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O que o cárcere faz com uma mãe

Foto do escritor: Júlia Rhaine
Júlia Rhaine
10 de mai.
6 min de leitura

Ao acompanhar mães encarceradas e viver a própria maternidade, Nayara começa a repensar o trabalho que realiza com a literatura


Ilustração de mulher de vermelho em sala escura, olhando papéis voando em branco, amarelo e verde.
Ilustração Digital por Laís Fidélis

A maternidade é, por definição, a condição de ser mãe. Esse delicado momento da vida vai muito além da gestação e do parto: ele se estende à criação, ao cuidado e à formação de uma pessoa. Ser mãe envolve responsabilidades físicas, emocionais e sociais.


Todos estamos conectados, de alguma forma, por essa experiência. Ela atravessa a vida, seja no papel de filhos e filhas, seja na experiência de maternar. Para além da biologia, ser mãe também é vínculo afetivo, proteção e cuidado. É participar da formação de novos indivíduos, construir um novo mundo humano dentro de si.


Ao longo da história, a figura materna foi construída a partir dos símbolos de amor incondicional, dedicação integral e renúncia absoluta, ideia sintetizada no ditado popular: “ser mãe é padecer no paraíso”.


Mas essa narrativa sobre a maternidade carrega tensões. Para algumas mulheres, o maternar pode significar controle sobre o próprio corpo, restrição de desejos e apagamento da individualidade.


Entre o amor incondicional e a gratidão, existe uma sociedade que espera que mães se dediquem integralmente aos seus filhos e anulem sua própria existência, abandonando outros desejos dentro de si.


E que acontece quando esse conflito de aprisionamento ocorre em privação de liberdade? Surge a maternidade no cárcere.

Em um espaço marcado pela vigilância, pela separação e pela perda de autonomia, o cuidado materno passa a coexistir com as limitações impostas pela prisão. É nesse encontro entre afeto e privação que surgem novas perguntas sobre o direito de maternar, os impactos do encarceramento e as formas de existência dessas mulheres dentro do sistema prisional.


Remissão de pena por meio da literatura: a história de Nayara


Nayara Noronha é professora do Departamento de Ciências Administrativas da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e se deparou com o tema do cárcere em 2021, quando começou a trabalhar na universidade e precisava apresentar um projeto de pesquisa.


Escritora e coordenadora do Lili – Literatura Livre, um grupo que busca a remição de pena por meio da literatura, a professora queria desenvolver um esquema de leitura voltado a obras de autoras mulheres destinadas a um público feminino.


Inicialmente, não havia pensado no sistema carcerário, mas, ao conversar com as professoras Carol Barros, da Psicologia, e Deise Ferraz, do Departamento de Ciências da Administração, descobriu a possibilidade – prevista na Resolução nº 391, de 10 de maio de 2021, do Conselho Nacional de Justiça, então muito recente – de remição de pena por meio da leitura.


O ponto é que o projeto é realizado no Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade, atualmente a única unidade prisional destinada à recepção de gestantes e lactantes em Minas Gerais.


Estabeleceram um diálogo positivo com a juíza da comarca de Vespasiano, responsável tanto pelo Complexo Penitenciário Feminino de Vespasiano quanto pelo Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade, onde o projeto passou a ser desenvolvido. A unidade atende, em média, de 30 a 40 detentas, em regime de alta rotatividade.


O trabalho da professora já é complexo por si só, mas, nos últimos quatro meses, ganhou uma nova dimensão com o nascimento de sua primeira filha. Se antes seu interesse no cárcere estava voltado à literatura, agora ele se amplia à maternidade.


Conversa de mãe para mãe


O nascimento de sua filha transformou a maneira de enxergar o próprio trabalho: “Quando minha filha chorava sem parar e eu tentava mil estratégias diferentes, sem que, às vezes, nada funcionasse, eu pensava: como elas fazem para acalmar seus bebês na prisão?”


Na primeira semana de abril de 2026, Nayara, retornou à unidade prisional, depois de 4 meses afastada. O grupo realiza os encontros dentro do centro, em formato de clube do livro: as participantes escolhem uma obra e, mensalmente, os integrantes do projeto vão até elas, para que compartilhem e discutam as experiências suscitadas pela leitura. E a professora confessa que estava muito mais interessada nas questões que atravessam a maternidade do que na discussão da leitura em si.


“Ali, além de condutas um pouco mais flexíveis do que nas prisões comuns, elas vivenciam a hipermaternidade.” O termo que ela traz refere-se ao excesso de convivência e dedicação materna nos primeiros meses de vida do bebê, em um ambiente de isolamento, como as unidades prisionais. A exigência de cuidados 24 horas por dia, sem uma rede de apoio, leva à fadiga física e ao esgotamento psicológico.


