parece a grande ilusão do Carnaval. A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho ao fazer a fantasia. De rei, ou de pirata ou de jardineira. E tudo se acaba na quarta-feira. Tristeza não tem fim. Felicidade sim”. É uma pena que a obra em seu todo ignore qualquer crítica para a consolidação de um paraíso tropical exótico.
Dito e feito, a crítica internacional amou nosso Orfeu do Carnaval, nós nem tanto. Crescer brasileiro é crescer em meio à uma cultura miscigenada e sincretista. Nossa música, nossa comida, nossas paisagens, nosso idioma, tudo que nos cerca tem suas raízes espalhadas pelos mais diversos países, nas mais diversas sociedades, e é irônico que um filme produzido por 3 países completamente diferentes ofereça uma visão tão mesquinha do que é o nosso país e do que significa ser Brasileiro.
O gosto amargo no imaginário nacional se deu por isso, não somos representados no filme, estamos sendo comentados internacionalmente, mas a figura das conversas e congratulações não se parece conosco.
Cannes e Oscar
Apesar dos pesares, o Brasil torceu por Orfeu Negro nas premiações internacionais. Abrimos mão do nosso orgulho para tentar, ao menos, nos aproveitar um pouco da visibilidade dada pelo filme. Tendo ganho a Palma de Ouro no Festival de Cannes, agora só nos restava o Oscar, que também veio. Toda a torcida teve fim irônico, já que pelo diretor ser francês, e a maior parte do dinheiro da produção também, os louros foram todos para a França. Chateante? Sim. Mas se o Oscar viesse para o Brasil seria mesmo motivo de tanta comemoração? O Brasil do filme, o “Brazil” com Z, merece mesmo ser premiado?
Parte de minha torcida para Ainda Estou Aqui envolve esse sentimento. Esse sim, um filme indubitavelmente brasileiro. Representando a realidade nua e crua de um dos momentos mais assombrosos de nossa história, a obra não passa apenas isso ao público internacional. Sim, houveram torturas, houveram mortes, presos políticos, censura, tudo de ruim e do pior, mas não é apenas sobre isso, é sobre como uma mulher, como uma nação inteira, lutaram e continuam lutando dia após dia sob qualquer conjuntura, apesar das adversidades. Isso diz muito mais sobre o Brasil, sobre o nosso povo, do que uma visão simplória de carnaval e morro.
O povo brasileiro que merece ser premiado é aquele que se faz barulhento para mostrar que ainda está ali, e não sairá até ter o que merece.



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