CineOP: Uma mostra de encontros

Entre filmes, conversas e festas, a CineOP mostra que o cinema também acontece nos espaços entre uma sessão e outra

A 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto começa muito antes da primeira projeção. Nos corredores do Centro de Artes e Convenções da UFOP, artistas, pesquisadores, estudantes, críticos e realizadores transformam o espaço em um grande ponto de encontro do cinema brasileiro.
A potência de um evento como a CineOP só pode ser compreendida presencialmente. Mais do que um espaço de exibição, a cidade parece materializar uma rede construída ao longo de décadas pelos festivais de cinema de Minas Gerais, iniciada em Tiradentes, em 1998, e ampliada por eventos como a CineBH e a própria Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Logo nas primeiras horas, antes mesmo que a credencial deixasse de parecer estranha no pescoço, Baby do Brasil subia ao palco ao lado do diretor Rafael Saar para conversar sobre o documentário que revisita sua trajetória. Ao falar sobre a importância de narrar a própria história e revisitar seus arquivos, Baby apresentou um dos temas que atravessaria toda a programação da Mostra: a preservação das narrativas e o direito de contar a própria história.
Encontrar uma artista como Baby do Brasil dificilmente é uma experiência que se esgota ali. Sua trajetória reúne diferentes tempos da cultura brasileira e evidencia como uma vida dedicada à arte continua produzindo novas leituras sobre si mesma.

A sensação de estar no centro de uma discussão contemporânea sobre o cinema é, de fato, palpável. Foi nesse encontro que percebi um aspecto que a Mostra, a cidade e a própria arte me apresentavam diariamente: estamos em constante reconstrução. Tudo o que produzimos pode se tornar documento, acervo, vestígio de algo maior do que nós mesmos.

Acredito que vai demorar entender e digerir, naturalmente, o encontro com uma figura como Baby, tem a complexidade constante de uma vida longa e intensa, e que, como boa artista, reflete o complexo espírito do tempo que vem e continua com vontade de criar.
Durante o Festival sobra tempo para curtir

As mostras de cinema promovidas pela Universo Produções vão além da programação de filmes e debates. As festas aproximam artistas e público, criando espaços de convivência que continuam, de outra forma, as conversas iniciadas durante o dia.
É curioso como ocupar um lugar nesse espaço, no meio de uma espécie de egrégora cultural, altera a forma de pensar e de enxergar tudo ao redor. Durante um desses momentos, no “rolê” da Mostra, a escolha do DJ Cabra Guaraná para animar a noite me fez retomar uma ideia que vinha atravessando toda a experiência: os arquivos que escolhemos para representar nossa existência. Afinal, também são arquivos as músicas que preservamos, as referências que revisitamos e as memórias coletivas que decidimos manter vivas.
O set dele é conhecido por mashups muitas vezes impensados, nos colocando sempre em contato com novas perspectivas pra músicas inclusive dadas como “batidas”, que já não tocam mais em set de Dj há tempos.
Foi naquele momento que percebi que a preservação também acontece fora das cinematecas. Cada mashup reunia músicas de tempos diferentes, criando novos sentidos para memórias já conhecidas. Assim como um filme restaurado encontra novos públicos, aquelas canções voltavam à vida em outro contexto. Entendi, ali, que arquivo também pode ser pista de dança.
Histórias que permanecem
Na noite seguinte, em uma masterclass com Lincoln Péricles, o LK, realizador da Cinemateca da Quebrada no Capão Redondo, em São Paulo, me colocou novamente em contato com uma sensação que já havia experimentado no encontro com Baby do Brasil no dia anterior. Diante de uma figura por quem tenho enorme admiração, reconheci a mesma característica essencial: a tentativa de incidir sobre o mundo por meio da arte.

Naquele encontro, olho no olho, lembrei de uma frase atribuída a Carl Gustav Jung:
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”
Pelas falas de LK durante a masterclass e, depois, na entrevista concedida à Revista Wanda, ficou evidente que preservar e sustentar nossas narrativas é uma responsabilidade coletiva, um dever tão importante quanto o próprio ato de criar.
Saí dali com a sensação de que somos importantes, de que nossas histórias importam e de que atravessar as estruturas das cidades, e as estruturas que as cidades erguem dentro de nós, é um exercício cotidiano. Um percurso que precisa ser feito todos os dias, devagar e com plena consciência de que inventamos a nós mesmos e ao mundo enquanto seguimos caminhando.
Encontros
Talvez o maior legado da Mostra CineOP não esteja apenas nos filmes exibidos ou nos debates realizados, mas nos encontros que ela torna possíveis.

O cinema sempre me ensinou que somos coletivos. Grandes ou pequenos, externos ou internos, prontos ou ainda em construção. Talvez seja essa a principal lembrança que levo da CineOP: antes de existir nas telas, o cinema existe entre as pessoas.



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