Uma das maiores dores que Nayara compartilha é perceber como, naquele espaço, muitas se sentem incapazes de desempenhar o papel materno ideal e sofrem ao enxergar os impactos que o ambiente carcerário pode ter sobre os filhos. “Ver elas sendo mães com tão poucos recursos me permitiu aliviar um pouco a culpa materna. Olho para os bebês e penso na minha filha, que tem um quarto todo colorido só para ela, enquanto aqueles bebês dividem a cela com as mães e outras mulheres, sem brinquedos e com poucos estímulos.”


A hipermaternidade é seguida pelo movimento oposto, chamado de hipomaternidade: uma ruptura súbita do vínculo construído ao longo dos primeiros meses de vida da criança. No centro, depois que o bebê completa um ano, ele passa a ficar sob os cuidados de familiares que possam acolhê-los ou, em casos mais raros, seguem para adoção. A maioria das mulheres precisa entregar os filhos e retornar às prisões onde estavam anteriormente.


“Até hoje só presenciei uma mãe chorando pela proximidade da entrega de seu filho. Elas, até o último minuto, têm esperança de conseguir um alvará de soltura ou a prisão domiciliar que permita continuar cuidando das crianças. O sonho delas é voltar para suas famílias. É inimaginável para mim ficar longe da minha filha e entregá-la para ser cuidada por outras pessoas que não eu e o pai dela”, comenta.


Mãe de uma bebê ainda em fase de amamentação exclusiva, Nayara afirma que não consegue permanecer muitas horas longe da filha e passou a refletir sobre o impacto da separação precoce entre mães encarceradas e seus filhos. “Muitas dessas crianças que serão entregues aos cuidados ainda estão amamentando no peito e esse distanciamento da mãe deve ser muito brusco para a criança. A primeira infância é tão importante para o desenvolvimento humano”.


“Não poder acompanhar o crescimento de um filho deve ser um sofrimento muito grande para a criança e para a mãe. O que essas mulheres fizeram socialmente que justifique isso?”, questiona, ao levantar reflexões sobre os limites da punição imposta pelo sistema prisional.


Em diversos casos, o envolvimento dessas mulheres com atividades ilegais ocorre em contextos de vulnerabilidade econômica, ausência de rede de apoio, violência doméstica ou dependência financeira de parceiros ligados ao crime. Isso não elimina a responsabilidade pelos delitos cometidos, mas ajuda a compreender a percepção de que o sistema penal brasileiro não foi estruturado para mulheres, desconsiderando as especificidades da maternidade e do cuidado infantil.


Nayara introduz o conceito de “dupla pena” (ou dupla punição), que descreve a situação das mães no sistema prisional brasileiro. Essas mulheres sofrem simultaneamente duas sanções: a sentença oficial, determinada pela Justiça em decorrência do crime cometido, e a punição extra oficial imposta pela sociedade e pela família, associada ao descumprimento dos papéis tradicionais de cuidadora e mãe zelosa.


Diferentemente dos homens presos, que costumam receber visitas constantes de mães e esposas, as mulheres são frequentemente abandonadas por parceiros e familiares ao ingressarem no cárcere.


Um dos aspectos que Nayara considera mais marcantes é o cuidado coletivo construído entre as mulheres dentro da prisão. Segundo ela, os bebês acabam sendo acolhidos não apenas pelas mães, mas também por outras detentas, que se revezam em gestos de apoio e atenção.


Ao comparar com sua própria vivência, a professora relata sentir, em muitos momentos, a solidão do cuidado materno. Com uma rede de apoio limitada, ela afirma que há dias em que sente falta de outras mãos e outros “colos” para dividir a rotina com a filha. Essa solidariedade entre as mulheres no exercício da maternidade se revela como uma das poucas experiências que considera positivas dentro do cárcere.


“O que mais ouço é "passa tão rápido", mas tem dias que 24h é uma eternidade. Cuidar de um bebê é um trabalho exaustivo e a rotina do cuidado - trocar fralda, dar mamar ou mamadeira, levar no pediatra, dar banho, dar vacina, fazer sonecas - são parecidas para todos os bebês e esse tipo de aprisionamento me aproxima da experiência dessas mulheres”. Ao mesmo tempo, ela reconhece as diferenças profundas entre as realidades.


Entre a prisão e a maternidade: a literatura como refúgio


“Me tornei mãe há pouco meses e ainda estou processando as desigualdades entre a minha experiência de maternar e das mulheres privadas de liberdade, tenho falado sobre isso na terapia”.

Nayara relata que o projeto de leitura passou a ocupar um papel que vai além da discussão de temas sociais mais duros. Se, no início, havia resistência em incluir obras mais leves ou de entretenimento, com o tempo ela passou a compreender que, naquele ambiente, a literatura também pode funcionar como um espaço de acolhimento emocional, oferecendo momentos de leveza.


Nas rodas de leitura realizadas com as mulheres privadas de liberdade, os textos frequentemente abrem brechas para conversas sobre maternidade e emoções. Nesses encontros, a literatura não se limita à análise crítica, mas se torna também um recurso para sustentar afetos e elaborar ausências.


“Quanto a mim, a liberdade que a literatura permite é justamente essa: apesar de todo o sistema, imaginar a possibilidade de outra vida que não aquela”, relata.


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